{"id":808,"date":"2009-12-13T11:39:20","date_gmt":"2009-12-13T13:39:20","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=808"},"modified":"2009-12-21T22:29:49","modified_gmt":"2009-12-22T00:29:49","slug":"mensageiros-espirituais","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/mensageiros-espirituais","title":{"rendered":"MENSAGEIROS ESPIRITUAIS"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 mist\u00e9rios confundidos com outros mist\u00e9rios. \u00c9 f\u00e1cil achar que os mensageiros espirituais, por exemplo, s\u00e3o anjos, desses de cinema ou novela, que vivem rodeando as pessoas e acabam se apaixonando por elas. Mas os mensageiros espirituais s\u00e3o de outra natureza. No fundo, n\u00e3o existem, ao contr\u00e1rio dos anjos, t\u00e3o onipresentes. Surgem de repente para cumprir a improv\u00e1vel miss\u00e3o e somem para sempre. Tomam a forma humana por, talvez, serem a ess\u00eancia do humano. Mas chega de teoria. Vamos aos fatos.<\/p>\n<p>Acontece a toda hora. \u00c9ramos muito garotos. Nossa turma deixara a \u00faltima carona do dia e seguia a p\u00e9 pela estrada deserta, enquanto a noite, poderosa, come\u00e7ava a tomar forma por todo canto. Pios de corujas, estalos de gravetos, ruflar de asas (seriam morcegos?) nos rodeavam, apertando o cora\u00e7\u00e3o. Mesmo em grupo, n\u00e3o consegu\u00edamos manter a moral. N\u00e3o havia nada \u00e0 vista, nem sequer uma luz. A estrada aos poucos se confundia com o breu. Carros passavam, amea\u00e7adores.<\/p>\n<p>At\u00e9 que um deles, depois de ter voado rente a n\u00f3s, decidiu dar meia volta e partir em nossa dire\u00e7\u00e3o. Gelamos. O que seria? Quem estaria no volante? Quais pessoas se escondiam na escurid\u00e3o para chegar perto de estudantes apavorados e, naquela altura, completamente sem rumo? Ent\u00e3o algu\u00e9m desceu o vidro da janela do carro e ouviu-se uma voz l\u00e1 no fundo: \u201cEi,voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 o Fulano?\u201d Era eu. \u201cIrm\u00e3o do Ciclano? Pois sou colega do teu irm\u00e3o, cara. Entrem a\u00ed e vamos embora para a cidade\u201d.<\/p>\n<p>Coincid\u00eancia? Ent\u00e3o me digam: por que nunca mais ele surgiu na nossa frente, foi-se embora e n\u00e3o deixou rastros? Teria sido a salva\u00e7\u00e3o de outras pessoas em outros momentos? Ou aquela foi sua hora, quando brotou na estrada gelada do meio do pampa e reconheceu algu\u00e9m, parecido com um amigo?<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 respostas. Vamos a outro caso, o da mo\u00e7a pobre de cal\u00e7a apertada, que se destacou na multid\u00e3o no meio da megal\u00f3pole e nos apontou a rua certa depois de uma tarde de passos perdidos, em que fomos engolidos pelo caos urbano e t\u00ednhamos urg\u00eancia para resolver algumas pend\u00eancias. Ela se destacou sem exibir nada. Nem seu passo era diferente. Mas havia em seu redor algo maior e mais profundo. Imaginei-a voltando-se bruscamente e partindo para n\u00f3s com um largo sorriso.<\/p>\n<p>\u201cO endere\u00e7o que voc\u00eas procuram e precisam achar antes da quatro da tarde fica nessa dire\u00e7\u00e3o. Est\u00e1 perto, n\u00e3o desistam\u201d. Olhei de novo para a mulher. Ela nem sequer tinha olhado para n\u00f3s. Continuara seu caminho, e misturou-se \u00e0 massa. Foi um flash aquela orienta\u00e7\u00e3o, dita fora do mundo, no sonho acordado num momento dif\u00edcil. Seguimos o rumo apontado e chegamos a tempo para resolver a quest\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata de provid\u00eancias comuns, fruto das prega\u00e7\u00f5es e das certezas. Os mensageiros espirituais s\u00e3o vol\u00e1teis, n\u00e3o fazem parte de nenhum credo, nenhum sistema de princ\u00edpios. Eles surgem e somem e pronto. Seriam como lances da divindade em socorro a quem precisa. Porque a vida comum, di\u00e1ria, prosaica, profissional, dom\u00e9stica, t\u00e3o real como uma pedra, \u00e9 no fundo um queijo su\u00ed\u00e7o, cheio de v\u00e3os por onde passam, c\u00e9leres, os p\u00e9s voadores dos mensageiros espirituais.<\/p>\n<p>Eles n\u00e3o pregam a verdade, n\u00e3o possuem nenhuma vaidade em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 eterna busca do Absoluto. S\u00e3o puro movimento em forma de gente. Agem na vig\u00edlia e no sonho. Na imagina\u00e7\u00e3o e na evid\u00eancia. Na vitrine e na escada rolante. No cart\u00f3rio e na escola. Na rua e na torre. N\u00e3o s\u00e3o capazes, como os anjos, de tomar algu\u00e9m pelos bra\u00e7os e lev\u00e1-lo a um hospital. N\u00e3o possuem carne os mensageiros espirituais.<\/p>\n<p>Eles podem, sim, acordar subitamente o \u00fanico m\u00e9dico capaz de fazer aquela cirurgia. Na calada da noite, o doutor, exausto de tantos dias trabalhados, veste-se rapidamente e segue uma estrela. Chega ent\u00e3o \u00e0 sala de opera\u00e7\u00f5es para resolver um impasse.<\/p>\n<p>\u00c9 assim que eles agem. Podem estar ao teu lado. Mas n\u00e3o por muito tempo. Por isso abra os olhos. Eles chegam a qualquer momento. E no instante seguinte, n\u00e3o estar\u00e3o mais aqui. Mas deixar\u00e3o algo em tuas m\u00e3os, a alegria de compartilhar um mist\u00e9rio, a chance de participar da grandeza que sempre nos escapa. Somos ent\u00e3o tocados pela gra\u00e7a dos mensageiros espirituais, esses vulner\u00e1veis ajudantes do Bem, que tanto nos faz falta.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eles n\u00e3o pregam a verdade, n\u00e3o possuem nenhuma vaidade em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 eterna busca do Absoluto. S\u00e3o puro movimento em forma de gente. Agem na vig\u00edlia e no sonho. Na imagina\u00e7\u00e3o e na evid\u00eancia. Na vitrine e na escada rolante. No cart\u00f3rio e na escola. Na rua e na torre. N\u00e3o s\u00e3o capazes, como os anjos, de tomar algu\u00e9m pelos bra\u00e7os e lev\u00e1-lo a um hospital. 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