{"id":840,"date":"2009-12-13T19:21:04","date_gmt":"2009-12-13T21:21:04","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=840"},"modified":"2009-12-21T22:09:00","modified_gmt":"2009-12-22T00:09:00","slug":"godard-o-pensamento-enfrenta-a-voragem","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/godard-o-pensamento-enfrenta-a-voragem","title":{"rendered":"GODARD: O PENSAMENTO ENFRENTA A VORAGEM"},"content":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>O amor se op\u00f5e ao estado, e as id\u00e9ias, ao Imp\u00e9rio. Para que o amor exista, para que afirme a Hist\u00f3ria encarnada na individualidade, para que n\u00e3o fa\u00e7a parte do poder global que nos devora, \u00e9 preciso pensar sobre ele e pensar \u00e9 criar cultura: uma cantata, uma novela, um filme, uma \u00f3pera.<\/p>\n<p>No filme de 2001, O elogio do amor, Jean-Luc Godard segue os passos de um pesquisador em volta de seu projeto, que ainda n\u00e3o tomou forma, j\u00e1 que tateia as formas do seu objeto de estudo, envolvido com uma atriz que se recusa a colaborar, um financiamento que enfrenta a burocracia, testemunhas que mercantilizam suas mem\u00f3rias, laborat\u00f3rios de interpreta\u00e7\u00e3o frustrantes, di\u00e1logos em labirintos, encontros dispersos.<\/p>\n<p>A complica\u00e7\u00e3o, em Godard, \u00e9 fruto da \u00e9tica. O assunto amor foi amarrotado pela ind\u00fastria que aprisiona as almas e para encontr\u00e1-lo de verdade \u00e9 preciso mais do que um travelling sobre o bosque que guarda os vest\u00edgios de uma antiga batalha, mais do que um passeio noturno na chuva, na noite e no inverno.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso tomar nota \u00e0 margem da produ\u00e7\u00e3o em massa, para que o tema se revele na sua ess\u00eancia, fora dos limites impostos pelo desfecho das guerras. \u00c9 onde o humano sobrevive, de costas para o com\u00e9rcio dos gestos, que o protagonista busca o p\u00e1ssaro arisco de sua aventura mental.<\/p>\n<p>Quando foi que perdemos a capacidade de enxergar? pergunta Godard. Foi quando chegou a televis\u00e3o e focou os acontecimentos, ou quando o cinema industrial criou uma rede gigantesca e profunda que ensina as massas a ver. Como voltar a ver? Mergulhando no processo que gera as id\u00e9ias.<\/p>\n<p>Quando vemos algo a que atribu\u00edmos ineditismo, quando vemos uma paisagem que decidimos ser nova, estamos \u00e9 nos referindo ao que j\u00e1 conhecemos, portanto, quando pensamos numa coisa, no fundo estamos pensando em outra, diz Godard. \u00c9 essa extrema sinceridade, esse congelamento, ou essa c\u00e2mara lenta sobre como nos comportamos diante da realidade, que ele carrega como apanhador de estrelas cadentes.<\/p>\n<p>Sim, tudo \u00e9 po\u00e9tico em Godard. Isso n\u00e3o quer dizer que ele poetize suas imagens (a imagem n\u00e3o fala, segundo ele), ou busque a poesia na sua travessia. Ele \u00e9 po\u00e9tico porque n\u00e3o desiste de uma id\u00e9ia, a de que somos anteriores ao mundo transformado em mercadoria. Tamb\u00e9m n\u00e3o quer dizer que ele fa\u00e7a parte da desmistifica\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica do capitalismo, que isso j\u00e1 provou o quanto \u00e9 trai\u00e7oeiro. Ele busca na literatura, na experi\u00eancia escrita dos grandes autores, a chave para trazer de volta a humanidade perdida.<\/p>\n<p>Para isso, n\u00e3o se entrega \u00e0 felicidade que possa existir nas descobertas, nem se deixa abater pela tristeza que h\u00e1 na verdade. Ele palmilha o terreno de virtudes soterradas, corrige homenagens excludentes, procura recuperar o talento perdido em afazeres brutos, e olha para a Hist\u00f3ria que nos acompanha nas palavras, nas paisagens, sem que notemos.<\/p>\n<p>A longevidade de Godard e sua vasta e complexa obra s\u00e3o privil\u00e9gios dos seus contempor\u00e2neos e um farol eterno para os que vir\u00e3o. Nossa \u00e9poca n\u00e3o ser\u00e1 lembrada por nada que sai nos balan\u00e7os de fim de ano, de d\u00e9cada ou de mil\u00eanio. Ficar\u00e1 conhecida como o tempo em que Godard esteve filmando sobre a Terra.<\/p>\n<p>Dessa luz \u00e9 feita nossa grandeza, t\u00e3o distante quando nos afastamos de Godard, e t\u00e3o pr\u00f3xima quando vemos mais um de seus filmes antol\u00f3gicos. Viva Godard e seu legado: a humanidade que perdemos e que ele reconstitui com seu artesanato de ourives, seu olhar de \u00e1guia noturna, sua paci\u00eancia de mestre que n\u00e3o d\u00e1 tr\u00e9gua, n\u00e3o permite defec\u00e7\u00f5es e que ama sem vender seu cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A complica\u00e7\u00e3o, em Godard, \u00e9 fruto da \u00e9tica. O assunto amor foi amarrotado pela ind\u00fastria que aprisiona as almas e para encontr\u00e1-lo de verdade \u00e9 preciso mais do que um travelling sobre o bosque que guarda os vest\u00edgios de uma antiga batalha, mais do que um passeio noturno na chuva, na noite e no inverno. \u00c9 preciso tomar nota \u00e0 margem da produ\u00e7\u00e3o em massa, para que o tema se revele na sua ess\u00eancia, fora dos limites impostos pelo desfecho das guerras. \u00c9 onde o humano sobrevive, de costas para o com\u00e9rcio dos gestos, que o protagonista busca o p\u00e1ssaro arisco de sua aventura mental.(Ensaio sobre o filme &#8220;O Elogio do amor&#8221;).<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/840"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=840"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/840\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1682,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/840\/revisions\/1682"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=840"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=840"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=840"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}