{"id":848,"date":"2009-12-13T19:24:29","date_gmt":"2009-12-13T21:24:29","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=848"},"modified":"2009-12-21T21:54:33","modified_gmt":"2009-12-21T23:54:33","slug":"shalako-sem-tradicao-nao-ha-ruptura","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/shalako-sem-tradicao-nao-ha-ruptura","title":{"rendered":"SHALAKO: SEM TRADI\u00c7\u00c3O N\u00c3O H\u00c1 RUPTURA"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><br \/>\nVi Shalako, o filme de 1968 do canadense Edward Dmytryk, baseado em livro de aventuras de Louis L\u00b4Amour, com Sean Connery e Brigitte Basrdot, al\u00e9m de Jack Hawkins e Stephen Boyd. \u00c9 o que cham\u00e1vamos de filma\u00e7o. Um take: os invasores da reserva t\u00eam at\u00e9 o amanhecer para deixar o forte, mas eles n\u00e3o obedecem; pois pinta o primeiro raio de sol que incide diretamente no punhal do ind\u00edgena que inaugura o ataque.<br \/>\nUma seq\u00fc\u00eancia: a apresenta\u00e7\u00e3o do personagem, que come\u00e7a com o protagonista misturado \u00e0 pedra; e a sua despedida, em que ele est\u00e1 confundido com o deserto. Os filmes que consideramos tradicionais s\u00e3o fruto de poderosa s\u00edntese, de algo anterior a eles. Para romper com essa tradi\u00e7\u00e3o, \u00e9 preciso levar em considera\u00e7\u00e3o o modelo. Voc\u00ea n\u00e3o rompe nada por si s\u00f3, voc\u00ea quebra em rela\u00e7\u00e3o a alguma coisa. Os cineastas americanos foram cultuados pelos te\u00f3ricos e vanguardistas franceses, mas essa li\u00e7\u00e3o jamais \u00e9 aprendida. Achei Shalako demais. A poderosa narrativa \u00e9 uma li\u00e7\u00e3o de cinema e merece ser analisada.<br \/>\nFERAS &#8211; A primeira cena mostra um bando de feras, os seguran\u00e7as de um saf\u00e1ri de artistocratas, encurralando um puma com gritos e barulho de pedra na panela (lembra Sam Peckimpah em Wild Bunch, em que meninos colocam um escorpi\u00e3o no formigueiro). Uma vez Orlando Villas Boas me contou uma hist\u00f3ria, repetida por ele em v\u00e1rias outras entrevistas, de que os mateiros imobilizavam a on\u00e7a que rondava o acampamento fazendo barulho de pedra na panela.<br \/>\nO filme mostra o conflito em v\u00e1rias situa\u00e7\u00f5es. Essa, a dos cowboys que acompanham a jornada e que est\u00e3o de olho nas riquezas e nas mulheres dos nobres que passeiam pela reserva ind\u00edgena; a dos \u00edndios contra os intrusos; a de Shalako, o her\u00f3i que tenta evitar o confronto e acaba se opondo aos l\u00edderes dos rica\u00e7os; os casais que n\u00e3o se entendem; as na\u00e7\u00f5es, representados pelas v\u00e1rias l\u00ednguas (ingl\u00eas americano, ingl\u00eas da Inglaterra, l\u00edngua nativa, espanhol); os que est\u00e3o a cavalo e os que se movem a p\u00e9; a persegui\u00e7\u00e3o e o cerco; o esconderijo no alto do plat\u00f4 e o ataque vindo de baixo; entre muitos outros. H\u00e1 conflito o tempo todo conduzindo a hist\u00f3ria para a morte, o sufoco, a frustra\u00e7\u00e3o, a dor e o impasse (o acordo que n\u00e3o vinga entre duas civiliza\u00e7\u00f5es que n\u00e3o se reconhecem). \u00c9 muita coisa para o que deveria ser um simples faroeste.<br \/>\nPRIMOR &#8211; A escolha e dire\u00e7\u00e3o dos atores \u00e9 primorosa. O vil\u00e3o, Stephen Boyd (excelente), com o olhar de \u00e1guia e sorriso maroto; o mocinho, Sean Connery, o cavaleiro solit\u00e1rio que atrai com seu charme a condessa vazia e enojada; Brigitte Bardot, maquiada at\u00e9 o osso, exatamente para se contrapor \u00e0 paisagem rude (ela come\u00e7a vestida e acaba sem roupa, numa cena de nu famosa e sem nenhuma apela\u00e7\u00e3o, o que deveria ser uma li\u00e7\u00e3o para os cineasnos que dominam o cinema hoje); Jack Hawkins, perfeito como sempre como o nobre desesperado por n\u00e3o ser amado pela mulher que adora; Alexander Knox, o senador b\u00eabado e rid\u00edculo que tenta demonstrar a for\u00e7a que n\u00e3o tem; e Peter van Eyck, o Bar\u00e3o prepotente que aprende uma li\u00e7\u00e3o no lugar que despreza.<br \/>\nO uso recorrente do contra-plong\u00e9e (aquela tomada de baixo para cima que contrap\u00f5e o personagem e, neste caso, o c\u00e9u azul) serve para expor a soma de conflitos em cada um dos principais envolvidos na trama. \u00c9 muito para um filme comercial, que d\u00e1 de dez em muito filme dito de arte.<br \/>\nB\u00c1SICO &#8211; \u00c9 na narrativa que os filmes de arte, em sua maioria, falham e expulsam as pessoas do cinema. Vejo Shalako como um filme de vanguarda, de ruptura com esquemas tradicioanais. Pois os \u00edndios t\u00eam voz e raz\u00e3o, apesar de os conflitos b\u00e1sicos entre ra\u00e7as continuarem intactos (n\u00e3o mant\u00ea-los seria mentir). Feito em 1968, o ano chave da nossa cultura (ano que acabou, por certo), \u00e9 mais uma demonstra\u00e7\u00e3o de for\u00e7a dos anos 60, esse mito do tempo que n\u00e3o deixou descendentes.<br \/>\nMas Shalako tem v\u00e1rios elementos do cinema cl\u00e1ssico: o foco no personagem principal (tudo agora em redor dele, sem que a obra fique prejudicada), que fisga a identifica\u00e7\u00e3o com o espectador, pois estamos s\u00f3s nesta vida, do nascimento \u00e0 morte; os conflitos que prendem a aten\u00e7\u00e3o (se n\u00e3o h\u00e1 conflito bem amarrado, perdemos o interesse); o humano visto em sua diversidade (o bar\u00e3o nem sempre perde; ganha quando decide subir a montanha e levar o grupo consigo); a crueldade (a cena dos \u00edndios fazendo rod\u00edzio com a mulher \u00e9 impressionante) costurando as cenas; e muitas outras coisas.<br \/>\n\u00c9 poss\u00edvel gerar ruptura a partir do que a tradi\u00e7\u00e3o nos ensina. Shalako, imperd\u00edvel, \u00e9 uma vitrina de possibilidades. Deveria ser visto com cuidado por cineastas brasileiros, que costumam afrouxar a narrativa em favor de inten\u00e7\u00f5es que ficam ocultas. Bons sentimentos n\u00e3o garantem um filme. \u00c9 preciso saber fazer.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Vi Shalako, o filme de 1968 do canadense Edward Dmytryk, baseado em livro de aventuras de Louis L\u00b4Amour, com Sean Connery e Brigitte Basrdot, al\u00e9m de Jack Hawkins e Stephen Boyd. \u00c9 o que cham\u00e1vamos de filma\u00e7o. 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