{"id":873,"date":"2009-12-13T20:09:30","date_gmt":"2009-12-13T22:09:30","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=873"},"modified":"2009-12-21T21:59:17","modified_gmt":"2009-12-21T23:59:17","slug":"o-escritor-vai-a-guerra","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/o-escritor-vai-a-guerra","title":{"rendered":"O ESCRITOR VAI \u00c0 GUERRA"},"content":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>O novo romance do mexicano David Toscana, O Ex\u00e9rcito Iluminado, o terceiro lan\u00e7ado no Brasil pela Casa da Palavra, \u00e9 um drama enjaulado na com\u00e9dia. Personagens infantis que fazem o papel de adultos, o avesso da s\u00e9rie Chavez, revelam que o fracasso do M\u00e9xico est\u00e1 sintonizado com a maturidade decepada pela viol\u00eancia.<\/p>\n<p>O pa\u00eds infantilizado por sucessivas derrotas \u00e9 representado pelo ex\u00e9rcito improv\u00e1vel de um velho comandando cinco crian\u00e7as deficientes mentais, que decidem reconquistar o Texas, perdido h\u00e1 150 anos para os Estados Unidos. Eles partem montados numa carro\u00e7a puxada por uma mula, numa declara\u00e7\u00e3o de guerra do escritor \u00e0 Hist\u00f3ria como fonte de ressentimentos, \u00e0 identidade nacional \u00e0 merc\u00ea da exclus\u00e3o, \u00e0 realidade a servi\u00e7o da morte, \u00e0 vida sob a tirania da falta de imagina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Como o personagem principal do filme de Dalton Trumbo, &#8220;Johnny vai \u00e0 guerra&#8221; (1971), o autor n\u00e3o disp\u00f5e de bra\u00e7os ou pernas para fazer o invent\u00e1rio da sua luta, a n\u00e3o ser batendo com a cabe\u00e7a na cama em c\u00f3digo Morse, quando seu desespero emite um SOS. \u00c9 o que Toscana faz, ao conduzir seu grupo de protagonistas pat\u00e9ticos para mais uma derrota. O l\u00edder, um Quixote envenenado por leituras patri\u00f3ticas, n\u00e3o tem condi\u00e7\u00f5es f\u00edsicas para vencer a maratona que teima em participar, apesar de n\u00e3o estar registrado nela. Os quatro meninos e uma menina, seduzidos pelo general de araque, saem de suas rotinas canibalizadas pelo sistema e povoam a narrativa com uma il\u00f3gica sucess\u00e3o de cenas ilus\u00f3rias.<\/p>\n<p>Toscana, preso na cama da escrita como um sobrevivente do holocausto, oculta o quanto pode o narrador que denuncia a &#8220;realidade&#8221; da trag\u00e9dia. A maior parte do tempo faz parte dela, n\u00e3o colocando fronteiras ente di\u00e1logos e descri\u00e7\u00f5es, entre \u00e9pocas, geografias, pensamentos e a\u00e7\u00f5es. Tudo se mistura de maneira absolutamente clara, numa demonstra\u00e7\u00e3o de for\u00e7a do seu dom\u00ednio do of\u00edcio. Ele sabe, como poucos, contar uma hist\u00f3ria pelo seu avesso, ou seja, sem ceder \u00e0s defini\u00e7\u00f5es de montagens estabelecidas pela tradi\u00e7\u00e3o ou vanguarda. Cria uma tessitura particular e original, opondo-se a qualquer camisa-de-for\u00e7a, inclusive a mais recorrente delas, a de enquadr\u00e1-lo como um anti-Garcia Marquez.<\/p>\n<p>Agora virou moda falar mal do &#8220;realismo m\u00e1gico&#8221;. \u00c9 costume esquecer que esse \u00e9 um r\u00f3tulo que n\u00e3o faz justi\u00e7a \u00e0 grande quantidade de obras-primas surgidas a partir dos anos 60, quando um punhado de escritores perto ou dentro do g\u00eanio rompeu as comportas da linha evolutiva da literatura do Ocidente. A folcloriza\u00e7\u00e3o nada tem a ver com o conte\u00fado e muito menos, por oposi\u00e7\u00e3o, com os livros e autores que agora est\u00e3o chegando.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma carga excessiva de conceitos como niilismo ou puro entretenimento liter\u00e1rio, como se o talento estivesse a servi\u00e7o do mundo como mercadoria ou fizesse parte da falsa natureza atribu\u00edda aos valores do mercado. David Toscana n\u00e3o se presta ao enquadramento perverso das teorias que procuram enterrar a cria\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria num entulho de charlatanices. Ele trata do seu m\u00e8tier, a literatura, e segue \u00e0 risca a m\u00e1xima de que todo romance (pelo menos, os que contam) \u00e9 sobre literatura.<\/p>\n<p>Como estamos cercados pelas mais diversas fic\u00e7\u00f5es \u2013 econ\u00f4mica, pol\u00edtica, publicit\u00e1ria, jornal\u00edstica, corporativa, religiosa, tur\u00edstica \u2013 Toscana despe a linguagem de seus mantos virtuais e busca a ess\u00eancia do que a palavra pode render, fora desse circo de horrores. \u00c9 uma sa\u00edda para os contempor\u00e2neos, que, segundo suas palavras, &#8220;est\u00e3o doentes de realidade&#8221;..Isso n\u00e3o significa aliena\u00e7\u00e3o, como chegaram a sugerir. Estamos doentes das falsidades sob a capa do real e a \u00fanica maneira de quebrar esse manto \u00e9 por meio da literatura.<\/p>\n<p>Um romance \u00e9 assim o \u00faltimo reduto do humano, pois encontra o \u00e9pico na escassez, sem mascarar as nossas limita\u00e7\u00f5es. Em seus livros, Toscana encontra sentido em vidas datadas, inclusive rompendo com a ilus\u00e3o do falso hero\u00edsmo, e apostando na for\u00e7a contida em nossa pequenez. Faz isso sem nenhuma grandiloq\u00fc\u00eancia, mas com a grandeza po\u00e9tica necess\u00e1ria que as palavras inventam para nos redimir. N\u00e3o h\u00e1 final feliz em seus livros, porque isso seria trair a pr\u00f3pria necessidade de escrever. Ao ir \u00e0 guerra, o escritor sabe, como os garotos que assumiram a batalha perdida, que sua decis\u00e3o n\u00e3o tem volta.<\/p>\n<p>O escritor relata a dor de perder a guerra, mas n\u00e3o sucumbe \u00e0 sua principal tenta\u00e7\u00e3o: a de imortalizar sua saga \u00e0 custa do sangue alheio. Ele contamina a narrativa for\u00e7ando, por exemplo, o sacrif\u00edcio do gordo Comodoro, o escudeiro insubordinado, absolutamente contr\u00e1rio a tudo o que Sancho Pan\u00e7a representa. Comodoro n\u00e3o procura trazer o Quixote Juan Matus (o general maratonista) \u00e0 mediocridade da vida di\u00e1ria, antes o incentiva e at\u00e9 o supera. Aspirava \u00e0 gl\u00f3ria, mas teve um enterro de mendigo.<\/p>\n<p>O rescaldo do drama n\u00e3o \u00e9 o riso gerado no ventre do deboche. Nem a celebra\u00e7\u00e3o das perdas. Ou a entroniza\u00e7\u00e3o das mensagens significativas. \u00c9 apenas o livro, o que temos nas m\u00e3os, id\u00eantico ao livro imagin\u00e1rio de O \u00daltimo Leitor, tamb\u00e9m lan\u00e7ado no Brasil, e que ao fim da leitura se revela real. O exemplar que temos nas m\u00e3os \u00e9 a parte que nos cabe neste latif\u00fandio. N\u00e3o \u00e9 pouco, j\u00e1 que est\u00e1vamos \u00e0 procura n\u00e3o de um passatempo, mas de uma forma de ficarmos habitados neste deserto.<\/p>\n<p>O \u00daltimo Leitor \u00e9 o impressionante relato do bibliotec\u00e1rio sem leitores, perdido numa vila cercada pela seca, e que se v\u00ea envolvido na morte de uma menina encontrada pelo seu filho no fundo do \u00fanico po\u00e7o que ainda mant\u00e9m um pouco de \u00e1gua. \u00c9 o que somos, perdidos num mundo \u00e1grafo, obrigados a decifrar um enigma. N\u00e3o que Toscana detenha a chave, pois a esse papel ele n\u00e3o se presta. Mas ele nos traz um presente, o de acreditar que \u00e9 poss\u00edvel romper com o c\u00edrculo de ferro que nos mant\u00e9m cativos, j\u00e1 que a palavra liberta, quando ela \u00e9 ditada pela coragem<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O novo romance do mexicano David Toscana, O Ex\u00e9rcito Iluminado, o terceiro lan\u00e7ado no Brasil pela Casa da Palavra, \u00e9 um drama enjaulado na com\u00e9dia. 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