{"id":859,"date":"2009-12-13T19:32:34","date_gmt":"2009-12-13T21:32:34","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=859"},"modified":"2009-12-21T21:41:40","modified_gmt":"2009-12-21T23:41:40","slug":"o-trabalho-como-arte-em-robert-altman","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/o-trabalho-como-arte-em-robert-altman","title":{"rendered":"O TRABALHO COMO ARTE, EM ROBERT ALTMAN"},"content":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>Lembro o impacto quando vimos Mash, de Robert Altman, nos anos 70. E qual seria esse assombro? A possibilidade de algu\u00e9m exercer a profiss\u00e3o, seja qual for (no caso, o exemplo limite de dois m\u00e9dicos de guerra, interpretados por Donald Shuterland e Elliot Gould) como um exerc\u00edcio respons\u00e1vel de arte. Ou seja, era poss\u00edvel criar no mundo do trabalho, transform\u00e1-lo por meio da transgress\u00e3o. Manter a alma intacta, sem emporcalh\u00e1-la na submiss\u00e3o e na redund\u00e2ncia. E transcender o arrocho da sobreviv\u00eancia, fazendo o que se gosta sem que isso signifique lirismo ou utopia.<\/p>\n<p>Os protagonistas de Mash aprontavam todas, mas eram g\u00eanios em sua arte. Com Roberto Altman, vislumbramos a possibilidade de sobreviver sem cair no ramerr\u00e3o dos horrores apontados por Chaplin em Tempos Modernos. Chaplin denunciou, Altman praticamente nos libertou. Um sonho que em parte se tornou poss\u00edvel, basta ver alguns nichos como os da criatividade em inform\u00e1tica ou em corpora\u00e7\u00f5es focados no talento. E que ao mesmo tempo denuncia sua distor\u00e7\u00e3o, pois o verniz das mudan\u00e7as serviu para nos arrochar em mais tirania, como vimos a partir dos anos 80 e principalmente dos 90.<\/p>\n<p>As transforma\u00e7\u00f5es foram apropriadas pela direita, do yuppie ao metrosexual, e serviram para mais exclus\u00e3o, sob a ilus\u00e3o de que vivemos hoje num para\u00edso de op\u00e7\u00f5es profissionais. O que se v\u00ea, na maioria dos casos, e principalmente no Brasil, \u00e9 exatamente o contr\u00e1rio. Cristalizou-se o discurso da mudan\u00e7a, que serviu apenas para manter as apar\u00eancias e dar uma rasteira na vida que precisava se reinventar de fato no mundo corporativo.<\/p>\n<p>O trabalho como arte continuou em v\u00e1rios outros filmes do grande diretor, que morreu h\u00e1 pouco, depois de longa e brilhante carreira: Nashville, sobre o trabalho na m\u00fasica, A \u00faltima noite, sobre o trabalho no r\u00e1dio, De corpo e alma, sobre o trabalho no bal\u00e9, e que \u00e9 de 2003, e assim por diante. Neste filme, a bailarina se apaixona pelo cozinheiro, ambos artistas em seus respectivos afazeres. Altman parece que faz document\u00e1rio, mas faz fic\u00e7\u00e3o, ou seja, cria os ambientes onde saem as grandes a\u00e7\u00f5es humanas por meio do talento, da determina\u00e7\u00e3o e da ousadia.<\/p>\n<p>Juramos que estamos vendo bastidores, mas os bastidores n\u00e3o existem, o que h\u00e1 s\u00e3o os desdobramentos dos mesmos of\u00edcios, tanto no palco quanto atr\u00e1s dele. No fundo, Altman segue \u00e0 risca a m\u00e1xima de que todo filme \u00e9 sobre cinema. Pois ele est\u00e1 mostrando o pr\u00f3prio m\u00e9tier: o que aparece na tela \u00e9 a imagem pelo avesso do esfor\u00e7o coletivo chamado cinema.<\/p>\n<p>Todo trabalho \u00e9 estiva. O core\u00f3grafo (mestre \u00e9 quem enxerga o detalhe) pede para a bailarina mostrar como rodar num trap\u00e9zio, tocando os p\u00e9s no ch\u00e3o: o truque est\u00e1 na posi\u00e7\u00e3o dos quadris. O recado \u00e9 direto: fa\u00e7a o que fizer, seja como um bailarino, um virtuose, um grande cirurgi\u00e3o, fa\u00e7a arte. E fazer arte n\u00e3o \u00e9 observar o resultado final do esfor\u00e7o escondido de milhares de performances, mas sim descobrir a sintonia entre a base e o v\u00f4o, a tinta e a obra-prima, o acorde e o concerto, o tombo e a coreografia.<\/p>\n<p>Cineasta revolucion\u00e1rio, Altman usa o di\u00e1logo concomitante para gerar esses lugares onde todos est\u00e3o envolvidos . Parece uma balb\u00fardia, mas \u00e9 simultaneidade das linguagens, o que s\u00f3 surgiu muito tempo depois, no universo digital. Ele viu primeiro, ao inventar no cinema essa superposi\u00e7\u00e3o de falas na mesma cena. Tudo se perde na dublagem, mas quem deve ver filme dublado? Absolutamente ningu\u00e9m. A fala original \u00e9 metade do filme. Com esse expediente, Altman aponta para o que acontece sempre no mundo do trabalho: todo resultado \u00e9 fruto da conviv\u00eancia coletiva de profissionais afins, que interagem em fun\u00e7\u00e3o dos objetivos.<\/p>\n<p>Foge, portanto, do ilusionismo pueril do trabalho como meta da civiliza\u00e7\u00e3o ou do denuncismo est\u00e9ril sobre os problemas em espa\u00e7os onde se luta pela sobreviv\u00eancia. Prop\u00f5e o trabalho como arte, n\u00e3o obrigatoriamente de quem se envolve com o mundo art\u00edstico. Mr. McCabe and Mrs. Hiller, por exemplo, com Warren Beaty e Julie Christie, \u00e9 sobre cabar\u00e9 e p\u00f4quer no velho oeste coberto de neve. S\u00e3o dois profissionais do lazer bruto por aquelas paragens no s\u00e9culo 19. N\u00e3o h\u00e1 sentimentalismo, mas poucos filmes cont\u00e9m carga t\u00e3o explosiva de sentimentos.<\/p>\n<p>\u00c9 que Robert Altman conhece o caminho. Ele \u00e9 o maestro que nos acena para o trabalho edificante, fora dos conceitos tradicionais sobre o que \u00e9 humano, como a divis\u00e3o entre cabe\u00e7a e cora\u00e7\u00e3o. \u00c9 a pessoa inteira que nasce nos seus filmes antol\u00f3gicos. Gl\u00f3ria eterna ao grande cineasta.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lembro o impacto quando vimos Mash, de Robert Altman, nos anos 70. E qual seria esse assombro? A possibilidade de algu\u00e9m exercer a profiss\u00e3o, seja qual for (no caso, o exemplo limite de dois m\u00e9dicos de guerra, interpretados por Donald Shuterland e Elliot Gould) como um exerc\u00edcio respons\u00e1vel de arte. Ou seja, era poss\u00edvel criar no mundo do trabalho, transform\u00e1-lo por meio da transgress\u00e3o. Manter a alma intacta, sem emporcalh\u00e1-la na submiss\u00e3o e na redund\u00e2ncia. 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