{"id":863,"date":"2009-12-13T19:34:16","date_gmt":"2009-12-13T21:34:16","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=863"},"modified":"2009-12-21T01:00:43","modified_gmt":"2009-12-21T03:00:43","slug":"anos-60-sem-saudade","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/anos-60-sem-saudade","title":{"rendered":"ANOS 60 SEM SAUDADE"},"content":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>Incentivar a saudade dos anos 60 \u00e9 uma das muitas formas de enterrar a \u00e9poca em que o enfrentamento coletivo contra a ditadura do Imp\u00e9rio ( que se desdobrava planetariamente, do Vietn\u00e3 a Bras\u00edlia) lan\u00e7ou os fundamentos de uma nova civiliza\u00e7\u00e3o. Esse projeto n\u00e3o fazia parte da oposi\u00e7\u00e3o conservadora de esquerda, que no fundo \u00e9 o clone do Mesmo, como provam os governos socialistas europeus e o governo Lula.<\/p>\n<p>Os anos 60 s\u00e3o muito mais perigosos do que qualquer guerrilha, porque criou a plataforma completa de uma alternativa real ao horror da direita. Ca\u00edram de pau nesse projeto e vivemos o tempo em que a rea\u00e7\u00e3o brutal ao esbo\u00e7o da nova era tornou-se muito mais sofisticada e profunda. A principal arma dessa desconstru\u00e7\u00e3o da utopia \u00e9 desmoralizar a revolu\u00e7\u00e3o da qual fizemos parte, n\u00f3s daquele gera\u00e7\u00e3o privilegiada, que incorporou completamente o sopro de luz que n\u00e3o foi apenas sonho, mas a nossa carne.<\/p>\n<p>Matar quem levantou a bandeira mais alto foi s\u00f3 um detalhe. O mais importante veio depois, ou seja, agora: repetir \u00e0 exaust\u00e3o que aquilo \u00e9 passado, que jamais voltar\u00e1. S\u00f3 que os anos 60 s\u00e3o o futuro e por isso n\u00e3o podem fazer parte da saudade.<\/p>\n<p>ABC \u2013 Daniel Ducl\u00f3s nos envia o \u00e1lbum completo do Submarino Amarelo. Todos juntos agora: a, b, c,d; um, dois, tr\u00eas, quatro; nada do que voc\u00ea v\u00ea ser\u00e1 impedido de mostrar, nada do que voc\u00ea quer deixar\u00e1 de ser feito, \u00e9 f\u00e1-cil. It\u00b4s easy: os Beatles n\u00e3o s\u00e3o os anos 60, apenas fazem parte dele. Sobrevivem como o iceberg maior, integralmente \u00e0 tona, navegando no mar dos buracos. Eles respondiam ao clamor das ruas, eles, como todos n\u00f3s, \u00e9ramos o que um dia seremos. Lennon dizia para um admirador pirado: fa\u00e7a suas can\u00e7\u00f5es, n\u00e3o perca tempo com as nossas. Assuma, porra, sen\u00e3o v\u00e3o nos matar. Lennon viu que a barra ficou preta e lan\u00e7ou a frase que todos repetem \u00e0 exaust\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas no Submarino Amarelo tem tudo: o an\u00fancio estridente dos navios transformado em m\u00fasica, a m\u00fasica incidental da navega\u00e7\u00e3o no Mist\u00e9rio, a constata\u00e7\u00e3o de que tudo \u00e9 demais, ou sejam, colocamos o p\u00e9 na Maravilha e sossega que a viagem \u00e9 sem fim. Cante conosco, crie sua vida, saia do cerco, rompa. Essa \u00e9 a fonte da alegria, o de criar sempre, o de reiventar-se, o de construir o sossego por meio de uma luta que mexe com teu corpo e teu cora\u00e7\u00e3o. Parece f\u00e1cil entender, mas \u00e9 complicado. N\u00e3o se trata de algo que mudou o mundo, j\u00e1 que o mundo continuou igual, ou seja, a mesma choldra de sempre, cada vez pior. N\u00e3o tem nada a ver com a for\u00e7a do rock transformando nerds em muito loucos, como dizem sempre os document\u00e1rios execr\u00e1veis.<\/p>\n<p>Trata-se de um fundamento, de um mapa, de uma cria\u00e7\u00e3o gigantesca de uma enorme popula\u00e7\u00e3o, da qual Woodstock era s\u00f3 um ponto. Foi um exerc\u00edcio de imagina\u00e7\u00e3o que deu certo por alguns anos em uma parte da humanidade e quase foi vitorioso. Perdeu a batalha, mas n\u00e3o a guerra.<\/p>\n<p>CABE\u00c7A &#8211; Para mim, h\u00e1 muitos anos 60. Primeiro, nossa mudan\u00e7a da grande casa da esquina para o sub\u00farbio, quando descemos alguns degraus da escala social. Depois, o golpe de estado de 64, que me tirou todo o gosto de ficar em Uruguaiana. E terceiro, Porto Alegre, a cidade da cultura, onde entrei menino e sa\u00ed guerreiro. Assumir os anos 60, naquela \u00e9poca, equivalia uma pena de morte. N\u00e3o era como hoje, em que tudo \u00e9 badalado na televis\u00e3o mesquinha e comprada.<\/p>\n<p>N\u00e3o se tratava de sacudir os bra\u00e7os e a cabe\u00e7a ou simplesmente consumir drogas. Era enfrentar o \u00f3dio de quem nos via quebrando todas as regras, em todos os lugares. O \u00f3dio profundo daqueles olhares, que cercaram minha juventude de desespero. Era viver perigosamente: expor poema na pra\u00e7a, usar qualquer roupa, jamais pentear o cabelo, sorrir para todos, fazer a cabe\u00e7a com a m\u00fasica tratada como mero produto comercial. Era realmente cultura e filosofia.<\/p>\n<p>A \u00faltima fase dos 60 para mim foi a visita que fizemos ao Rio de Janeiro em 1969, quando nos lembraram que dez anos antes o verso chega de saudade tinha sido proferido como uma revela\u00e7\u00e3o. \u00c9ramos o futuro, e sempre seremos. All together now.<\/p>\n<p>ROTEIRO &#8211; O que s\u00e3o hoje os anos 60? Um roteiro, um sinal. Youssuf, saia dessa mesquita e cante como Cat Stevens. Des\u00e7a pela Internet todos aqueles sons, inigual\u00e1veis e jamais superados. Ningu\u00e9m tocar\u00e1 como Hendrix, ningu\u00e9m cantar\u00e1 como Janis. N\u00e3o se trata de saudade, mas de constata\u00e7\u00e3o. N\u00e3o se trata de ficar preso ao passado, mas de enxergar o \u00f3bvio: bombardearam a revolu\u00e7\u00e3o com todas as armas e agora repetem no Iraque a brutalidade do Vietn\u00e3. O Brasil continua preso pelo cangote ao arrocho financeiro comandado pelos Estados Unidos, como sempre foi o projeto da ditadura.<\/p>\n<p>Quem \u00e9 saudosista? O conservadorismo. A revolu\u00e7\u00e3o n\u00e3o sente saudade. A luta \u00e9 com qualquer palavra, \u00e9 com a palavra carregada pela poesia, \u00e9 com a poesia feito flecha e n\u00e3o esse mar de trocadilhos dos poetastros trocaletras. \u00c9 f\u00e1cil fazer, basta querer. \u00c9 dif\u00edcil entender, porque sempre existe algu\u00e9m para sorrir de lado, como um palha\u00e7o. Tem saudade da juventude, \u00e9 normal, \u00e9 normal, diz o abombado. Quem falou em juventude? Nasci com a eternidade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Incentivar a saudade dos anos 60 \u00e9 uma das muitas formas de enterrar a \u00e9poca em que o enfrentamento coletivo contra a ditadura do Imp\u00e9rio ( que se desdobrava planetariamente, do Vietn\u00e3 a Bras\u00edlia) lan\u00e7ou os fundamentos de uma nova civiliza\u00e7\u00e3o. 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