{"id":817,"date":"2009-12-13T18:37:51","date_gmt":"2009-12-13T20:37:51","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=817"},"modified":"2009-12-21T22:57:25","modified_gmt":"2009-12-22T00:57:25","slug":"greve-de-palavras","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/greve-de-palavras","title":{"rendered":"GREVE DE PALAVRAS"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p><\/strong><\/p>\n<p>A recente greve dos roteiristas exp\u00f4s o mecanismo da ind\u00fastria do espet\u00e1culo nos Estados Unidos. Tudo parte da palavra, desde as imagens at\u00e9 a piada que parece t\u00e3o espont\u00e2nea. Nos making of dos dvds, os atores, pelos menos os mais ricos, seguem scripts. A entrevista sobre o tema do filme ou a carreira do artista bebe na fonte que jorra previamente do verbo especializado.<\/p>\n<p>Situa\u00e7\u00e3o inconceb\u00edvel em nosso meio, j\u00e1 que ningu\u00e9m precisa de roteiro para nada. Aqui se improvisa o tempo todo. N\u00e3o \u00e9 costume pagar algu\u00e9m para saber o que dizer em frente \u00e0s c\u00e2maras. Talvez seja melhor assim. Uma bobagem articulada pode causar mais dano do que uma asneira espont\u00e2nea.<\/p>\n<p>A maioria dos escritores brasileiros vive em estado de greve permanente e involunt\u00e1rio. Simplesmente n\u00e3o existem, como os agricultores que sofrem o apodrecimento da safra por falta de transporte. Estocam par\u00e1grafos e empilham manuscritos, enchendo a sala de pap\u00e9is ou cds. H\u00e1 a sa\u00edda pela porta da Internet, mas nesse mar se perdem produ\u00e7\u00f5es e talentos. Escrever n\u00e3o \u00e9 profiss\u00e3o, com raras exce\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Acabam sempre sendo empurrados para fun\u00e7\u00f5es avessas ao of\u00edcio. Mesmo digitando profissionalmente, passam anos sem gerar uma linha de verdade, deixando latente a voca\u00e7\u00e3o, que reclama.\u00a0 Quando, enfim, nasce a decis\u00e3o de investir na pr\u00f3pria arte, chovem cr\u00edticas. Como pode abandonar tudo em favor de um sonho?<\/p>\n<p>Nos Estados Unidos, existe hoje um tipo de cinema cult que \u00e9 o dos roteiristas brilhantes. Grandes estrelas abrem m\u00e3o de seus cach\u00eas para fazer uma ponta em obras de c\u00e9rebros e talentos privilegiados. \u00c9 o cansa\u00e7o da padroniza\u00e7\u00e3o dos roteiros e da venda de Hollywood para as pol\u00edticas imperiais, o que se tornou praxe depois da vit\u00f3ria do macarthismo. As melhores cabe\u00e7as n\u00e3o s\u00e3o mais convocadas, a n\u00e3o ser para abrir m\u00e3o dos originais e deixar que escribas fi\u00e9is ao regime sapateiem em cima.<\/p>\n<p>Dizer que William Faulkner, Bertold Brecht, John Fante, entre tantos outros, trabalhavam para os est\u00fadios, \u00e9 falar em utopia. Hoje temos hist\u00f3rias maquiadas por campanhas publicit\u00e1rias. Ver um blockbuster d\u00e1 saudade de um simples noir dos anos 40. Ou mesmo o megaespet\u00e1culo concebido para ganhar Oscar cansa o olhar. O histrionismo de celebridades consideradas os melhores do mundo contrasta com a majestade de atores cl\u00e1ssicos e inesquec\u00edveis, como Burt Lancaster, que s\u00f3 com o olhar sustentou por um longo tempo seu papel principal de nobre decadente e l\u00facido em \u201cO Leopardo\u201d, de Luchino Visconti.<\/p>\n<p>H\u00e1 decad\u00eancia no cinema. Apesar dos avan\u00e7os da t\u00e9cnica, estamos hoje menos servidos do que na \u00e9poca do Cinemascope, em que at\u00e9 em minha cidade as telas foram modificadas para que pud\u00e9ssemos nos deslumbrar com a grandeza dos \u00e9picos. Nunca esque\u00e7o quando ganhei, em concurso na escola, o privil\u00e9gio de assistir por uma semana, de gra\u00e7a, as sess\u00f5es da principal sala do centro. Nesse per\u00edodo premiado, s\u00f3 passou um filme, \u201cLawrence da Ar\u00e1bia\u201d, a obra-prima absoluta de David Lean.<\/p>\n<p>Exagerei: n\u00e3o s\u00f3 vi v\u00e1rias vezes, como entrava na segunda metade ou sa\u00eda no fim da primeira. Decorei cada fotograma e cada di\u00e1logo (o roteiro \u00e9 de Richard Bolt). \u00c0s vezes, me pego segurando uma pedra depois de uma noite insone murmurando: \u201cAkaba, por terra!\u201d. E saio para conquistar a cidade \u00e0 beira mar, com os canh\u00f5es voltados para o lado errado, o dos navios. Invado a fortaleza, como Lawrence, pela improv\u00e1vel face do deserto.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nos Estados Unidos, existe hoje um tipo de cinema cult que \u00e9 o dos roteiristas brilhantes. Grandes estrelas abrem m\u00e3o de seus cach\u00eas para fazer uma ponta em obras de c\u00e9rebros e talentos privilegiados. \u00c9 o cansa\u00e7o da padroniza\u00e7\u00e3o dos roteiros e da venda de Hollywood para as pol\u00edticas imperiais, o que se tornou praxe depois da vit\u00f3ria do macarthismo. 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