{"id":853,"date":"2009-12-13T19:26:38","date_gmt":"2009-12-13T21:26:38","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=853"},"modified":"2009-12-21T22:38:17","modified_gmt":"2009-12-22T00:38:17","slug":"o-presente-secreto","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/o-presente-secreto","title":{"rendered":"O PRESENTE SECRETO"},"content":{"rendered":"<p> Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>Custei a descobrir que o presente de Natal n\u00e3o era o tanque de guerra feito de pl\u00e1stico verde, que disparava luzes e sabia voltar ao bater na parede. Ou o pi\u00e3o de lata que mudava de cor ao toque da m\u00e3o e emitia um zunido quando deslizava pelo piso. Tamb\u00e9m n\u00e3o era a \u00e1rvore artificial, portentosa, com pingentes id\u00eanticos ao cristal, cheia de enfeites dourados e uma grande estrela pontificando no alto. E n\u00e3o era o pres\u00e9pio, candente em sua cena de terna imobilidade. Custei ainda mais a perceber que o verdadeiro presente n\u00e3o era despertar na manh\u00e3 sagrada para ver brinquedos, depois de uma ceia festiva e cheia de encantos. Foi toda uma vida para tocar no segredo do dia 25 de dezembro.<\/p>\n<p>Foi preciso tamb\u00e9m entender, depois da segunda inf\u00e2ncia, que igualmente n\u00e3o era almo\u00e7ar peru frio amanhecido com champanhe ou curtir a ressaca de u\u00edsque leg\u00edtimo servido na v\u00e9spera. Ou comentar os pileques, \u00e0s gargalhadas, no sof\u00e1. Nem a sesta que recompunha tudo para enfim sermos livres a partir daquela noite, o princ\u00edpio de uma corrida que iria desaguar no Reveillon, quando vest\u00edamos branco para nos despedir da inoc\u00eancia.<\/p>\n<p>O presente secreto cruzava as festas, o ver\u00e3o e nos acompanhava no inverno. A certa altura, quando deixou de ser entregue no reduto familiar, manteve-se firme, como o morro no pampa frio, uma ilha no horizonte amargo. \u00c9 o que carregamos quando tudo perde seu encanto. Ele nos gruda a um acervo de ganhos, o que nos d\u00e1 poder de enfrentar a maldade e a burrice. O que nos alimenta sem cessar vem de l\u00e1, daqueles Natais que jamais voltar\u00e3o. Era a gra\u00e7a que inaugurava em n\u00f3s o que temos de humano.<\/p>\n<p>\u00c9 uma esp\u00e9cie de \u00edm\u00e3, anterior a tudo, ao almo\u00e7o exercido com liberdade (no tempo em que, durante o resto do ano, obedec\u00edamos a rituais r\u00edgidos nas refei\u00e7\u00f5es). Estava na base que nos fazia sentir felizes em nossos min\u00fasculos pijamas de algod\u00e3o, era anterior \u00e0s posses que viabilizavam as comemora\u00e7\u00f5es, estava acima da confraterniza\u00e7\u00e3o ou das brigas entre primos, irm\u00e3os, pais, vizinhos.<\/p>\n<p>Ele cont\u00e9m o segredo de uma felicidade poss\u00edvel, que nos parecia eterna. Vimos depois que era prec\u00e1ria, mas ainda faz parte de n\u00f3s, como uma raiz, como um choro diante da perda total, como a alegria que nos deita em seguran\u00e7a e nos desperta em esplendor. Gra\u00e7as a esse tesouro, oculto e expl\u00edcito, somos o que nosso destino nos reserva: criaturas completas que n\u00e3o se rendem ao roubo do cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Quem inventou dentro de n\u00f3s essa atra\u00e7\u00e3o, esse fisgar, essa comunh\u00e3o? Dizem que foi a fam\u00edlia, a educa\u00e7\u00e3o, a quadra do pa\u00eds que experimentava uma \u00e9poca mais equilibrada. Mas talvez a origem n\u00e3o se situe nesses redutos conhecidos da raz\u00e3o. Ou n\u00e3o esteja nos confins dos sentimentos. \u00c9 o Mist\u00e9rio, que aperfei\u00e7oamos enquanto nos \u00e9 dado a gl\u00f3ria suprema de viver.<\/p>\n<p>\u00c9 o que escondemos na casa antiga, atr\u00e1s do canteiro, num v\u00e3o da parede desmanchada, junto com a pedra lisa e transparente, um carretel que servia de roda, um peda\u00e7o de madeira que imitava uma arma. Coloco a m\u00e3o nesse reduto e de l\u00e1 se solta o teto da Via L\u00e1ctea, que se retirou do C\u00e9u por ter encontrado, no esconderijo indevass\u00e1vel, o seu pouso e a sua grandeza.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quem inventou dentro de n\u00f3s essa atra\u00e7\u00e3o, esse fisgar, essa comunh\u00e3o? Dizem que foi a fam\u00edlia, a educa\u00e7\u00e3o, a quadra do pa\u00eds que experimentava uma \u00e9poca mais equilibrada. Mas talvez a origem n\u00e3o se situe nesses redutos conhecidos da raz\u00e3o. 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