{"id":811,"date":"2009-12-13T17:49:18","date_gmt":"2009-12-13T19:49:18","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=811"},"modified":"2009-12-21T22:58:58","modified_gmt":"2009-12-22T00:58:58","slug":"a-fala-de-prometeu","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/a-fala-de-prometeu","title":{"rendered":"A FALA DE PROMETEU"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>O mundo n\u00e3o existe e nenhum lugar faz sentido. N\u00e3o se trata de niilismo ou pessimismo, \u00e9 a pura verdade e nada podemos fazer contra ela. Raspe o edif\u00edcio e renasce o terreno baldio que o precedeu. Continentes submergem sem deixar vest\u00edgios. A cidade abandonada n\u00e3o guarda nenhuma mem\u00f3ria. Tua inf\u00e2ncia jamais te pertenceu. O notici\u00e1rio se repete porque exauriu sua capacidade de iludir. Tudo flui para o nada nesta rua de fim de bairro, onde as pessoas chutam pedras a esmo, solit\u00e1rias.<\/p>\n<p>As perguntas j\u00e1 foram respondidas: nascemos para passar o tempo, vivemos para acumular d\u00favidas e desaparecemos entre gargalhadas alheias ao nosso mart\u00edrio. A vida pessoal \u00e9 uma obsess\u00e3o de mentes que se ocupam \u00e0 toa. Falar da vida alheia parece ser uma sa\u00edda para o vazio universal, mas chega a hora de fechar a porta, recolher-se, e deixar que as corujas ocupem o telhado. As televis\u00f5es nos assistem e caem no sono.<\/p>\n<p>\u00c9 in\u00fatil ocupar-se com planos, eles ser\u00e3o tra\u00eddos. \u00c9 exaustivo palmilhar os caminhos, eles nunca te levam ao destino. N\u00e3o h\u00e1 poder em existir, mesmo que reines sobre a face da Terra. Teus s\u00faditos voltar\u00e3o as costas quando menos esperas. Eles compartilham da mesma sina, a indiferen\u00e7a total do Mist\u00e9rio que nos circunda. H\u00e1 os que tentam extrair poesia do c\u00e9u estrelado, mas a Via L\u00e1ctea empedrou e empurra o Cruzeiro para o abismo.<\/p>\n<p>O bocejo \u00e9 a \u00fanica lei universal. Bilh\u00f5es de criaturas nascem para dormir. Quem se insurge contra esse absurdo acaba sendo insuflado pela ins\u00f4nia. Garfos rasgam imagina\u00e7\u00f5es soltas da vig\u00edlia. E o sono toma conta de tudo, numa catedral onde o breu \u00e9 a divindade. Insetos chiam num horizonte de agulhas. Corvos piam em janelas infecundas. Socos e surras se agrupam em torno de almas de vime. A metralha varre como granizo. H\u00e1 nucas quando frontes se exaltam. E costas largas que abrigam crimes.<\/p>\n<p>N\u00e3o existe carne desperta no a\u00e7ougue sombrio. Nem sossego nos corredores de f\u00faria. Nossos p\u00e9s mergulham em areias frias. Minas somem dos mapas, tomados pelos fungos. Facas cortam a luz que urra na margem do rio. H\u00e1 algo de roedor nas fu\u00e7as dos minutos. As horas suam nas cavernas surdas. E escorrem, pelas trilhas dolorosas de p\u00e1ssaros extintos.<\/p>\n<p>Nada existe, a n\u00e3o ser a linguagem. Tudo finda, com exce\u00e7\u00e3o da palavra. O que nos ocupa n\u00e3o tem import\u00e2ncia, o que pega \u00e9 o texto, o verso, a frase, a letra. As falas s\u00e3o os \u00fanicos sobreviventes do massacre. O dito \u00e9 o que ressurge, cria, funda. O amor \u00e9 seu filho, a dor sua prova. Passam os s\u00e9culos, mas tua s\u00edlaba fica. Como um f\u00edgado que renasce diante do abutre. \u00c9s ladr\u00e3o do fogo, Prometeu acorrentado, a cuspir no medo. De tua boca sai a met\u00e1fora, a senten\u00e7a, o desafio da pitonisa, a salva de canh\u00f5es, o grito.<\/p>\n<p>Basta tua garganta para revelar a senha, submersa pela sanha assassina. A vida escapa, mas teu poema \u00e9 a corda sobre o precip\u00edcio. \u00c9 espantoso ver Deus p\u00f4r-se de p\u00e9 quando enfim consegues achar o som forjado em tua gl\u00f3ria. Estendes ent\u00e3o o dedo em dire\u00e7\u00e3o a esse gesto de Capela Sistina. \u00c9s a Cria\u00e7\u00e3o, e a Terra enfim te acolhe, na semeadura ut\u00f3pica e sem motivos. Agora \u00e9s um ru\u00eddo de sementes em dire\u00e7\u00e3o \u00e0s \u00e1guas. Brotas dessa brutalidade vaga, feita de ossos.<\/p>\n<p>Teu rosto emerge na tormenta. A superf\u00edcie se acalma. Um sopro cruza teu cora\u00e7\u00e3o como um esp\u00edrito.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nada existe, a n\u00e3o ser a linguagem. Tudo finda, com exce\u00e7\u00e3o da palavra. O que nos ocupa n\u00e3o tem import\u00e2ncia, o que pega \u00e9 o texto, o verso, a frase, a letra. As falas s\u00e3o os \u00fanicos sobreviventes do massacre. O dito \u00e9 o que ressurge, cria, funda. O amor \u00e9 seu filho, a dor sua prova. Passam os s\u00e9culos, mas tua s\u00edlaba fica. Como um f\u00edgado que renasce diante do abutre. \u00c9s ladr\u00e3o do fogo, Prometeu acorrentado, a cuspir no medo. 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