{"id":844,"date":"2009-12-13T19:22:52","date_gmt":"2009-12-13T21:22:52","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=844"},"modified":"2009-12-21T21:33:20","modified_gmt":"2009-12-21T23:33:20","slug":"ler-imagens","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/ler-imagens","title":{"rendered":"LER IMAGENS"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-size: x-small;\"><br \/>\n<strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p><\/span><span style=\"font-size: x-small;\"><span style=\"font-size: x-small;\"><br \/>\n<\/span><span style=\"font-size: x-small;\">Na leitura, n\u00e3o h\u00e1 diferen\u00e7a entre texto e imagem. A palavra \u00e9 lida a partir de sua representa\u00e7\u00e3o visual e qualquer rabisco \u00e9 pass\u00edvel de leitura. A cr\u00edtica de arte costuma exagerar e tece uma complicada teia de argumenta\u00e7\u00e3o e an\u00e1lise quando elabora algo sobre artes pl\u00e1sticas. Prefiro Roland Barthes, autodidata capturado pela universidade francesa, que entendeu ser a franja dos personagens do filme Julio C\u00e9sar, de Joseph Mankiewicz, como &#8220;a express\u00e3o da romanidade&#8221;. Uma romanidade inventada por Hollywood, claro.<br \/>\n<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: x-small;\"><br \/>\n<\/span>O g\u00eanio de Barthes defende a teoria da identidade francesa num simples fil\u00e9 com fritas, um insight que abriu as comportas para entendermos melhor a sociedade de massas e todos os seus in\u00fameros textos que existem diante de n\u00f3s e que, analfabetos visuais, costum\u00e1vamos ignorar. De olhos abertos, agora podemos ver como os Estados Unidos implantam o patriotismo tornando obrigat\u00f3ria a presen\u00e7a da bandeira estrelada em todos os filmes. Hoje, n\u00e3o existe cinema americano sem a bandeira em algum lugar do cen\u00e1rio, quando n\u00e3o tomando conta de todo o espa\u00e7o dispon\u00edvel, at\u00e9 mesmo em com\u00e9dia rom\u00e2ntica.<br \/>\nO cinema partiu da cena ocasional (a sa\u00edda dos oper\u00e1rios da f\u00e1brica, a chegada de um trem, nos curtas dos Irm\u00e3os Lumi\u00e8re) para o grandioso (a revolta dos trabalhadores em Os Companheiros, de Mario Monicelli, a destrui\u00e7\u00e3o de um comboio ferrovi\u00e1rio em Lawrence da Ar\u00e1bia, de David Lean). E voltou-se para o minimalismo, n\u00e3o na Nouvelle Vague, que ainda tem algo de \u00e9pico em personagens como Pierrot Le Fou, de Godard ou os adolescentes de Os Incompreendidos, de Truffaut.<br \/>\nO enxugamento total veio com o cinema iraniano, onde um t\u00eanis em fuga pelo esgoto, perseguido pela crian\u00e7a desesperada, num filme de Amir Hashemian, vale mais do que um milh\u00e3o de palavras. Voltamos ao be-a-b\u00e1 do cinema depois de longa trajet\u00f3ria, quando atingimos a simplicidade por meio da s\u00edntese, e n\u00e3o da omiss\u00e3o ou da insurg\u00eancia antiespet\u00e1culo.<br \/>\nO mundo foi feito para ser visto, e depois, lido. N\u00e3o ter\u00edamos no\u00e7\u00e3o da revolu\u00e7\u00e3o russa s\u00f3 pelos livros. N\u00e3o fosse Eisentein filmar Outubro ou O Encoura\u00e7ado Potemkim, mesmo que sejam apenas representa\u00e7\u00f5es do conflito, n\u00e3o chegar\u00edamos perto do que John Reed descreveu em Os dez dias que abalaram o mundo. Quando, no livro de Reed, L\u00eanin se debru\u00e7a para infletir sobre a plat\u00e9ia nos seus discursos, \u00e9 Eisenstein que est\u00e1 nos abrindo os olhos. Imaginamos o que j\u00e1 vimos, e quando lemos, projetamos as cria\u00e7\u00f5es expostas em mais de um s\u00e9culo de S\u00e9tima Arte.<br \/>\nDepois de Aurora, de Murnau, descobrimos que n\u00e3o h\u00e1 evolu\u00e7\u00e3o no cinema, j\u00e1 que antes de 1930 um filme t\u00e3o soberbo e com visual complexo e magn\u00edfico foi concebido e rodado. Hoje, em que as imagens dos blockbusters s\u00e3o a t\u00e1bula rasa da imagina\u00e7\u00e3o, ver Aurora \u00e9 como revisitar o Renascimento.<br \/>\nO cinema \u00e9 t\u00e3o importante que s\u00f3 os g\u00eanios deveriam filmar. Ficar\u00edamos livres da mediocridade empastelada, que toma conta de todas as salas. Luchino Visconti, a majestade perdida, teria feito sucessores. Ser\u00edamos obrigados, como faz\u00edamos antigamente, a tatear no escuro para descobrir o que os mestres nos traziam.<br \/>\nEstar\u00edamos livres de tanta bandeira, imersos novamente na sala escura a adivinhar preciosidades. Sorte que ainda existem grandes criadores, mas eles est\u00e3o escondidos pela avalanche de barbaridades.<\/p>\n<p><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na leitura, n\u00e3o h\u00e1 diferen\u00e7a entre texto e imagem. A palavra \u00e9 lida a partir de sua representa\u00e7\u00e3o visual e qualquer rabisco \u00e9 pass\u00edvel de leitura. A cr\u00edtica de arte costuma exagerar e tece uma complicada teia de argumenta\u00e7\u00e3o e an\u00e1lise quando elabora algo sobre artes pl\u00e1sticas. Prefiro Roland Barthes, autodidata capturado pela universidade francesa, que entendeu ser a franja dos personagens do filme Julio C\u00e9sar, de Joseph Mankiewicz, como &#8220;a express\u00e3o da romanidade&#8221;. 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