{"id":875,"date":"2009-12-13T20:10:44","date_gmt":"2009-12-13T22:10:44","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=875"},"modified":"2009-12-21T20:46:17","modified_gmt":"2009-12-21T22:46:17","slug":"o-entra-e-sai-das-redacoes","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/o-entra-e-sai-das-redacoes","title":{"rendered":"O ENTRA-E-SAI DAS REDA\u00c7\u00d5ES"},"content":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>O rod\u00edzio bem remunerado de algumas cabe\u00e7as coroadas do jornalismo coincide com a crise c\u00edclica nos ve\u00edculos de comunica\u00e7\u00e3o. Parece que fechar reda\u00e7\u00f5es \u00e9 a especialidade de alguns profissionais que cometem sempre os mesmos erros, levam de um lado para outro as mesmas pessoas e acabam sendo os cortadores oficiais de empregos. Qual ser\u00e1 o segredo de sempre serem chamados para assumir cargos importantes, j\u00e1 que costumam fracassar?<\/p>\n<p>INVENTAR O EMPREGO \u2013 Um cargo de alto n\u00edvel \u00e9 acertado em territ\u00f3rio neutro, um restaurante de luxo, um escrit\u00f3rio no mil\u00e9simo andar. A argumenta\u00e7\u00e3o convincente numa mesa de negocia\u00e7\u00f5es normalmente nada tem a ver com a realidade de uma reda\u00e7\u00e3o. Diz-se o que se quer ouvir, acertam-se valores, firmam-se pactos. A identifica\u00e7\u00e3o m\u00fatua vem do chamado capital simb\u00f3lico, acervo acumulado numa imagem p\u00fablica que nem sempre tem a ver com sucesso, mas com credibilidade.<\/p>\n<p>\u00c9 prefer\u00edvel, segundo esse racioc\u00ednio, algu\u00e9m que j\u00e1 esteve em algum cargo importante do que arriscar em outro sem essa experi\u00eancia. Para que mudar? Existe muito dinheiro em jogo e tamb\u00e9m leva-se em conta a repercuss\u00e3o de uma indica\u00e7\u00e3o. Sofre-se antecipadamente com a possibilidade de o indicado ser algu\u00e9m sob algum tipo de suspeita, como &#8220;revoltado&#8221;, ou o mortal &#8220;muito competente, mas&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>H\u00e1 tamb\u00e9m o link com a publicidade: um nome de peso pode transmitir sossego no mercado, ajuda a manter a carteira de clientes. Isso tudo acaba em trag\u00e9dia. O que est\u00e1 em jogo \u00e9 a responsabilidade dos jornalistas num projeto comercial. Se existem pessoas do ramo consideradas confi\u00e1veis, ent\u00e3o elas s\u00e3o ungidas nas suas novas atribui\u00e7\u00f5es. Se n\u00e3o existem, ent\u00e3o coloca-se algu\u00e9m da outra \u00e1rea: do marketing ou, o que tem sido comum, do pr\u00f3prio patronato.<\/p>\n<p>O MEDO DA CONCORR\u00caNCIA &#8211; O dinheiro reservado \u00e0 remunera\u00e7\u00e3o dos jornalistas tem trocado de m\u00e3os ultimamente, pois as empresas de comunica\u00e7\u00e3o meteram-se em neg\u00f3cios gigantescos, fora do seu nicho, atra\u00eddos pela ambi\u00e7\u00e3o de grandes ganhos e iludidos pelo horror natural que no Brasil se tem \u00e0 concorr\u00eancia. Todos correram para amealhar mais poder e acabaram transformando seus calcanhares em areia e seus p\u00e9s em barro.<\/p>\n<p>Os ve\u00edculos que os projetaram entraram numa espiral de decad\u00eancia e alguns sofrem interven\u00e7\u00f5es do capital financeiro. A solu\u00e7\u00e3o \u00e9 trazida tamb\u00e9m de fora das reda\u00e7\u00f5es, intensificando os erros. As consultorias, que muitas vezes s\u00e3o remuneradas pelo n\u00famero de cabe\u00e7as que cortam, colocam suas grandes patas de urso nas reda\u00e7\u00f5es demitindo gente qualificada e cortando a rela\u00e7\u00e3o produtiva que deve existir entre veteranos e estreantes (que \u00e9 garantia de transmiss\u00e3o de compet\u00eancia de uma gera\u00e7\u00e3o para outra).<\/p>\n<p>D\u00e1-se poder aos menos capacitados porque s\u00e3o mais baratos e mais d\u00f3ceis. Resultado: ficam na rua quadros magn\u00edficos, que fariam inveja em qualquer reda\u00e7\u00e3o do mundo, enquanto os ve\u00edculos, que enriquecem profissionais de outras \u00e1reas, continuam em crise.<\/p>\n<p>CORTE DE LUCROS &#8211; A crise do jornalismo vem da falta da qualidade. N\u00e3o d\u00e1 vontade de comprar jornal ou revista na banca, a n\u00e3o ser por h\u00e1bito (mas a\u00ed a pessoa assina). Os jornal\u00f5es s\u00e3o iguais e as revistas, em sua maioria, p\u00e9ssimas nas suas superficialidades. Isso abre espa\u00e7o para experi\u00eancias alternativas. Proliferam atualmente in\u00fameros ve\u00edculos, de toda parte do Brasil, e essa \u00e9 uma tend\u00eancia saud\u00e1vel, mas muito fragmentada. \u00c9 preciso reunir um monte dessas publica\u00e7\u00f5es para compor um pacote razo\u00e1vel de leitura.<\/p>\n<p>Nesse nicho tamb\u00e9m n\u00e3o foi encontrada uma solu\u00e7\u00e3o, pois volta e meia alguma revista fecha ou fica confinada a um alcance regional. O problema \u00e9 que existe muita experi\u00eancia e talento dando sopa na pra\u00e7a, dispersos em trabalhos free-lances, desconcentrados e muitas vezes amargurados. Enquanto isso, triunfa a barb\u00e1rie das demiss\u00f5es em massa, da mesmice das reportagens e colunas, dos erros repetidos at\u00e9 a exaust\u00e3o.<\/p>\n<p>A solu\u00e7\u00e3o \u00e9 chamar os competentes de volta, resgatar a escola informal das reda\u00e7\u00f5es \u2013 que sempre foram capacitadas para treinar seus quadros \u2013 criar novos projetos fora da idolatria publicit\u00e1ria dos segmentos, das linguagens &#8220;jovens&#8221;, e das abordagens &#8220;voc\u00ea-\u00e9-t\u00e3o-sacana-que-merece-o-ve\u00edculo-que-est\u00e1-lendo&#8221;. Deve-se atrair leitores com textos e fotos de primeira linha, fazer parcerias com os ve\u00edculos alternativos e jogar na lavoura o grupinho de jornalistas que fecham ou desestruturam jornais e revistas.<\/p>\n<p>N\u00e3o se pode mais continuar punindo quem consegue gerar empregos nas reda\u00e7\u00f5es (por serem autores de projetos bem sucedidos) e premiando aqueles que s\u00f3 sabem fazer cortes, inclusive dos lucros. O problema \u00e9 que acertar o veio n\u00e3o \u00e9 levado em considera\u00e7\u00e3o: o importante \u00e9 o que se fala no restaurante de luxo ou na reuni\u00e3o do mil\u00e9simo andar. A\u00ed mora o perigo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A solu\u00e7\u00e3o \u00e9 chamar os competentes de volta, resgatar a escola informal das reda\u00e7\u00f5es \u2013 que sempre foram capacitadas para treinar seus quadros \u2013 criar novos projetos fora da idolatria publicit\u00e1ria dos segmentos, das linguagens &#8220;jovens&#8221;, e das abordagens &#8220;voc\u00ea-\u00e9-t\u00e3o-sacana-que-merece-o-ve\u00edculo-que-est\u00e1-lendo&#8221;. 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