{"id":871,"date":"2009-12-13T19:37:21","date_gmt":"2009-12-13T21:37:21","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=871"},"modified":"2009-12-21T22:34:45","modified_gmt":"2009-12-22T00:34:45","slug":"o-nome-da-infancia-e-verao","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/o-nome-da-infancia-e-verao","title":{"rendered":"O NOME DA INF\u00c2NCIA \u00c9 VER\u00c3O"},"content":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>Naquele tempo, havia paz no Brasil soberano. O calor\u00e3o tomava conta das tardes \u00e0 espera da carrocinha do picol\u00e9 e os parentes vinham de longe para encher a casa. Os pais nos olhavam de maneira diferente, pois pegavam carona nos coment\u00e1rios dos que chegavam e que estavam longe das rotinas do ano enfim entregue aos bra\u00e7os do destino.<\/p>\n<p>As noites tinham todas as estrelas e reproduz\u00edamos no ch\u00e3o, com buscap\u00e9s, os cometas que \u00e0s vezes cruzavam o c\u00e9u. Eram estrelas cadentes, mas n\u00f3s gost\u00e1vamos de acreditar que eram cometas. A grande eletrola tocava Liberace interpretando cl\u00e1ssicos, m\u00fasica mexicana da boa, bem gritada por Miguel Aceves Mejia e m\u00fasica orquestrada com todas as can\u00e7\u00f5es maravilhosas que se perderam no espa\u00e7o.<\/p>\n<p>O ver\u00e3o era a vez da inf\u00e2ncia, que dominava as \u00e1rvores, as pra\u00e7as e os quintais. P\u00e9s no ch\u00e3o, bola de meia ou de couro e roupa de linho branco para celebrar os domingos.<\/p>\n<p>GUARAN\u00c1 &#8211; A casa virava um acampamento. Dorm\u00edamos em colch\u00f5es dispostos como num quartel, sob chuva de travesseiros. Os quartos perdiam a identidade e a copa se enchia de muitas sess\u00f5es de almo\u00e7o e jantar. Falava-se alto e quando chegava a noite de Natal com\u00edamos salada de fruta com guaran\u00e1 champagne, gelatina recheada com doce de p\u00eassego e merengue em cima (a sobremesa predileta de minha m\u00e3e), ta\u00e7as de vinho e quando fic\u00e1vamos mais taludos, uns tragos no u\u00edsque Cavalinho Branco (vulgo White Horse) importado da Argentina, servidos em copos de cristal com finas marcas vermelhas das doses sucessivas.<\/p>\n<p>A Lua gigantesca levantava-se no final da rua Bento Martins e subia lenta e pesada, at\u00e9 ficar do tamanho de uma moeda de dez centavos ou um cruzeiro, n\u00e3o lembro bem. As manchas da Lua formavam o mapa do Brasil virado de ponta cabe\u00e7a. Quando me falaram mais tarde que elas lembravam o drag\u00e3o atacando S\u00e3o Jorge, achei um absurdo. A lua cheia do ver\u00e3o, quando estava no z\u00eanite, era a imagem da moeda que regia o pa\u00eds que nos criou.<\/p>\n<p>Nossa casa era a \u00faltima da rua asfaltada. Depois de n\u00f3s, o povar\u00e9u, nosso amigo. Lut\u00e1vamos, jog\u00e1vamos, corr\u00edamos. Os cal\u00e7\u00f5es largos, as cabe\u00e7as peladas (pois crian\u00e7a n\u00e3o podia deixar cabelo crescer, era a marca da submiss\u00e3o da inf\u00e2ncia). Mas \u00e9ramos livres com nossos cocos raspados e volt\u00e1vamos tarde da noite, levando bronca porque a janta esfriava e meu pai n\u00e3o permitia que as refei\u00e7\u00f5es fossem feitas sem que todos estivessem juntos. Heran\u00e7a da forma\u00e7\u00e3o militar, a hora do rancho era sagrada. Tomar banho, colocar a camisa, se pentear, para s\u00f3 ent\u00e3o sentar na grande mesa onde se compartilhava a comida generosa.<\/p>\n<p>ALGAZARRA &#8211; N\u00e3o lembro dos meus pesadelos nas noites de ver\u00e3o. Talvez nunca os tenha tido. Acordava com os p\u00e1ssaros fazendo algazarra no cinamomo do p\u00e1tio e havia sempre um convite para um programa imperd\u00edvel. Descer at\u00e9 o rio e catar pedras redondas, pescar as piavas que assobiavam na linha ao serem fisgadas, ou mesmo acumular lambaris que mais tarde eram escamados, limpos e fritos em frigideira quente.<\/p>\n<p>Passeios at\u00e9 a Gruta, puxando carrinho com os v\u00edveres para passar o dia. Caminho puxado que pegava cinco quil\u00f4metros de estrada e guardava l\u00e1 o banho proibido, porque era perigoso, segundo minha m\u00e3e, que tinha medo de \u00e1gua a c\u00e9u aberto, fonte de tantas afli\u00e7\u00f5es naquela rede hidrogr\u00e1fica que engoliu pescadores, maridos, filhos e todos que se aventurasse n\u00e3o s\u00f3 em corredeiras, como em sangas e \u00e1guas paradas de lagoas lodosas.<\/p>\n<p>Na Gruta com\u00edamos bolacha Maria com goiabada e refrigerante. Pesc\u00e1vamos alguma coisa e volt\u00e1vamos j\u00e1 no escurecer. Est\u00e1 escurando, dizia eu, medroso diante do mist\u00e9rio da noite e seu breu eterno. O ver\u00e3o s\u00f3 fazia sentido com um monte de gente. Se algu\u00e9m viajasse, era tido como traidor e muito mal recebido na volta. Eu mesmo quando fiquei fora um janeir\u00e3o inteiro para conhecer o mar, ao retornar fui espancado para aprender o que era bom para a tosse.<\/p>\n<p>As brigas se sucediam sem parar. Socos, pedradas, rasteiras, choros, gritos e macheza sem fim. Terra de meninos ingratos, duros, violentos, que se reuniam em bandos e se enfrentavam para disputar os territ\u00f3rios violados. Mas n\u00e3o havia transgress\u00e3o. Os bandidos ficavam em outro lugar, longe, e eram recolhidos pelo jipe da pol\u00edcia que, diziam, enterrava gente viva. Nasceu a\u00ed meu medo de policial. Ficava imaginando a terra descendo sobre meus gritos, o socorro que n\u00e3o vinha e aquelas fardas que faziam o pior dos servi\u00e7os. Esse terror tornou-se real mais tarde, quando 1964 acabou com o pa\u00eds.<\/p>\n<p>FA\u00cdSCAS &#8211; Desse pesadelo ainda n\u00e3o acordamos. Aguardo a volta do Brasil, que ser\u00e1 recebido no portal por minha m\u00e3e, sempre t\u00e3o carinhosa na sua intelig\u00eancia falante e prudente. O pa\u00eds ser\u00e1 eu, filho pr\u00f3digo de volta \u00e0 bonan\u00e7a da mem\u00f3ria, a espargir pequenas fa\u00edscas de estrelas na cal\u00e7ada tomada pela inf\u00e2ncia. A Lua tamb\u00e9m me receber\u00e1 como a um filho. E estaremos ainda todos vivos, libertos da f\u00faria que nos cercou e que fez uma guerra in\u00fatil por todo esse tempo. Porque o Brasil \u00e9 o que foi criado pelas gera\u00e7\u00f5es que doaram seus corpos insubmissos \u00e0 terra que tornou-se uma na\u00e7\u00e3o eterna.<\/p>\n<p>Volta, Brasil, junto com as crian\u00e7as que nascem agora. Devolve essa alegria ao homem feito, que se aproxima do norte da pr\u00f3pria vida escutando ainda as can\u00e7\u00f5es que jamais morrer\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Aguardo a volta do Brasil, que ser\u00e1 recebido no portal por minha m\u00e3e, sempre t\u00e3o carinhosa na sua intelig\u00eancia falante e prudente. O pa\u00eds ser\u00e1 eu, filho pr\u00f3digo de volta \u00e0 bonan\u00e7a da mem\u00f3ria, a espargir pequenas fa\u00edscas de estrelas na cal\u00e7ada tomada pela inf\u00e2ncia. A Lua tamb\u00e9m me receber\u00e1 como a um filho. E estaremos ainda todos vivos, libertos da f\u00faria que nos cercou e que fez uma guerra in\u00fatil por todo esse tempo. Porque o Brasil \u00e9 o que foi criado pelas gera\u00e7\u00f5es que doaram seus corpos insubmissos \u00e0 terra que tornou-se uma na\u00e7\u00e3o eterna.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[6,11],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/871"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=871"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/871\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1739,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/871\/revisions\/1739"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=871"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=871"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=871"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}