{"id":830,"date":"2009-12-13T19:15:57","date_gmt":"2009-12-13T21:15:57","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/citacoes-centenarias"},"modified":"2009-12-21T22:08:39","modified_gmt":"2009-12-22T00:08:39","slug":"citacoes-centenarias","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/citacoes-centenarias","title":{"rendered":"CITA\u00c7\u00d5ES CENTEN\u00c1RIAS"},"content":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>Citar de mem\u00f3ria \u00e9 a verdadeira cita\u00e7\u00e3o. Citar letra por letra \u00e9 pl\u00e1gio. N\u00e3o que as sutis mudan\u00e7as introduzidas, sem m\u00e1-f\u00e9, na frase original, sejam o passaporte para a originalidade. Cria\u00e7\u00e3o \u00e9 outra coisa, diferente de pegar carona no pensamento alheio, que exige mais do que pose.<\/p>\n<p>Imp\u00f5e-se primeiro a prud\u00eancia, e depois o pudor, pois o cuidado para n\u00e3o distorcer convive com a vergonha de se fazer passar pelo autor. Essas duas virtudes podem manter o sabor do original, que na fonte foi concebido sem o pecado do c\u00e2none, da cultura estabelecida e incontest\u00e1vel.<\/p>\n<p>Tanto cuidado serve para n\u00e3o aborrecer o leitor, que tem olho treinado para pular tudo o que finge ser erudi\u00e7\u00e3o. Ostentar sabedoria \u00e9 a prova mais completa dEprovincianismo. \u00c9 fruto perverso da solid\u00e3o intelectual, a que ceva a ilus\u00e3o de que somos \u00fanicos.<\/p>\n<p>Cita\u00e7\u00f5es barrocas crivada de aspas, n\u00fameros romanos e refer\u00eancias em l\u00edngua morta empurram a leitura para fora da p\u00e1gina. J\u00e1 a honestidade de uma lembran\u00e7a, de algo que h\u00e1 tempos fez a cabe\u00e7a, conserva a for\u00e7a inaugural do pensamento famoso. Atrai a simpatia de quem jamais ouvir falar no assunto, ou se convenceu de que nunca escreveria algo semelhante (a atual arrog\u00e2ncia nasce da falta de par\u00e2metros, que precisam ser resgatados, n\u00e3o para reinventar a humildade, mas pelo menos para gerar algum sil\u00eancio na algaravia).<\/p>\n<p>Vestida assim desse uniforme de guerra, costurado como sintonia entre a grande sacada e as \u00e1guas rasas, a cita\u00e7\u00e3o acompanha a marcha humana dos dias contados e se expressa sem os estandartes que, merecidamente, deveriam anunci\u00e1-la.<\/p>\n<p>H\u00e1 autores que usam as duas formas. Jorge Luis Borges, por exemplo, tanto repassa a majestade de sua biblioteca quanto nos convence que leu h\u00e1 tempos uma passagem da qual, nos parece, n\u00e3o se recorda inteiramente, preferindo selecionar apenas uma de suas m\u00faltiplas faces.<\/p>\n<p>Melhor ainda \u00e9 citar Borges, que intercala entre tantos mestres sua verve treinada pelos mist\u00e9rios, seu talento especializado em abismos. Em \u201cNovas Inquisi\u00e7\u00f5es\u201d (ou seria em \u201cO Fazedor\u201d?) ele chama a aten\u00e7\u00e3o para a injusti\u00e7a que se comete quando focamos apenas um aspecto de um grande autor. Deixamos de lado uma produ\u00e7\u00e3o tratada como resto, ou simplesmente esquecida. Ou nem prestamos aten\u00e7\u00e3o numa qualidade que melhor definiria a personagem, que por obra dessa indiferen\u00e7a, ocupa o imagin\u00e1rio numa posi\u00e7\u00e3o cristalizada, mas inc\u00f4moda.<\/p>\n<p>Borges n\u00e3o se conforma com a imagem acabada de suas notoriedades favoritas e fustiga seus admiradores, levando-os para plat\u00f4s de onde se descortinam possibilidades antes consideradas remotas ou inveross\u00edmeis.<\/p>\n<p>Essa ambival\u00eancia de Borges (a frase reproduzida fielmente e a cita\u00e7\u00e3o dilu\u00edda na sua teia de palavras) faz parte do seu g\u00eanio. S\u00e3o dois Borges, como revela, numa p\u00e1gina antol\u00f3gica. Um que passeia a esmo e v\u00ea vitrines e outro que recebe pr\u00eamios e publica livros. Qual dos dois denuncia a divis\u00e3o interna? Ficamos na d\u00favida e esse sentimento \u00e9 o degrau que nos falta quando decidimos mergulhar com prud\u00eancia no desconhecido, e somos colhidos pelo pudor da nossa individualidade, nua diante do cosmo ingrato.<\/p>\n<p>As cita\u00e7\u00f5es s\u00e3o como pragas em efem\u00e9rides que se reportam \u00e0s celebridades das nossas letras. Machado de Assis e Guimar\u00e3es Rosa compartilham 2008 com seus centen\u00e1rios de morte e nascimento, respectivamente. Que sejamos poupados do excesso de batatas aos vencedores e de viv\u00eancias muito perigosas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As cita\u00e7\u00f5es s\u00e3o como pragas em efem\u00e9rides que se reportam \u00e0s celebridades das nossas letras. Machado de Assis e Guimar\u00e3es Rosa compartilham 2008 com seus centen\u00e1rios de morte e nascimento, respectivamente. 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