{"id":831,"date":"2009-12-13T19:16:35","date_gmt":"2009-12-13T21:16:35","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=831"},"modified":"2009-12-21T22:37:35","modified_gmt":"2009-12-22T00:37:35","slug":"linho-no-entrudo","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/linho-no-entrudo","title":{"rendered":"LINHO NO ENTRUDO"},"content":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>A tocaia, no alto do muro ou na quebra da esquina, usava o balde com \u00e1gua at\u00e9 a borda, derramado sobre o linho branco e o vestido engomado. O ato selvagem do entrudo, que ainda vislumbrei na primeira inf\u00e2ncia, possu\u00eda o charme de uma carga de cavalaria. Os adultos, t\u00e3o s\u00e9rios no resto do ano, enlouqueciam no vale-tudo. Por ser perigoso, o carnaval era circunscrito a quem tinha recursos elementares de defesa, como idade e f\u00edsico para se arriscar fora de casa.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m escapava. Os marmanjos, de cal\u00e7as arrega\u00e7adas e sem camisa, armavam-se de toneladas de \u00e1gua. O sentimento de vingan\u00e7a tomava conta de pessoas t\u00e3o cordatas. Queriam ver os renitentes, que insistiam em sair com suas roupas domingueiras, serem enxovalhados sem d\u00f3 pela barb\u00e1rie.<\/p>\n<p>Havia peso no ar, e n\u00e3o era apenas o calor e o morma\u00e7o. Havia a proibi\u00e7\u00e3o de ser normal. A criminalidade do comportamento tinha carta branca para se manifestar, sem o favor de nenhuma lei, a n\u00e3o ser a do calend\u00e1rio. Era uma fenda que se abria no regime fechado das virtudes e por ela despencavam as personalidades mais not\u00f3rias. E n\u00e3o emergia apenas o jogo bruto do banho for\u00e7ado, mas cenas mais sutis de deboche, inspiradas por grossa malvadeza.<\/p>\n<p>A v\u00edtima poderia ser o vizinho de terno impec\u00e1vel que olhava para os lados antes de se abaixar diante da nota de um Cruzeiro, jogada a esmo sob o sol das tr\u00eas da tarde. Um Tamandar\u00e9, como era chamada a nota, j\u00e1 n\u00e3o valia muita coisa naquele in\u00edcio dos anos 50, e isso dava gra\u00e7a maior \u00e0 empreitada. O dinheiro estava bem amarrado por algum moleque que, oculto, segurava uma linha invis\u00edvel. No momento em que o distinto se esfor\u00e7ava para alcan\u00e7ar a prenda, tendo o cuidado de n\u00e3o amarrotar o friso, o espet\u00e1culo pat\u00e9tico chegava \u00e0 consagra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A determina\u00e7\u00e3o desmascarava a pompa. O sujeito que costumava selecionar o cumprimento, restrito \u00e0 vizinhan\u00e7a feminina, n\u00e3o passava de um espertalh\u00e3o vistoso. Ao ser flagrado quando estendia o bra\u00e7o miseravelmente, enquanto a nota arisca escapava para baixo do port\u00e3o, uma onda de gargalhadas tomava conta da rua, aparentemente deserta, mas lotada de foli\u00f5es an\u00f4nimos.<\/p>\n<p>Diante da radicalidade dos eventos, a m\u00e1scara n\u00e3o era apenas sinal de brincadeira, mas de sobreviv\u00eancia. Era preciso manter a dignidade a partir da quarta-feira de cinzas, mas sem abrir m\u00e3o da oportunidade de se transformar no monstro que pedia para mostrar a cara. Isso tinha serventia, especialmente para achacar as casas a bordo de um turbulento bloco de rua.<\/p>\n<p>Lembro do P\u00e1tio dos Milagres em que se transformava a cal\u00e7ada em frente onde mor\u00e1vamos. Nela evolu\u00edam o bizarro e grotesco vestidos de trapos, exibindo um estandarte forrado de lantejoulas e de algumas notas pregadas com alfinete, que deveriam ser acompanhadas por outras, as que t\u00ednhamos nas gavetas. O som violento de latas, j\u00e1 que os couros eram escassos e n\u00e3o havia gato suficiente para atender a demanda, era espichado at\u00e9 a ins\u00e2nia. A turba n\u00e3o sa\u00eda da frente enquanto n\u00e3o deposit\u00e1ssemos os trocados mais escondidos da resid\u00eancia.<\/p>\n<p>Mais tarde, conheci o carnaval organizado dos desfiles das escolas de samba, com seus cord\u00f5es e baterias impec\u00e1veis, e dos sal\u00f5es, lavado por lan\u00e7a-perfume e sopro de metais. Tudo muito civilizado. Nada parecido com o entrudo, que era a den\u00fancia de uma sociedade falsamente equilibrada. Ao contr\u00e1rio de hoje, quando a transgress\u00e3o do carnaval reitera a falta geral de compostura.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Havia peso no ar, e n\u00e3o era apenas o calor e o morma\u00e7o. Havia a proibi\u00e7\u00e3o de ser normal. 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