{"id":851,"date":"2009-12-13T19:25:48","date_gmt":"2009-12-13T21:25:48","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=851"},"modified":"2009-12-21T22:55:49","modified_gmt":"2009-12-22T00:55:49","slug":"vida-nova","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/vida-nova","title":{"rendered":"VIDA NOVA"},"content":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>O presente \u00e9 a soma do passado, nos diz Henri Bergson, o fil\u00f3sofo que escrevia t\u00e3o bem que ganhou o Nobel de Literatura em 1927. E escrevia em franc\u00eas, uma l\u00edngua em que \u201cpassa o alho\u201d soa po\u00e9tico. O que ele sugere, pelo menos para mim, que freq\u00fcento a filosofia com a prud\u00eancia dos leigos em territ\u00f3rio sagrado da linguagem? Sua prosa, que escorrega como manteiga em dia de sol, ao contr\u00e1rio de muitos alem\u00e3es, que escrevem para serem lidos em ambientes com temperatura abaixo de zero, desmascara o eterno presente. Praticamente enterra a ilus\u00e3o reinventada todo ano pelo p\u00eandulo das festividades, esse eterno retorno de falsas necessidades de consumo.  <\/p>\n<p>O presente \u00e9 uma impossibilidade, por ser vol\u00e1til e n\u00e3o se sustentar no tempo em transforma\u00e7\u00e3o. N\u00e3o vivemos infinitamente no espa\u00e7o confinado de momentos, j\u00e1 que n\u00e3o nascemos a cada segundo, ou n\u00e3o nascemos ontem, como costumamos dizer para estouvados iconoclastas imberbes (ah, essas inesquec\u00edveis palavras em desuso&#8230;). Acumulamos viv\u00eancias, como um jornalista veterano estoca recortes antigos. Ou como uma tia que eu tive (ainda tenho?), que ao morrer deixou seu quarto atulhado de caixas de papel\u00e3o e vidros limpos que outrora continham doces. Objetos com tampa, para o caso de alguma necessidade.  <\/p>\n<p>O passado se presta a in\u00fameros equ\u00edvocos. Um deles \u00e9 que podemos nos livrar de n\u00f3s mesmos, como borboleta que abandona a lagarta seca. Vemos como, nas mudan\u00e7as, as pessoas resolvem se livrar da tralha acumulada. Vida nova, dizem, convictas. Colocam a maior parte das traquitandas na frente da casa que ser\u00e1 abandonada. Aos poucos, aquele joio ser\u00e1 recolhido, mas ainda resta muita coisa. Tenta-se negociar, mas os comerciantes do ramo sabem que o ac\u00famulo de coisas in\u00fateis \u00e9 uma armadilha que n\u00e3o vale um tost\u00e3o furado. Ent\u00e3o, paga-se para levarem o mais pesado do que o ar: estantes de ferro vencidas, m\u00f3veis que n\u00e3o cabem mais em vivendas p\u00f3s modernas, abajures criativos dos 70 que perderam o carisma, m\u00e1quinas anal\u00f3gicas superadas pela vilania digital.  <\/p>\n<p>Mas ainda sobram mais coisas e ent\u00e3o aquele lixeiro, l\u00edder do grupo, aceita amarrar os trastes ao caminh\u00e3o que vocifera. Pronto, \u00e9 assim que nos livramos do passado. Restaram alguns volumes insubstitu\u00edveis, que nenhum sebo comprar\u00e1 por mais de quatro reais o exemplar, mesmo que se trate das obras completas de Fernando Pessoa ou o Machado de Assis definitivo. \u00c9 hora de fazer tamb\u00e9m esse \u00faltimo sacrif\u00edcio. E, quase sem nada, se decidir por uma viagem que resolva a vida pessoal sempre complicada no pa\u00eds maquiado e em ru\u00ednas.<\/p>\n<p>H\u00e1 esperan\u00e7a. O presente se apresenta mais leve e o futuro se abre sem a carga mortificante da mem\u00f3ria nas costas.  Recolher-se ao ermo, alugar uma casa de sap\u00e9, ocupar um quarto no vasto litoral, na curva do morro, embaixo de uma figueira em flor. A nova vida chega carregada de perspectivas, de sonhos enfim realizados, de solid\u00e3o filos\u00f3fica, de contempla\u00e7\u00e3o criativa. Nada de barulhos de metais, de baticuns. Serra, s\u00f3 a do Mar.<\/p>\n<p>\u00c9 quando o sol se p\u00f5e para sempre. Nunca mais vai amanhecer nessa vida que resolveu jogar o passado fora. A noite assoma como pris\u00e3o. J\u00e1 ouvi falar de gente que saiu correndo logo depois de cruzar a madrugada inaugural no s\u00edtio escolhido para ser a reden\u00e7\u00e3o. Alguns se atiraram ao primeiro churrasquinho de gato na beira de estrada. Precisavam do passado, precisavam da eternidade. O ano mal tinha come\u00e7ado com seu bem-vindo acervo de conflitos.  <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O passado se presta a in\u00fameros equ\u00edvocos. Um deles \u00e9 que podemos nos livrar de n\u00f3s mesmos, como borboleta que abandona a lagarta seca. Vemos como, nas mudan\u00e7as, as pessoas resolvem se livrar da tralha acumulada. Vida nova, dizem, convictas. Colocam a maior parte das traquitandas na frente da casa que ser\u00e1 abandonada. Aos poucos, aquele joio ser\u00e1 recolhido, mas ainda resta muita coisa. 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