{"id":838,"date":"2009-12-13T19:20:12","date_gmt":"2009-12-13T21:20:12","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=838"},"modified":"2009-12-21T22:56:30","modified_gmt":"2009-12-22T00:56:30","slug":"sopro-do-paraiso","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/sopro-do-paraiso","title":{"rendered":"SOPRO DO PARA\u00cdSO"},"content":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>Algu\u00e9m se debru\u00e7a na beira do mar e sopra a \u00e1gua at\u00e9 formar ondas. A criatura ap\u00f3ia o corpo todo num s\u00f3 bra\u00e7o. Com o outro, empurra o resultado do seu esfor\u00e7o, encadeando as corcovas salgadas que explodem um pouco adiante, como se cada onda fosse parte de um rebanho. A espuma tamb\u00e9m vem desse sopro sobrenatural, fruto de um pulm\u00e3o possante, de uma garganta profunda, de um olhar avesso, aquele em que o branco da c\u00f3rnea substitui a pupila.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 a primeira vez que descubro seres em obras na natureza. O pequeno deus que contraria o crep\u00fasculo, iluminando a boca da noite com sua tez laranja, confundindo turistas e camar\u00f5es, \u00e9 um deles. Outro \u00e9 este descrito agora, que faz flex\u00e3o com o torso enquanto providencia o chocalhar das \u00e1guas, que bate nos banhistas. Ele usa um vento interior, vindo de suas grutas de veludo. Nada a ver com o Leste ou Sul, rebentos da ilha, j\u00e1 que esse arfar que fabrica a onda obedece a outro expediente.<\/p>\n<p>Confesso que ele s\u00f3 existe no canto da ba\u00eda, j\u00e1 que o miolo do lugar, t\u00e3o calmo durante o inverno, agora \u00e9 um tapume de pl\u00e1sticos e sujeira. Talvez ele queira dar seu recado, j\u00e1 que o esgoto tomou conta do centro da curva, fabricada, possivelmente, por um seu semelhante. Imagino um encontro desses gigantes conversando sobre o estrago feito ao longo do ano e n\u00e3o apenas no ver\u00e3o. Eles sussurram e depois olham ao redor, ressabiados. O que estar\u00e3o aprontando?<\/p>\n<p>Porque divindades n\u00e3o se recolhem, como n\u00f3s, depois de uma vida dedicada \u00e0 sobreviv\u00eancia. A inutilidade do nosso esfor\u00e7o para permanecer de p\u00e9 sobre a Terra, quando o destino \u00e9 deitar definitivamente sobre ela, deve ench\u00ea-los de assombro. Por serem eternos, confabulam mudan\u00e7as para nos pregar sustos. Aprontam tempestades, obedecendo mapas riscados nas pedras. Providenciam avalanches em lugares planos. Salpicam de neve o deserto de nossas esperan\u00e7as.<\/p>\n<p>N\u00e3o s\u00e3o cru\u00e9is, apenas querem compartilhar suas heran\u00e7as. Por possu\u00edrem poder, sabem desviar a correnteza para que o navio fantasma evite os falsos far\u00f3is, colocados de prop\u00f3sito para gerar saques, a partir da costa, em brigues piratas. Mergulham tesouros no mar e de l\u00e1 n\u00e3o tiram nada. Nem deixam que fa\u00edsque no fundo alguma ametista, pois isso seria dar raz\u00e3o aos que ainda n\u00e3o desistiram totalmente da aventura. Eles precisam cercar os segredos de todos os cuidados, para assim n\u00e3o atrair os amadores que desvirtuam o horizonte, os pseudo viajantes noturnos, os p\u00e1ssaros de palha.<\/p>\n<p>Eles criam dificuldades para que os her\u00f3is, se \u00e9 que esses ainda existem, possam descobrir suas voca\u00e7\u00f5es. Colocam Quas\u00edmodos em todos os portais dos mares. Ciclopes vigiando enseadas e sarga\u00e7os. Fazem chover lava onde se vislumbra o\u00e1sis. Assim selecionam mortais determinados. Estes, quando ficam prontos, exibem corc\u00e9is coura\u00e7ados na fronte, barbatanas afiadas nas omoplatas, garras que podem libertar Prometeu.<\/p>\n<p>Quando despertarem os her\u00f3is, transidos de pavor, pai da coragem, ent\u00e3o ser\u00e1 a vez de se desencadearem, em bandos, os cantores da eternidade. O som do mar ser\u00e1 o poema \u00e9pico, que s\u00f3 se escuta quando vemos o final do nosso tempo. Fora dessa sinfonia, s\u00f3 existem as ru\u00ednas e o vazio perverso.<\/p>\n<p>Por enquanto, estou atento ao sopro que modula a flauta da manh\u00e3. As ondas beijam os p\u00e9s dos passantes, enquanto gotas de orvalho queimam as \u00faltimas estrelas. Tudo parece t\u00e9pido, t\u00edmido, como se os instrumentos do dia obedecessem ao um simulacro de dan\u00e7a, de arabesco, de bra\u00e7os imitando cisnes. \u00c9 que n\u00e3o escutamos ainda a bigorna que pulsa no ventre das baleias. Ela avisa a s\u00famula da reuni\u00e3o dos deuses an\u00f4nimos, os que assessoram as \u00e1guias, e apascentam nuvens e tuf\u00f5es. O veredicto \u00e9 claro.<\/p>\n<p>Somos prisioneiros da poesia, que nos carrega como um ramo de flor sobre o oceano intermin\u00e1vel, sabendo que n\u00e3o haver\u00e1 barca que nos salve, nem mesmo quanto entoarmos o c\u00e2ntico libert\u00e1rio. Nossa sorte ser\u00e1 enxergar a melodia nas pequenas coisas, as que renovam nossas chances. At\u00e9 acumularmos for\u00e7as para nos aproximar de Deus, que nos recolhe. N\u00e1ufragos da solid\u00e3o, seremos soprados ao para\u00edso p\u00e1lido, mas ainda intacto.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Somos prisioneiros da poesia, que nos carrega como um ramo de flor sobre o oceano intermin\u00e1vel, sabendo que n\u00e3o haver\u00e1 barca que nos salve, nem mesmo quanto entoarmos o c\u00e2ntico libert\u00e1rio. Nossa sorte ser\u00e1 enxergar a melodia nas pequenas coisas, as que renovam nossas chances. At\u00e9 acumularmos for\u00e7as para nos aproximar de Deus, que nos recolhe. N\u00e1ufragos da solid\u00e3o, seremos soprados ao para\u00edso p\u00e1lido, mas ainda intacto.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[6],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/838"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=838"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/838\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1766,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/838\/revisions\/1766"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=838"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=838"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=838"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}