{"id":828,"date":"2009-12-13T19:15:03","date_gmt":"2009-12-13T21:15:03","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=828"},"modified":"2009-12-21T22:26:25","modified_gmt":"2009-12-22T00:26:25","slug":"discutir-a-relacao","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/discutir-a-relacao","title":{"rendered":"DISCUTIR A RELA\u00c7\u00c3O"},"content":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>Vivemos numa era de transpar\u00eancias e descobrimos que tudo \u00e9 inventado. Come\u00e7a pelo\u00a0 nome, que empresta realidade a criaturas nascidas no zero absoluto. H\u00e1 uma convic\u00e7\u00e3o de que somos evolu\u00eddos por apertar bot\u00f5es e superar os Jetsons, aquelas personagens futuristas que pertencem ao passado. Mas temos de aprender tudo, principalmente a conviver com os contempor\u00e2neos.<\/p>\n<p>\u00c9 f\u00e1cil insurgir-se contra o Estado, patr\u00f5es, colegas. \u00c9 mole emocionar-se com m\u00fasicas, livros, quadros. \u00c9 tranq\u00fcilo manter amizades. \u00c9 duro, mas gratificante, criar filhos e obedecer aos pais. O que n\u00e3o parece humano \u00e9 ter argumentos adequados para chegar perto do entendimento numa rela\u00e7\u00e3o amorosa. N\u00e3o por haver diferen\u00e7as, pois o que existe no mundo \u00e9 desigualdade. Mas porque, por motivos misteriosos, nunca se chega ao ponto. Nesse ringue, quando mais se precisa das palavras, mais elas nos faltam. Ou, se s\u00e3o usadas no excesso, apenas confirmam a intensidade do enigma.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso contrariar a velha percep\u00e7\u00e3o de que tudo se resolve na cama. Os len\u00e7\u00f3is n\u00e3o definem o debate das rela\u00e7\u00f5es. Podem ser decisivos para manter o namoro, noivado, casamento, mas n\u00e3o para a conversa a dois, que para ter conseq\u00fc\u00eancia merece ambiente menos comprometido. Como estamos num tempo em que sensa\u00e7\u00f5es, cheiros, sentimentos, id\u00e9ias viraram mercadoria, resta muito pouco para que o amor verdadeiro passe a limpo uma sintonia que \u00e9 a base da vida adulta.<\/p>\n<p>Apesar de estarmos completamente contaminados pelo mercado, h\u00e1 um nicho que resiste, o da raz\u00e3o. Pois o que temos exposto na vitrine das modernidades n\u00e3o \u00e9 o exerc\u00edcio racional, mas sua nega\u00e7\u00e3o. Quando autores, pol\u00edticos, artistas saem a campo para defender o que pensam, est\u00e3o no fundo tomando partido, se engajando em gavetas usadas estrategicamente por toda esp\u00e9cie de poder. \u00c9 dif\u00edcil encontrar esp\u00edritos livres, pelos menos publicamente. Na intimidade, a liberdade das almas se manifesta quando se discute a rela\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o abordo aqui a briga pelos bens. Apenas me refiro \u00e0 constru\u00e7\u00e3o verbal de uma l\u00f3gica que abarque o oceano, aquele dedal que carrega em v\u00e3o gotas do mar para um lugar seco, como ensinava uma velha par\u00e1bola. \u00c9 o embate de mentes momentaneamente jogadas fora da arena global, j\u00e1 que a crise n\u00e3o existe na publicidade, e \u00e9 tratada, na literatura de auto-ajuda, como insumo para a debilidade mental.<\/p>\n<p>Esp\u00edritos livres, de pessoas adultas que se amam, isolam o tempo para conversar sobre o desgaste do amor que parecia t\u00e3o profundo. Quando um produto cultural chega perto dessa situa\u00e7\u00e3o, convencendo as pessoas de que est\u00e1 revelando algo real, h\u00e1 o estouro. Os best-sellers s\u00e3o a mat\u00e9ria-prima de mais uma ilus\u00e3o, como se livro ou filme pudessem lan\u00e7ar luzes sobre esse momento limite, em que n\u00e3o dispomos do script elaborado e contamos apenas com o uso elementar do verbo escasso, enquanto se derrama sobre n\u00f3s a avalanche das coisas irrevers\u00edveis.<\/p>\n<p>O casal que resolve fazer o balan\u00e7o do casamento, namoro, noivado, \u00e9 como duas pessoas que se encontram no abismo, trafegando em dire\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria. Algu\u00e9m toca nas nuvens, outro mergulha fundo. Ou ambos sobem, quando desistem de entender e decidem continuar. Ou caem, mas cada um para um lado. As estat\u00edsticas tendem a mostrar a queda, mas isso pode ser mais uma evid\u00eancia inventada. J\u00e1 que tudo n\u00e3o passa de fic\u00e7\u00e3o, temos o direito de consagrar ao amor o que nos resta de realidade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 f\u00e1cil insurgir-se contra o Estado, patr\u00f5es, colegas. \u00c9 mole emocionar-se com m\u00fasicas, livros, quadros. \u00c9 tranq\u00fcilo manter amizades. \u00c9 duro, mas gratificante, criar filhos e obedecer aos pais. 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