{"id":820,"date":"2009-12-13T19:11:55","date_gmt":"2009-12-13T21:11:55","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=820"},"modified":"2009-12-21T22:41:36","modified_gmt":"2009-12-22T00:41:36","slug":"hora-da-mesa","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/hora-da-mesa","title":{"rendered":"HORA DA MESA"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Havia solenidade nas refei\u00e7\u00f5es. Uma hierarquia definia os pap\u00e9is \u00e0 mesa: pais nas cabeceiras, filhos de um lado e filhas do outro. Os menores estavam mais pr\u00f3ximos da m\u00e3e. Para evitar tumulto, devido \u00e0 quantidade de comensais, n\u00e3o era permitido conversar mais do que o necess\u00e1rio. \u201cPasse o arroz\u201d nunca poderia ser substitu\u00eddo por \u201cbriguei hoje no col\u00e9gio\u201d. Assim como as palavras, as por\u00e7\u00f5es eram rigidamente controladas. Nunca faltou nada porque a disciplina colocava a voragem natural da prole em limites suport\u00e1veis.<\/p>\n<p>O debate aberto, que descambava para a pol\u00edtica ou a anedota, conforme a disposi\u00e7\u00e3o do dia e a eventual presen\u00e7a de convidados, s\u00f3 era franqueado no momento da sobremesa e do cafezinho. Quando o pai viajava, a temperatura da conversa subia at\u00e9 a defec\u00e7\u00e3o precoce dos menores, que debandavam sem esperar que os mais velhos se retirassem antes, como era costume.<\/p>\n<p>Havia diversidade nos doces servidos ap\u00f3s o almo\u00e7o em ocasi\u00f5es especiais \u2013 domingos, anivers\u00e1rios ou quando havia visita. Mas a gelatina recheada de p\u00eassego com floco firme de merengue em cima era nossa favorita. Vinha coroar refei\u00e7\u00f5es antol\u00f3gicas, com pratos que se foram junto com sua autora, como o peixe desfiado e misturado com farofa, o rocambole quilom\u00e9trico de pele crocante, o feij\u00e3o perfeito que, enriquecido de v\u00e1rios ingredientes e temperos, tornava as segundas-feiras uma data t\u00e3o esperada quanto os fins-de-semana.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m comia sem camisa, mesmo no mais t\u00f3rrido ver\u00e3o. Ningu\u00e9m deixava de se pentear ou mesmo deveria perder o hor\u00e1rio sagrado em que \u00e9ramos chamados para o ritual. O \u00e1gape n\u00e3o come\u00e7ava se o pai n\u00e3o decidisse. A tortura mais recorrente era quando um telefonema importante o segurava por um tempo que nos transformava em v\u00edtimas do Holocausto.<\/p>\n<p>O cafezinho vinha de um longo processo caseiro. Sacos da semente crua eram comprados regularmente. Depois, havia os s\u00e1bados de torrefa\u00e7\u00e3o, de grossa catinga.\u00a0\u00a0 A mat\u00e9ria-prima era guardada em lata, aberta todos os dias para que fosse mo\u00edda no moedor manual. Era uma esp\u00e9cie de puni\u00e7\u00e3o, reduzir a p\u00f3, no muque, a semente negra que permitiria o final das refei\u00e7\u00f5es. Mas o resultado compensava. O aroma do caf\u00e9 e a fuma\u00e7a do cigarro dos adultos encerravam o espet\u00e1culo.<\/p>\n<p>Por um bom tempo, a lenha servia de combust\u00edvel para o fog\u00e3o e a \u00e1gua do chuveiro. Soprar a brasa e esperar o momento tanto do banho quanto da comida eram h\u00e1bitos de uma civiliza\u00e7\u00e3o hoje perdida, que dava um trabalh\u00e3o danado, mas que povoou os anos de forma\u00e7\u00e3o. A modernidade s\u00f3 chegou tempo depois, quando uma grande mesa de f\u00f3rmica convivia com paredes pintadas no chamado estilo funcional. As cores variadas que n\u00e3o combinavam desesperavam a m\u00e3e, atrapalhada ao explicar a novidade \u00e0s amigas.<\/p>\n<p>O mundo masculino decidia tudo, mas viv\u00edamos no rega\u00e7o materno. Rode\u00e1vamos aquela que jamais viajava e que voltava vagarosamente do emprego para adiar o furac\u00e3o dom\u00e9stico. Quando todos foram embora, ela ficou \u00e0 espera do carteiro, escasso de novidades. Olhava longamente para a rua vazia, onde sobrava espa\u00e7o e o barulho das novas gera\u00e7\u00f5es n\u00e3o a tranq\u00fcilizavam como antigamente.<\/p>\n<p>Foi-se devagarinho, como um p\u00e1ssaro ferido. M\u00e3e da mesa farta e do rigor que nos acompanha, ela \u00e9 o s\u00edmbolo dessa vida que cultivava a solenidade di\u00e1ria, para fugir do estilo prosaico que acabou tomando conta da cidadania.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Havia solenidade nas refei\u00e7\u00f5es. Uma hierarquia definia os pap\u00e9is \u00e0 mesa: pais nas cabeceiras, filhos de um lado e filhas do outro. Os menores estavam mais pr\u00f3ximos da m\u00e3e. Para evitar tumulto, devido \u00e0 quantidade de comensais, n\u00e3o era permitido conversar mais do que o necess\u00e1rio. \u201cPasse o arroz\u201d nunca poderia ser substitu\u00eddo por \u201cbriguei hoje no col\u00e9gio\u201d. Assim como as palavras, as por\u00e7\u00f5es eram rigidamente controladas. Nunca faltou nada porque a disciplina colocava a voragem natural da prole em limites suport\u00e1veis.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[6,11],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/820"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=820"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/820\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1752,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/820\/revisions\/1752"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=820"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=820"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=820"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}