{"id":833,"date":"2009-12-13T19:17:34","date_gmt":"2009-12-13T21:17:34","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=833"},"modified":"2009-12-21T22:36:18","modified_gmt":"2009-12-22T00:36:18","slug":"tres-aninhos","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/tres-aninhos","title":{"rendered":"TR\u00caS ANINHOS"},"content":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>Tr\u00eas anos \u00e9 a adolesc\u00eancia da primeira inf\u00e2ncia. Chinelos voam para o quintal, portas de quartos s\u00e3o devassadas por m\u00e3ozinhas firmes, programas favoritos ficam inacess\u00edveis gra\u00e7as \u00e0 postura desafiante da espelhinho sem a\u00e7o, bracinhos atacam barrigas em repouso, tapas estalam no meio das conversas, \u00e1guas de origem obscura inundam a sala, visitas s\u00e3o recepcionadas com comportamentos bizarros, e gritos agudos povoam a casa por motivos desconhecidos.<\/p>\n<p>E existem as frases de advert\u00eancia, para n\u00e3o tirar nada que esteja em determinado lugar, seja onde for. Todos os badulaques s\u00e3o sagrados, especialmente os que podem provocar algum transtorno, como pequenos guarda-chuvas chineses coloridos, e jamais podem desaparecer de vista. O hor\u00e1rio nobre \u00e9 dedicado ao Bob Esponja e jamais ao notici\u00e1rio. O p\u00e3o tem que ser de milho, cortado fino e sem casca. Mamadeira, s\u00f3 numa temperatura exata de graus cent\u00edgrados que nenhum adulto jamais acerta na primeira vez.<\/p>\n<p>Quando h\u00e1 uva, pede laranja, quando h\u00e1 os dois, quer ameixa, quando tem de tudo, lembra de um certo iogurte que j\u00e1 foi consumido. Balas naturais enjoam, \u00e9 preciso ser daquelas bem artificiais, que imitam \u201cmoiango\u201d. O almo\u00e7o \u00e9 uma longa e paciente celebra\u00e7\u00e3o de detalhes. O prato \u00e9 o que n\u00e3o est\u00e1 mais dispon\u00edvel, o bife \u00e9 sempre de casquinha crocante, o milho, picadinho, mas tamb\u00e9m \u00e9 importante ter alguma sobra na espiga para ser devorado com essa alternativa.<\/p>\n<p>No passeio e nas compras, a prefer\u00eancia \u00e9 por locais proibidos, como aprontar dan\u00e7as no meio do estacionamento, sair correndo em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 rua. Mas j\u00e1 existe no\u00e7\u00e3o de com\u00e9rcio e na maioria das vezes leva o produto escolhido, como a ma\u00e7\u00e3 especial fisgada na pilha, para o caixa registrar.<\/p>\n<p>Se falar que n\u00e3o dispomos de dinheiro para tanta atividade, basta ir no banco, l\u00e1 a m\u00e1quina sempre despeja algum. Sair da praia, nem pensar, sob pena de uma chuva de areia, especialmente depois que voc\u00ea deu a \u00faltima mergulhada do dia. Se o sorvete acaba \u00e9 hora de colocar mais no potinho, e desta vez n\u00e3o uma quantidade razo\u00e1vel, mas algo exagerado, que transborde.<\/p>\n<p>N\u00e3o se sabe de onde tiram tanta personalidade, talvez do mau exemplo dos adultos, ou \u00e9 poss\u00edvel que cheguem prontas de lugares ermos do universo, pautados por algum tipo de escassez. Chegam n\u00e3o com fome, mas com vontade de inventar encrenca. A arma que costumam brandir \u00e9 a da fofura, pois ningu\u00e9m resiste a uma bochecha sorridente, um beijo estalado, um abra\u00e7o sem motivo aparente. Aqueles olhinhos pretos te enxergam bem no fundo e j\u00e1 est\u00e1s perdido: \u00e9 hora de dar uma volta de carro na quadra, sen\u00e3o ningu\u00e9m dorme.<\/p>\n<p>Uma hist\u00f3ria \u00e9 lida mil vezes sem descanso para ouvidos atentos, uma resposta \u00e9 repetida at\u00e9 a ins\u00e2nia sem que haja tr\u00e9gua na mesma pergunta. Todas as flores que brotarem nos dom\u00ednios dom\u00e9sticos ou perto dele devem ser colhidas, junto com frutas raras pacientemente aguardadas, como rom\u00e3s que ainda n\u00e3o chegaram ao ponto.<\/p>\n<p>Mas tamb\u00e9m h\u00e1 compensa\u00e7\u00f5es. Um chamado insistente de \u201cvov\u00f4!\u201d derrama um pote de mel no cora\u00e7\u00e3o exausto. Um gesto delicado de dobrar todas as pe\u00e7as da roupa, guardadas carinhosamente no arm\u00e1rio, vale por mil travessuras. Um pedido mimoso a favor de um providencial pacote de \u201cboiacha com fuinho\u201d desencadeia exclama\u00e7\u00f5es deslumbradas.<\/p>\n<p>Mas logo, logo, voltamos \u00e0 estaca zero. A d\u00favida insistente ecoa pela manh\u00e3 inteira. O choro sem motivo aparente acaba expulsando todo mundo do recinto, que \u00e9 devidamente fechado pela insol\u00eancia. Quando a situa\u00e7\u00e3o parece perdida, eis que um lanche bem recebido acaba provocando o sono reparador, n\u00e3o s\u00f3 para ela, mas para quem est\u00e1 de olho na criatura 24 horas por dia.<\/p>\n<p>Bastam alguns minutos ferrada nos sonhos para todos sentirem saudade. Come\u00e7a ent\u00e3o o balan\u00e7o das novidades do dia, o que foi dito e feito pela pirralha encantadora. A\u00ed sim temos a devida dimens\u00e3o do que significa uma crian\u00e7a aos tr\u00eas anos de idade, quando d\u00e3o um baile poderoso aos que estavam babando com a bebezice e agora est\u00e3o \u00e0s voltas com uma personagem complicada e desafiadora.<\/p>\n<p>E isso tudo \u00e9 s\u00f3 um ensaio. O que est\u00e1 por vir \u00e9 muito mais intenso. Haver\u00e1 vov\u00f4 para tanta vida? Claro que sim. Tudo se renova quando Deus envia algu\u00e9m para nos lembrar do que somos realmente feitos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tr\u00eas anos \u00e9 a adolesc\u00eancia da primeira inf\u00e2ncia. 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