{"id":842,"date":"2009-12-13T19:21:55","date_gmt":"2009-12-13T21:21:55","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=842"},"modified":"2009-12-21T22:32:10","modified_gmt":"2009-12-22T00:32:10","slug":"magrela-nos-trilhos","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/magrela-nos-trilhos","title":{"rendered":"MAGRELA NOS TRILHOS"},"content":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>As bicicletas surgem do nada e se atravessam na frente dos carros. Ningu\u00e9m usa capacete e costuma-se atirar os ve\u00edculos em frente aos estabelecimentos comerciais. Deve ser um h\u00e1bito de direito adquirido, pois muita gente faz isso e n\u00e3o h\u00e1 uma s\u00f3 voz que se levante contra. Tamb\u00e9m andam na contram\u00e3o, j\u00e1 que n\u00e3o disp\u00f5em de antigo e eficiente ap\u00eandice, o espelho retrovisor, obrigat\u00f3rio at\u00e9 os anos 60. Sem saber quem vem atr\u00e1s e com quais inten\u00e7\u00f5es, o ciclista se previne e anda na parte da rua em que pode enxergar o perigo de frente.<\/p>\n<p>Certa vez em S\u00e3o Paulo eu atravessava uma faixa de seguran\u00e7a, com farol (ou sinaleira) favor\u00e1vel a mim, quando uma atleta com sua bike partiu para cima. Ao ouvir a reclama\u00e7\u00e3o, virou-se de maneira abrupta e xingou. Estava no seu \u201cderetcho\u201d. O ve\u00edculo oferecia tudo, desde apliques coloridos at\u00e9 lantejoulas. Mas n\u00e3o tinha lanternas, nem na frente nem atr\u00e1s, para identificar a presen\u00e7a das duas rodas no breu.<\/p>\n<p>Tudo isso foi erradicado do Brasil, inclusive as placas para bicicletas. Sim, era preciso licenci\u00e1-las, sob pena de recolhimento imediato. Naquela \u00e9poca, qualquer ve\u00edculo de tra\u00e7\u00e3o animal obedecia a lei. Esses princ\u00edpios n\u00e3o perderam a validade em outros pa\u00edses. Soube pelo meu filho, h\u00e1 alguns meses morando na Holanda, que em Amsterdam, cidade siderada pelas magrelas, o conv\u00edvio entre os meios de transporte \u00e9 amistoso.<\/p>\n<p>L\u00e1, idosos fazem compras praticamente com bicicletas a tiracolo, namoros surgem nos cruzamentos entre milhares de ciclistas, e crian\u00e7as s\u00e3o criadas a bordo. O cidad\u00e3o cresce sem precisar de carro. Possui ainda um sistema eficiente de trens, o transporte mais moderno do mundo, r\u00e1pido, pontual e silencioso. Aqui o trem virou Maria Fuma\u00e7a.<\/p>\n<p>Quando falam em metr\u00f4 da superf\u00edcie em Florian\u00f3polis, que seria uma solu\u00e7\u00e3o ca\u00edda dos c\u00e9us para tanto transtorno, tem gente que reclama do poss\u00edvel barulho. N\u00e3o h\u00e1 nada mais barulhento do que motor a explos\u00e3o. E o sil\u00eancio h\u00e1 muito foi incorporado aos ve\u00edculos sobre trilhos em pa\u00edses civilizados.<\/p>\n<p>Mas parece que o debate est\u00e1 desaguando para solu\u00e7\u00f5es elitistas, como uma infra-estrutura para receber navios de luxo de grande calado. No momento em que apresentam carros movidos a ar comprimido, o ideal de embarca\u00e7\u00f5es impulsionadas a petr\u00f3leo, atracando sem parar, parece ser o pren\u00fancio de mais um pesadelo.<\/p>\n<p>A navega\u00e7\u00e3o precisa alcan\u00e7ar a excel\u00eancia em todo tipo de embarca\u00e7\u00e3o. Vi pela mil\u00e9sima vez, neste ver\u00e3o, a reportagem sobre a falta de seguran\u00e7a nos barcos e a impropriedade de se andar sobre eles sem o n\u00famero necess\u00e1rio de salva-vidas, que normalmente nem s\u00e3o usados.<\/p>\n<p>Num entardecer, dois adolescentes pegaram um pequeno barco e foram verificar uma rede, al\u00e9m da arrebenta\u00e7\u00e3o. Perguntei ao pai deles, que estava a meu lado na areia, por que os garotos n\u00e3o usavam salva-vidas. O sujeito se ofendeu. \u201cIsso \u00e9 para quem n\u00e3o sabe nadar\u201d, disse ele, convicto. Ou seja, \u00e9 coisa de maricas. Macho entra no mar no peito e na ra\u00e7a. N\u00e3o precisa de uma b\u00f3ia laranja pendurada no pesco\u00e7o como um chamariz.<\/p>\n<p>Sabemos que a paisagem do litoral \u00e9 mutante e caprichosa. Um amigo meu resolveu, numa tarde de esplendor na Lagoa, navegar com alguns amigos. O vento virou e a tripula\u00e7\u00e3o quase morreu. Foi salva pelo chato que usava a b\u00f3ia providencial. Nunca mais ele se aventurou. Agora, s\u00f3 fica na beira da praia, sendo corrido a apita\u00e7o pelos salva-vidas humanos, que n\u00e3o querem saber de naufr\u00e1gio na hora do expediente.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As bicicletas surgem do nada e se atravessam na frente dos carros. 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