{"id":86,"date":"2005-05-13T21:26:08","date_gmt":"2005-05-13T23:26:08","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=86"},"modified":"2009-12-21T20:28:36","modified_gmt":"2009-12-21T22:28:36","slug":"o-cinema-cruza-o-espelho","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/o-cinema-cruza-o-espelho","title":{"rendered":"O CINEMA CRUZA O ESPELHO"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>C\u00f3pia \u00e9 a mem\u00f3ria do original. O que vemos no cinema s\u00e3o c\u00f3pias da primeira vers\u00e3o do filme. O dinheiro \u00e9 a reprodu\u00e7\u00e3o de matrizes. Somos c\u00f3pias heredit\u00e1rias, projetadas no tempo. Nossa origem perdida nos faz continuamente iguais, mas ela nos exclui, porque n\u00e3o temos acesso a essa fonte \u00fanica. Assim tamb\u00e9m Andr\u00e9, operador de fotocopiadora, que n\u00e3o tem como chegar ao n\u00facleo do poder, o dinheiro. Seus sonhos est\u00e3o limitados pela barreira que o impede de chegar aos originais da sociedade onde vive. Ele manipula apenas as c\u00f3pias do que n\u00e3o entende. L\u00ea um soneto de Shakespeare que pagaram para xerocar, mas n\u00e3o sabe o que ele significa. Sua \u00fanica originalidade \u2013 seus desenhos \u2013 n\u00e3o conseguem sair do anonimato do seu quarto.<\/p>\n<p>A sa\u00edda \u00e9 vestir a c\u00f3pia com a fantasia da ess\u00eancia. Ele cita Shakespeare, tenta impressionar dizendo que vive das suas ilustra\u00e7\u00f5es, e procura passar o dinheiro falso que conseguiu reproduzir no xerox colorido do seu emprego. Mas o que funciona com as coisas n\u00e3o acontece com as pessoas. A colega do trabalho n\u00e3o aceita ser sua namorada, j\u00e1 que est\u00e1 procurando um partido rico; o amigo, que tinha sido apresentado como vendedor de antiguidades, revela-se um pobre balconista de loja de m\u00f3veis usados; o amigo traficante, no primeiro preju\u00edzo, quer assassin\u00e1-lo. Vendo pessoas reais num mundo de coisas inaut\u00eanticas, Andr\u00e9 busca a salva\u00e7\u00e3o tornando-se uma outra pessoa, a c\u00f3pia do que v\u00ea como sendo a porta para a felicidade. Se ele conseguir ser uma c\u00f3pia do poder, tanto faz que as coisas sejam falsas. O importante \u00e9 o que as pessoas enxergam e acreditam.<\/p>\n<p>O diretor do filme, Jorge Furtado \u2013 aquele que sabe filmar \u2013 cata a ess\u00eancia do seu cinema com um m\u00e9todo original. Ele opta, na primeira parte, pela narra\u00e7\u00e3o na primeira pessoa \u2013 modo de amarrar o filme sonoro, torn\u00e1-lo mudo, enquanto o narrador pontifica na superf\u00edcie. O objetivo \u00e9 cassar a fala do filme para melhor mostrar o que seu olho interno enxerga. Quando a obra est\u00e1 na m\u00e3o, amarrada &#8211; junto com o espectador &#8211; a uma cadeira de cinema, ele o solta na correnteza em seq\u00fc\u00eancias memor\u00e1veis, como a que precede ao assalto.<\/p>\n<p>O que era mudo torna-se expl\u00edcito pelo som que agora acompanha as mesmas imagens do in\u00edcio do filme. O homem que dan\u00e7a com um fone no ouvido encerra um mist\u00e9rio: o que ele est\u00e1 ouvindo? Andr\u00e9 descobre. E o som que agora o espectador escuta no filme \u00e9 a trilha sonora da a\u00e7\u00e3o que faz a narrativa alcan\u00e7ar seu pico. A banda que ningu\u00e9m esquece, Credence Clearwater Revival, \u00e9 o ritmo do olhar Andr\u00e9 na janela e da sua decis\u00e3o de sair da pobreza.<\/p>\n<p><img src=\"..\/..\/..\/neiduclos\/imagens\/fotos\/copiavalu.jpg\" alt=\"\" align=\"left\" \/> Jorge Furtado \u2013 aquele que sabe fazer cinema \u2013 implica com sua cidade, Porto Alegre. Filma cal\u00e7adas, lojas, povo, carros, navios, cais de maneira implac\u00e1vel, reproduzindo a imagem do sufoco supremo. Numa provoca\u00e7\u00e3o, coloca o Rio de Janeiro \u2013 logo quem! \u2013 como um sonho feliz de cidade. Sinal de coer\u00eancia absoluta: o Cristo Redentor, sob o c\u00e9u azul, \u00e9 a a c\u00f3pia de um sonho, enquanto Porto Alegre \u00e9 o xerox da dura realidade. Uma verdade que Andr\u00e9 n\u00e3o alcan\u00e7a em sua totalidade, mas apenas o espectador, privilegiado pelas revela\u00e7\u00f5es da namorada de Andr\u00e9 no final. Quem ca\u00e7ava era ca\u00e7ado, que procurava cruzar o umbral de uma vida autenticamente pobre em busca de uma vida falsa, mas rica, no fundo estava puxando algu\u00e9m para a fora do po\u00e7o.<\/p>\n<p>Andr\u00e9 empunha uma arma porque precisa ter acesso \u00e0s c\u00f3pias que contam: dinheiro \u2013 reprodu\u00e7\u00e3o de um valor em papel pintado \u2013 amor \u2013 a namorada inocente \u00e9 quem o usa para sair da mis\u00e9ria \u2013 e futuro \u2013 montanha sob o c\u00e9u azul debru\u00e7ada sobre o mar. N\u00e3o lhe interessa a ess\u00eancia, que para ele n\u00e3o passa de pesadelo. O que quer \u00e9 aquilo que escondem, a explica\u00e7\u00e3o do soneto, a mulher que n\u00e3o consegue alcan\u00e7ar, o dinheiro que n\u00e3o pousa em seu bolso. Ele atravessa o espelho e vai viver na miragem. Fica o espectador, devolvido de uma vida fict\u00edcia, o cinema, para uma vida real, parecida com aquela da qual Andr\u00e9 conseguiu fugir.<\/p>\n<p>Aquele que sabe filmar tamb\u00e9m se retira. Ele conseguiu atrair o p\u00fablico para sua armadilha, do qual n\u00e3o poderemos escapar a n\u00e3o ser que possamos compartilhar com ele a mais sagrada das ess\u00eancias, a cria\u00e7\u00e3o de um produto cultural \u00fanico, absolutamente s\u00f3 em meio ao mar de falsidades que nos cerca.<\/p>\n<p><img src=\"..\/..\/..\/neiduclos\/imagens\/fotos\/copiava.jpg\" alt=\"\" align=\"left\" \/> Aquele que sabe filmar nada faria n\u00e3o fosse a equipe que trouxe para sua obra. Pedro Cardoso \u00e9 o ator essencial especializado no fragmento da fala e do gesto; L\u00e1zaro Ramos \u00e9 a introspec\u00e7\u00e3o que se solta pela fuga, produto do seu medo, por sua vez filho da sua coragem; Leandra Leal \u00e9 a falsa inoc\u00eancia que mostra a cara; Luana Piovani \u00e9 a c\u00f3pia da musa, e por isso mesmo, sua fundamental ess\u00eancia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sobre \u201cO Homem que copiava\u201d, de Jorge Furtado: C\u00f3pia \u00e9 a mem\u00f3ria do original. O que vemos no cinema s\u00e3o c\u00f3pias da primeira vers\u00e3o do filme. O dinheiro \u00e9 a reprodu\u00e7\u00e3o de matrizes. Somos c\u00f3pias heredit\u00e1rias, projetadas no tempo. 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