{"id":814,"date":"2009-12-13T18:32:43","date_gmt":"2009-12-13T20:32:43","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=814"},"modified":"2009-12-21T22:12:25","modified_gmt":"2009-12-22T00:12:25","slug":"crime-visto-do-espelho","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/crime-visto-do-espelho","title":{"rendered":"CRIME VISTO DO ESPELHO"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>A cara refletida no espelho era grande, pipocada, grossa. Um bigode exagerado grudava-se \u00e0s costeletas, algumas mechas ca\u00edam da cabeleira, as orelhas eram enormes e fl\u00e1cidas. Os olhos pretos tinham se tornado foscos, quase n\u00e3o se distinguiam naquela ramaria de linhas e p\u00ealos.<\/p>\n<p>O espet\u00e1culo do seu rosto, im\u00f3vel diante do espelho que cobria toda a parede, era apenas o primeiro plano de um vasto painel, formado pelo movimento da rua e da cal\u00e7ada em frente \u00e0 sua barbearia. Sentado na cadeira gasta em vinte anos pelos fregueses que ele custou a conquistar \u2014 e que depois desapareceram &#8211; ele via, ao fundo daquela paisagem de vidro, os carros cruzarem, de maneira desigual, o espa\u00e7o refletido. Pois, bem no meio, havia um a divis\u00e3o que repartia a realidade em cascas diferentes do mesmo ovo.<\/p>\n<p>No outro lado da rua, na cal\u00e7ada escondida pelos \u00f4nibus, autom\u00f3veis e caminh\u00f5es que passavam a toda velocidade, estavam os elementos novos do seu bairro: a lanchonete, onde oper\u00e1rios e colegiais disputavam os poucos bancos para almo\u00e7os r\u00e1pidos ou refrigerantes; a boutique, que tinha substitu\u00eddo o a\u00e7ougue, exibindo, em vez de carnes e donas de casa angustiadas, as jovens senhoras que alugaram os apartamentos rec\u00e9m constru\u00eddos; e tamb\u00e9m a padaria luminosa e sempre lotada, erguida h\u00e1 dois meses no terreno baldio do falecido coronel Beregaray, que no come\u00e7o do s\u00e9culo era dono da metade do bairro.<\/p>\n<p>Desocupado compulsoriamente pelos novos h\u00e1bitos, o barbeiro recusava-se a abandonar seu posto, antigo local de encontro dos companheiros de bermudas, chinelos e camiseta, que esticavam uma conversa no banco em frente \u00e0 sua porta, nos dias de ver\u00e3o, ou que se aglomeravam dentro do estabelecimento com casacos e opini\u00f5es sobre futebol e pol\u00edtica nos longos meses de inverno e chuva.<\/p>\n<p>Naquele tempo &#8211; e n\u00e3o faz muito &#8211; era o encarregado de neg\u00f3cios espont\u00e2neos, como vender um rev\u00f3lver de estima\u00e7\u00e3o, cabo de ouro, ou autom\u00f3veis antigos, entre aposentados exc\u00eantricos. Guardava tamb\u00e9m recados e chaves de senhores respeit\u00e1veis, para pedreiros que chegariam um pouco mais tarde, ou dom\u00e9sticas envolvidas em compras ou namoros demorados.<\/p>\n<p>Era ele tamb\u00e9m que se ocupava &#8211; antes de surgir a banca da esquina &#8211; dos 20 exemplares do Correio do Povo vendidos religiosamente entre os mais tradicionais habitantes da rua. Na sua barbearia, havia uma valiosa cole\u00e7\u00e3o de exemplares antigos da revista O Cruzeiro, no tempo em que a pol\u00edtica tinha gra\u00e7a e as pessoas famosas matavam por amor.<\/p>\n<p>Agora, sentado no seu trono, usava o tempo para desvendar os mist\u00e9rios dos novos habitantes &#8211; j\u00e1 que os antigos tinham se mudado, morrido ou simplesmente cortado rela\u00e7\u00f5es. Observava os grupos adolescentes que atravessavam a rua para esperar o \u00f4nibus, tentando, todos os dias, fixar algum rosto para reconhecer no dia seguinte. Ou ent\u00e3o apostava consigo mesmo se poderia acertar a hora em que Dona Laura, a nova dona do casar\u00e3o, passava em dire\u00e7\u00e3o ao escrit\u00f3rio de advocacia na esquina.<\/p>\n<p>Mas nada fazia sentido. Os adolescentes se pareciam, Dona Laura ficava meses sem mostrar as curvas (teria achado outro caminho?) e os velhos, esses n\u00e3o existiam mais. Talvez tivessem fabricado um asilo gigante, longe da cidade, onde eles eram alimentados com pir\u00e3o de batata e antigas valsas em \u00e1lbuns oportunamente reeditados.<\/p>\n<p>Do vasto enigma, sobrava seu rosto e a cumplicidade do espelho que, assim mesmo, gostava de pregar suas pe\u00e7as, gra\u00e7as ao racha que o dividia em dois e fazia os autom\u00f3veis e as pessoas desaparecerem para surgirem em planos diferentes. E tamb\u00e9m havia aquelas &#8220;rugas&#8221; no canto do vidro, que dilu\u00edam as imagens e obrigavam o barbeiro a desistir e voltar sua aten\u00e7\u00e3o para o ponto seguinte, para a velocidade inc\u00f4moda da vida, que lhe atrapalhava a vis\u00e3o, os h\u00e1bitos e o bolso.<\/p>\n<p>Um dia, cansado da nova rotina, j\u00e1 que o movimento excessivo do seu &#8220;cinema&#8221; particular lhe enchia de perguntas em vez de lhe apresentar solu\u00e7\u00f5es, resolveu cochilar na cadeira. Para pessoas como ele, acostumadas ao trato dedicado com os fregueses, \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o de bom relacionamento pessoal que existe nessas velhas profiss\u00f5es, cochilar era faltar o respeito consigo mesmo. Mas o sono repentino era a prova de que ele j\u00e1 se habituara ao vazio da sua vida nova, que lhe consumia o rosto e a vontade, obrigando-o a permanecer em estado de apatia permanente, jogado fora como um mendigo de pra\u00e7a.<\/p>\n<p>Era uma tarde de sexta-feira e o vento norte enchia as ruas de uma n\u00e9voa de poeira, sacudindo os eucaliptos d\u00e1 avenida e levantando monotonamente as saias e os casacos dos passantes. Nada lhe obrigava a ficar acordado, a n\u00e3o ser suas d\u00favidas, que pesavam demais naquele in\u00edcio mon\u00f3tono de primavera. Longe de si mesmo, aprofundou-se no esquecimento, apesar do barulho da rua e da gritaria da natureza, aparvalhada com a mudan\u00e7a brusca da humanidade e das esta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>S\u00fabito, um berro distante atrapalhou seu sonho formado por lentas prociss\u00f5es de casarios e velhos endomingados. Um ru\u00eddo vinha como um alfinete gigante, perfurando o mundo, penetrando em seu corpo desmaiado e que aos poucos come\u00e7ou a sacudi-lo na cadeira. Pensou que fosse ele mesmo que estivesse gritando, pedindo pelo amor de Deus que o tempo voltasse, que o piano do cinema tocasse para tr\u00e1s para acompanhar as aventuras son\u00e2mbulas de algum casal envolvido numa tr\u00e1gica e melosa hist\u00f3ria de desamor.<\/p>\n<p>Abrindo os olhos, seu pensamento custou a acompanhar o que se passava na sua frente, refletido no espelho, bem acima de sua testa suada de susto: algu\u00e9m, na cal\u00e7ada do outro lado tentava escapar de uma faca empunhada com f\u00faria por um homem alto e musculoso, t\u00e3o forte que n\u00e3o deixava nenhuma chance para o autor do berro e do seu despertar apressado.<\/p>\n<p>Para seu desespero, o sinal, rec\u00e9m aberto, despejou um volume de carros que ocupou todo o espa\u00e7o do espelho. Grudado na cadeira, ele ainda esperou alguns segundos para ver a continua\u00e7\u00e3o do seu pesadelo, como se o desfecho pudesse decifrar aquele momento confuso. No intervalo entre um \u00f4nibus e um carro, viu a faca sendo enterrada na barriga da v\u00edtima, que antes de tocar no ch\u00e3o foi encoberta por nova rajada de autom\u00f3veis.<\/p>\n<p>A cena custou a se manifestar com a transpar\u00eancia exigida pelo pavor da testemunha. Pelo efeito da rachadura, cada estocada avan\u00e7ava aos saltos, e tremia enquanto arrancava os berros da v\u00edtima, n\u00e3o reconhec\u00edvel por tamb\u00e9m estar situada naquela fenda que encobria o crime. Era como se o filme, muito antigo, fosse interrompido pela incompet\u00eancia da proje\u00e7\u00e3o, enchendo de impaci\u00eancia os espectadores.<\/p>\n<p>O barbeiro sentiu que suas m\u00e3os estavam grudadas na cadeira n\u00e3o pelo suor, mas pelo sangue que deveria estar chegando j\u00e1 na sarjeta da cal\u00e7ada em frente. Poderia ter visto o final do crime, mas como conseguiu se levantar, o rosto imenso cobriu o campo visual, lhe deixando novamente s\u00f3, cara a cara consigo mesmo.<\/p>\n<p>Essa vis\u00e3o, entretanto, j\u00e1 n\u00e3o lhe interessava mais. Seu rosto j\u00e1 n\u00e3o fazia mais sentido, apenas lhe atrapalhava o p\u00e2nico e a curiosidade. N\u00e3o queria mais ver seus olhos sem resposta, aquela confus\u00e3o de pequenas cicatrizes e linhas disformes. Precisava descobrir o que se passava por tr\u00e1s da sua cabe\u00e7a cansada e al\u00e9m da sua express\u00e3o de espanto. Por isso, voltou-se demoradamente para enxergar a v\u00edtima ensang\u00fcentada.<\/p>\n<p>Foi seu \u00fanico gesto de liberdade, o de virar-se para interromper uma vida vivida pelo avesso. De costas, abandonava ali o mundo repartido que refletia assassinatos. E deu um passo decidido para algu\u00e9m que pedia socorro, enquanto pegava sua navalha no fundo da gaveta, para enfrentar o destino mal intencionado, que lhe pregava pe\u00e7as.<\/p>\n<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>A cara refletida no espelho era grande, pipocada, grossa. Um bigode exagerado grudava-se \u00e0s costeletas, algumas mechas ca\u00edam da cabeleira, as orelhas eram enormes e fl\u00e1cidas. Os olhos pretos tinham se tornado foscos, quase n\u00e3o se distinguiam naquela ramaria de linhas e p\u00ealos.<\/p>\n<p>O espet\u00e1culo do seu rosto, im\u00f3vel diante do espelho que cobria toda a parede, era apenas o primeiro plano de um vasto painel, formado pelo movimento da rua e da cal\u00e7ada em frente \u00e0 sua barbearia. Sentado na cadeira gasta em vinte anos pelos fregueses que ele custou a conquistar \u2014 e que depois desapareceram &#8211; ele via, ao fundo daquela paisagem de vidro, os carros cruzarem, de maneira desigual, o espa\u00e7o refletido. Pois, bem no meio, havia um a divis\u00e3o que repartia a realidade em cascas diferentes do mesmo ovo.<\/p>\n<p>No outro lado da rua, na cal\u00e7ada escondida pelos \u00f4nibus, autom\u00f3veis e caminh\u00f5es que passavam a toda velocidade, estavam os elementos novos do seu bairro: a lanchonete, onde oper\u00e1rios e colegiais disputavam os poucos bancos para almo\u00e7os r\u00e1pidos ou refrigerantes; a boutique, que tinha substitu\u00eddo o a\u00e7ougue, exibindo, em vez de carnes e donas de casa angustiadas, as jovens senhoras que alugaram os apartamentos rec\u00e9m constru\u00eddos; e tamb\u00e9m a padaria luminosa e sempre lotada, erguida h\u00e1 dois meses no terreno baldio do falecido coronel Beregaray, que no come\u00e7o do s\u00e9culo era dono da metade do bairro.<\/p>\n<p>Desocupado compulsoriamente pelos novos h\u00e1bitos, o barbeiro recusava-se a abandonar seu posto, antigo local de encontro dos companheiros de bermudas, chinelos e camiseta, que esticavam uma conversa no banco em frente \u00e0 sua porta, nos dias de ver\u00e3o, ou que se aglomeravam dentro do estabelecimento com casacos e opini\u00f5es sobre futebol e pol\u00edtica nos longos meses de inverno e chuva.<\/p>\n<p>Naquele tempo &#8211; e n\u00e3o faz muito &#8211; era o encarregado de neg\u00f3cios espont\u00e2neos, como vender um rev\u00f3lver de estima\u00e7\u00e3o, cabo de ouro, ou autom\u00f3veis antigos, entre aposentados exc\u00eantricos. Guardava tamb\u00e9m recados e chaves de senhores respeit\u00e1veis, para pedreiros que chegariam um pouco mais tarde, ou dom\u00e9sticas envolvidas em compras ou namoros demorados.<\/p>\n<p>Era ele tamb\u00e9m que se ocupava &#8211; antes de surgir a banca da esquina &#8211; dos 20 exemplares do Correio do Povo vendidos religiosamente entre os mais tradicionais habitantes da rua. Na sua barbearia, havia uma valiosa cole\u00e7\u00e3o de exemplares antigos da revista O Cruzeiro, no tempo em que a pol\u00edtica tinha gra\u00e7a e as pessoas famosas matavam por amor.<\/p>\n<p>Agora, sentado no seu trono, usava o tempo para desvendar os mist\u00e9rios dos novos habitantes &#8211; j\u00e1 que os antigos tinham se mudado, morrido ou simplesmente cortado rela\u00e7\u00f5es. Observava os grupos adolescentes que atravessavam a rua para esperar o \u00f4nibus, tentando, todos os dias, fixar algum rosto para reconhecer no dia seguinte. Ou ent\u00e3o apostava consigo mesmo se poderia acertar a hora em que Dona Laura, a nova dona do casar\u00e3o, passava em dire\u00e7\u00e3o ao escrit\u00f3rio de advocacia na esquina.<\/p>\n<p>Mas nada fazia sentido. Os adolescentes se pareciam, Dona Laura ficava meses sem mostrar as curvas (teria achado outro caminho?) e os velhos, esses n\u00e3o existiam mais. Talvez tivessem fabricado um asilo gigante, longe da cidade, onde eles eram alimentados com pir\u00e3o de batata e antigas valsas em \u00e1lbuns oportunamente reeditados.<\/p>\n<p>Do vasto enigma, sobrava seu rosto e a cumplicidade do espelho que, assim mesmo, gostava de pregar suas pe\u00e7as, gra\u00e7as ao racha que o dividia em dois e fazia os autom\u00f3veis e as pessoas desaparecerem para surgirem em planos diferentes. E tamb\u00e9m havia aquelas &#8220;rugas&#8221; no canto do vidro, que dilu\u00edam as imagens e obrigavam o barbeiro a desistir e voltar sua aten\u00e7\u00e3o para o ponto seguinte, para a velocidade inc\u00f4moda da vida, que lhe atrapalhava a vis\u00e3o, os h\u00e1bitos e o bolso.<\/p>\n<p>Um dia, cansado da nova rotina, j\u00e1 que o movimento excessivo do seu &#8220;cinema&#8221; particular lhe enchia de perguntas em vez de lhe apresentar solu\u00e7\u00f5es, resolveu cochilar na cadeira. Para pessoas como ele, acostumadas ao trato dedicado com os fregueses, \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o de bom relacionamento pessoal que existe nessas velhas profiss\u00f5es, cochilar era faltar o respeito consigo mesmo. Mas o sono repentino era a prova de que ele j\u00e1 se habituara ao vazio da sua vida nova, que lhe consumia o rosto e a vontade, obrigando-o a permanecer em estado de apatia permanente, jogado fora como um mendigo de pra\u00e7a.<\/p>\n<p>Era uma tarde de sexta-feira e o vento norte enchia as ruas de uma n\u00e9voa de poeira, sacudindo os eucaliptos d\u00e1 avenida e levantando monotonamente as saias e os casacos dos passantes. Nada lhe obrigava a ficar acordado, a n\u00e3o ser suas d\u00favidas, que pesavam demais naquele in\u00edcio mon\u00f3tono de primavera. Longe de si mesmo, aprofundou-se no esquecimento, apesar do barulho da rua e da gritaria da natureza, aparvalhada com a mudan\u00e7a brusca da humanidade e das esta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>S\u00fabito, um berro distante atrapalhou seu sonho formado por lentas prociss\u00f5es de casarios e velhos endomingados. Um ru\u00eddo vinha como um alfinete gigante, perfurando o mundo, penetrando em seu corpo desmaiado e que aos poucos come\u00e7ou a sacudi-lo na cadeira. Pensou que fosse ele mesmo que estivesse gritando, pedindo pelo amor de Deus que o tempo voltasse, que o piano do cinema tocasse para tr\u00e1s para acompanhar as aventuras son\u00e2mbulas de algum casal envolvido numa tr\u00e1gica e melosa hist\u00f3ria de desamor.<\/p>\n<p>Abrindo os olhos, seu pensamento custou a acompanhar o que se passava na sua frente, refletido no espelho, bem acima de sua testa suada de susto: algu\u00e9m, na cal\u00e7ada do outro lado tentava escapar de uma faca empunhada com f\u00faria por um homem alto e musculoso, t\u00e3o forte que n\u00e3o deixava nenhuma chance para o autor do berro e do seu despertar apressado.<\/p>\n<p>Para seu desespero, o sinal, rec\u00e9m aberto, despejou um volume de carros que ocupou todo o espa\u00e7o do espelho. Grudado na cadeira, ele ainda esperou alguns segundos para ver a continua\u00e7\u00e3o do seu pesadelo, como se o desfecho pudesse decifrar aquele momento confuso. No intervalo entre um \u00f4nibus e um carro, viu a faca sendo enterrada na barriga da v\u00edtima, que antes de tocar no ch\u00e3o foi encoberta por nova rajada de autom\u00f3veis.<\/p>\n<p>A cena custou a se manifestar com a transpar\u00eancia exigida pelo pavor da testemunha. Pelo efeito da rachadura, cada estocada avan\u00e7ava aos saltos, e tremia enquanto arrancava os berros da v\u00edtima, n\u00e3o reconhec\u00edvel por tamb\u00e9m estar situada naquela fenda que encobria o crime. Era como se o filme, muito antigo, fosse interrompido pela incompet\u00eancia da proje\u00e7\u00e3o, enchendo de impaci\u00eancia os espectadores.<\/p>\n<p>O barbeiro sentiu que suas m\u00e3os estavam grudadas na cadeira n\u00e3o pelo suor, mas pelo sangue que deveria estar chegando j\u00e1 na sarjeta da cal\u00e7ada em frente. Poderia ter visto o final do crime, mas como conseguiu se levantar, o rosto imenso cobriu o campo visual, lhe deixando novamente s\u00f3, cara a cara consigo mesmo.<\/p>\n<p>Essa vis\u00e3o, entretanto, j\u00e1 n\u00e3o lhe interessava mais. Seu rosto j\u00e1 n\u00e3o fazia mais sentido, apenas lhe atrapalhava o p\u00e2nico e a curiosidade. N\u00e3o queria mais ver seus olhos sem resposta, aquela confus\u00e3o de pequenas cicatrizes e linhas disformes. Precisava descobrir o que se passava por tr\u00e1s da sua cabe\u00e7a cansada e al\u00e9m da sua express\u00e3o de espanto. Por isso, voltou-se demoradamente para enxergar a v\u00edtima ensang\u00fcentada.<\/p>\n<p>Foi seu \u00fanico gesto de liberdade, o de virar-se para interromper uma vida vivida pelo avesso. De costas, abandonava ali o mundo repartido que refletia assassinatos. 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