{"id":865,"date":"2009-12-13T19:34:58","date_gmt":"2009-12-13T21:34:58","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=865"},"modified":"2009-12-21T22:21:30","modified_gmt":"2009-12-22T00:21:30","slug":"hipotese-da-trabalho","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/hipotese-da-trabalho","title":{"rendered":"HIP\u00d3TESE D\u00c1 TRABALHO"},"content":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>A pol\u00edcia costuma &#8220;trabalhar com a hip\u00f3tese&#8221; de alguma coisa. Sugere esfor\u00e7o em fabricar pensamento, ligar uma atividade silenciosa, pensar, ao suor. No pa\u00eds \u00e1grafo, trabalhar \u00e9 fazer barulho. Muita gente tem o costume, nos cumprimentos ruidosos, de gritar que &#8220;est\u00e3o trabalhando!&#8221;. S\u00f3 assim poder\u00e3o escapar do an\u00e1tema de passar por desocupadas, e de ficar a um passo do encarceramento, como acontecia antigamente, quando prendiam por vadiagem.<\/p>\n<p>Nas obras, v\u00ea-se que n\u00e3o basta levantar tijolo e colocar telha, ou cortar cada pe\u00e7a sob o massacre de silvos agudos intermin\u00e1veis ao longo do dia. \u00c9 preciso que os aboios entre os pares, os que est\u00e3o no batente e os que passam, difundam a boa a\u00e7\u00e3o que ali se desenvolve.<\/p>\n<p>Certa vez, em S\u00e3o Paulo, levantaram, perto de casa, tr\u00eas edif\u00edcios de uma hora para outra. A empresa, bem sucedida, usava blocos pr\u00e9-moldados. O material, de qualquer tamanho, vinha sob medida. Em compensa\u00e7\u00e3o, num outro pr\u00e9dio em constru\u00e7\u00e3o bem em frente onde morava, uma serra el\u00e9trica funcionou por tr\u00eas anos cortando tocos de madeira das sete da manh\u00e3 \u00e0s oito da noite. Como se o concreto dependesse do desmatamento.<\/p>\n<p>At\u00e9 que a construtora faliu, deixando por todo o pa\u00eds um rastro de esqueletos urbanos, entre eles o monstro do meu bairro. Esses fantasmas eram os monumentos \u00e0 incapacidade de planejar, ou seja, de trabalhar sem romper os t\u00edmpanos da vizinhan\u00e7a.<\/p>\n<p>Antes dos computadores, o batucar da m\u00e1quina de escrever fazia parte do mundo reconhec\u00edvel das virtudes. Hoje, \u00e9poca dos teclados, que deslizam sem que ningu\u00e9m perceba, ficou mais dif\u00edcil. Trabalha-se com a hip\u00f3tese de que voc\u00ea n\u00e3o ocupa seu tempo com algo decente. Voc\u00ea \u00e9 suspeito, pois passa as horas que deveriam ser dedicadas ao eito sem o h\u00e1bito de arrastar correntes. E n\u00e3o adianta surrar o equipamento na hora de escrever. N\u00e3o convence.<\/p>\n<p>\u00c9 necess\u00e1rio que todos se enquadrem nos lugares comuns da linguagem, como ser chamado de homem-forte de algo importante ou participar de uma for\u00e7a-tarefa. Funciona assim: as id\u00e9ias prontas s\u00e3o o insumo da intelig\u00eancia engessada, a que jamais muda e que \u00e9 transmitida pelos gens. Nascer sabendo significa dispor do destino manifesto de n\u00e3o ter de aprender, como o resto.<\/p>\n<p>\u00c9 por isso que a servid\u00e3o cala a boca (para aprender) e a sabedoria usa bota de cano alto (porque sabe). O sil\u00eancio \u00e9 escravo do bater de p\u00e9s no portal, quando um poderoso anuncia sua presen\u00e7a. A desculpa \u00e9 sacudir o p\u00f3 acumulado na caminhada, mas sabemos que \u00e9 a maneira de deixar claro quem manda. Bater palmas fortemente \u00e9 outro caminho manjado. Faz parte da cultura da varanda, que serve para chamar os criados. Hoje, ainda se usa muito, principalmente para lembrar que voc\u00ea desligou a campainha da porta da frente. As palmas aos poucos est\u00e3o sendo substitu\u00eddas pelo estalar de dedos, que \u00e9 o chicote auditivo utilizado para alertar os subalternos.<\/p>\n<p>Mas a realidade \u00e9 outra. Os chef\u00f5es da m\u00e1fia, por exemplo, ouvem mais do que falam. E s\u00f3 d\u00e3o as ordens num sussurro mortal, como Don Corleone, personagem de Marlon Brando no cl\u00e1ssico de Francis Ford Coppola, &#8220;O Poderoso Chef\u00e3o&#8221;. No fundo, o barulho \u00e9 a verdadeira servid\u00e3o. Num pa\u00eds de escravos, onde todo mundo quer ser senhor, o martelar incessante \u00e9 o recado expl\u00edcito da falta de liberdade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A pol\u00edcia costuma &#8220;trabalhar com a hip\u00f3tese&#8221; de alguma coisa. Sugere esfor\u00e7o em fabricar pensamento, ligar uma atividade silenciosa, pensar, ao suor. 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