{"id":867,"date":"2009-12-13T19:35:51","date_gmt":"2009-12-13T21:35:51","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=867"},"modified":"2009-12-21T22:57:06","modified_gmt":"2009-12-22T00:57:06","slug":"isso-eles-entendem","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/isso-eles-entendem","title":{"rendered":"ISSO ELES ENTENDEM"},"content":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>Decidi mudar de t\u00e1tica no dia em que Arech Mistr\u00f4 me chamou para um &#8220;particular&#8221;. Se \u00e9 uma coisa que me deixa fora de si (como costumam dizer, depois que apodreceram a gram\u00e1tica) \u00e9 algu\u00e9m querer me levar para a salinha e l\u00e1 come\u00e7ar sua arenga com &#8220;o seu trabalho est\u00e1 muito bom, mas&#8230;&#8221; N\u00e3o admito ouvir isso porque meu trabalho n\u00e3o pode ser avaliado por essa gang que tomou conta de todos os cargos. Ainda mais por gente mais nova do que eu. Ali\u00e1s, a humanidade inteira nasceu depois de mim e exibe a cara de beb\u00ea. Rostos lisos em peles de p\u00eassego assomam em cadeiras e poltronas. Eu continuo de p\u00e9, escutando, fazendo parte da escravaria.<\/p>\n<p>Arech Mistr\u00f4 levantava o queixo para fazer seus \u00f3culos escuros redondos funcionarem como uma pistola. Aquele olhar opaco e sinistro era apoiado pela barbichinha rala. Aos 47 anos, se comportava como se tivesse 60, para usufruir das benessses da experi\u00eancia que ele nunca teve. Fazia parte dessa gera\u00e7\u00e3o que depois de roubar a adolesc\u00eancia do mundo por d\u00e9cadas, se assenhorando das mem\u00f3rias da minha gera\u00e7\u00e3o (eles eram os jovens que substitu\u00edram os assassinados) agora clonavam nossa biografia com mais afinco sacudindo cabelos grisalhos ostentando saudades do que jamais viveram. N\u00e3o faziam o principal quando se chega aos 60: jamais largavam o osso, permaneciam agarrados como crostas nos penhascos do bem-bom.<\/p>\n<p>Nunca tivemos vez. Partimos para o ex\u00edlio ou qualquer outro tipo de esquecimento. Voltamos porque era necess\u00e1rio viver de alguma forma. Foi a\u00ed que descobrimos: os espa\u00e7os haviam sido tomados. Eles eram os maiorais da nossa \u00e9poca de insetos e se retroalimentavam sem parar, na m\u00eddia e nas editoras, nos minist\u00e9rios e nas autarquias, dando confer\u00eancias sobre o \u00f3bvio. Usavam sacadas intestinais dos novos profetas, pessoas aparentemente como eles, mas que tinham a griffe de pertencerem a algum pa\u00eds estrangeiro.<\/p>\n<p>E foi assim que as nossas leituras e palavras ca\u00edram em desuso mesmo antes de virem \u00e0 tona. Ficamos submetidos ao terror da nova tirania que vestia o terno das consultorias ou imitava a insubordina\u00e7\u00e3o de comportamento expurgada da revolu\u00e7\u00e3o que chegava ao topo da grana e do capital simb\u00f3lico. Nos pr\u00eamios e eventos, eles \u00e9 que eram chamados. N\u00f3s est\u00e1vamos morrendo, agarrados a alguma pedra que parecia flutuar, mas que revelava a voca\u00e7\u00e3o de ir bem fundo.<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o \u00e9 quest\u00e3o de gera\u00e7\u00e3o&#8221;, me disse uma vez o Gordo Marcant\u00f4nio. &#8220;\u00c9 uma quest\u00e3o de indiv\u00edduo. Na tua gera\u00e7\u00e3o tem muita gente que se deu bem, que at\u00e9 hoje d\u00e1 as cartas&#8221;. Olhei para ele. A vida era uma esp\u00e9cie de p\u00f4quer. Mor\u00e1vamos numa cobertura verde de mesa de cassino. Blefar era ser. Marcant\u00f4nio acabara de comer algo entre o fast-food e o desenvolvimento sustent\u00e1vel. Usava uma camiseta corporativa, pois fazia uma performance com seus colegas de empresa . Trabalhava numa assessoria, que acumulava com as fun\u00e7\u00f5es na revista onde tir\u00e1vamos o p\u00e3o sem esperan\u00e7a de comer a carne. Ele enxugava a boca com um guardanapo de papel e me olhava sem me encarar, ou seja, desviava o olhar que dirigia diretamente para mim. Era uma obra-prima de simula\u00e7\u00e3o. O Gordo Marcant\u00f4nio era um mensageiro do Mundo em Ru\u00ednas, que assim me mantinha a par do que eu deveria pensar para n\u00e3o fazer alguma besteira.<\/p>\n<p>Mas desta vez foi demais. Arech Mistr\u00f4, por mais de uma ocasi\u00e3o, tinha chupado frases inteiras minhas e chegou at\u00e9 a assinar um texto que eu fizeram e deixara aberto no computador. Ele imprimiu, levou para a diretoria e depois veio me entregar dizendo para fazer algumas corre\u00e7\u00f5es, que ele assinaria. Assim na lata. A conversinha na sala deveria ser sobre algo dessa estirpe, uma coluna fixa em jornal\u00e3o de prest\u00edgio, que eu produziria para que ele colocasse a cara na foto ao lado do seu nome.<\/p>\n<p>Por isso me precavi. Peguei um isqueiro em cima da mesa do office boy \u2013 apelidado de Gerenciador de Governan\u00e7a em Tr\u00e2nsito, uma garrafa de cacha\u00e7a fina da mesa do editor de Amenidades e Frescuras e fui para l\u00e1, tendo levado junto dois copos de pl\u00e1stico que tirei do bebedouro.<\/p>\n<p>&#8211; Ol\u00e1, Poeta, tudo bem?<\/p>\n<p>Era grave. Quando me chamavam de poeta havia promessa de ferro.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 o seguinte, essa mat\u00e9ria de turismo est\u00e1 uma merda. Voc\u00ea revisou e deixou publicar. Na reuni\u00e3o com a diretoria vieram me comer por tr\u00e1s. Tem um conselheiro que \u00e9 dono dessa birosca no litoral. Voc\u00ea n\u00e3o viu isso?<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o tinha mais palavras. Fazia aquilo para pagar o aluguel, a luz, o telefone. Meu erro foi ter colocado a m\u00e3o naquela jo\u00e7a. Se voc\u00ea tocar na merda, a merda \u00e9 sua.<\/p>\n<p>&#8211; Vi sim, mas isso tudo n\u00e3o vale nada, ningu\u00e9m l\u00ea essa porra. Vai uma cachacinha?<\/p>\n<p>E comecei a encher o copo at\u00e9 a borda. Era um copo grande, desses de 250 ml e a catinga da pinga tomou conta da sala p\u00f3s p\u00f3s p\u00f3s ultra moderna do chefete.<\/p>\n<p>&#8211; O que \u00e9 que voc\u00ea est\u00e1 fazendo? Ningu\u00e9m bebe nem fuma nesta reda\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p>Era uma das suas m\u00e1ximas. Decretara essa lei de preservar a carca\u00e7a para n\u00e3o embebedar os vermes no futuro.<\/p>\n<p>&#8211; Quer saber \u00f4 Arech ou Aricl\u00ea, n\u00e3o sei qual teu nome verdadeiro nem qual codinome est\u00e1s usando hoje. \u00c9 que voc\u00ea merece que eu te jogue tudo isso na cara.<\/p>\n<p>E foi o que fiz. O sujeito ficou completamente lambuzado por aquele rum de quinta categoria vendida como droga politicamente correta, fabricada com as tais Isos n\u00e3o sei das quantas.<\/p>\n<p>Antes que ele gritasse pelos guardas, acendi o pavio. Tinha aberto at\u00e9 o m\u00e1ximo o isqueiro que estava comigo.<\/p>\n<p>Acho que a sala do infeliz est\u00e1 pegando fogo at\u00e9 hoje. Ele at\u00e9 que n\u00e3o se machucou. Meus socos n\u00e3o foram devidamente treinados. Ou nunca tive punch. Ou jamais tenha entendido o que significa um jab. N\u00e3o sei dizer, mas pelo menos o ambiente ficou com um cheiro de queimado id\u00eantico ao que estou sentindo agora. Parece que o Pavilh\u00e3o 3 est\u00e1 revoltado. Est\u00e3o colocando fogo nos colch\u00f5es. Preciso ficar atento. Numa hora ou outra, essas paredes do pres\u00eddio caem e eu vou poder ent\u00e3o completar o servi\u00e7o.<\/p>\n<p>Porque se tem uma coisa que eles entendem \u00e9 isso. Pau na costela. Manopla na orelha. Chute no queixo. Principalmente em quem gosta de escrever besteiras e se acha inteligente. Pessoas que colocam aquele aposto &#8220;se \u00e9 que voc\u00eas me entendem&#8221;. Entendo perfeitamente. Enlouqueci de tanto entender. Entendo para caralho. Agora me chamem para conversar na salinha, me chamem. Mas nem para me dar aumento de sal\u00e1rio!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nunca tivemos vez. Partimos para o ex\u00edlio ou qualquer outro tipo de esquecimento. Voltamos porque era necess\u00e1rio viver de alguma forma. Foi a\u00ed que descobrimos: os espa\u00e7os haviam sido tomados. Eles eram os maiorais da nossa \u00e9poca de insetos e se retroalimentavam sem parar, na m\u00eddia e nas editoras, nos minist\u00e9rios e nas autarquias, dando confer\u00eancias sobre o \u00f3bvio. 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