{"id":877,"date":"2009-12-13T20:11:29","date_gmt":"2009-12-13T22:11:29","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=877"},"modified":"2009-12-21T22:12:45","modified_gmt":"2009-12-22T00:12:45","slug":"a-dignidade-do-credito","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/a-dignidade-do-credito","title":{"rendered":"A DIGNIDADE DO CR\u00c9DITO"},"content":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>&#8220;A C\u00e9sar o que \u00e9 de C\u00e9sar&#8221; deve ser a lei de uma profiss\u00e3o totalmente exposta ao p\u00fablico. Reconhecer e identificar o trabalho alheio \u00e9 um exerc\u00edcio de inclus\u00e3o num pa\u00eds que costuma jogar fora o que produz de melhor. Nas reda\u00e7\u00f5es, sobram exemplos de apropria\u00e7\u00e3o ind\u00e9bita, reproduzindo a estrutura social que determina quem \u00e9 o maior e quem deve ficar limpando o ch\u00e3o.<\/p>\n<p>GRIFES &#8211; Concentra\u00e7\u00e3o excessiva de cr\u00e9dito em redor de alguns nomes, figuras carimbadas e detentores de vastos espa\u00e7os na m\u00eddia, significa que a personalidade em evid\u00eancia depende de uma equipe, muitas vezes an\u00f4nima, para aparecer. Humanamente, ningu\u00e9m tem condi\u00e7\u00f5es de levantar uma montanha por dia. Numa importante revista semanal, descobri que existia a figura do &#8220;ma\u00e7aneta&#8221;, aquele que trazia informa\u00e7\u00e3o para alimentar os textos finais dos editores. Eram estagi\u00e1rios ou rec\u00e9m formados.<\/p>\n<p>Muitas vezes, o autor do texto final assinava a mat\u00e9ria, punham um asterisco e l\u00e1 embaixo, uma quantidade enorme de gente citada. Havia, portanto, uma hierarquia do cr\u00e9dito para um trabalho feito em conjunto. Mas esses casos s\u00e3o menos conden\u00e1veis do que o pl\u00e1gio puro e simples (facilitado agora pela Internet), ou mesmo a assinatura, na maior cara de pau, de um trabalho feito por outra pessoa. No a\u00e7odamento informativo de hoje, quando portais e canais de TV com 24 de horas de not\u00edcias correm atr\u00e1s do furo por quest\u00e3o de segundos, o que est\u00e1 em jogo \u00e9 exatamente isso: o cr\u00e9dito para quem veicula o fato primeiro. Cr\u00e9dito, portanto, vale ouro.<\/p>\n<p>A maior armadilha \u00e9 obrigar algu\u00e9m a reivindicar cr\u00e9dito. \u00c9 o caminho mais curto para a v\u00edtima da fraude ganhar fama de &#8220;reclam\u00e3o&#8221;. O que incomoda \u00e9 que roubo de cr\u00e9dito pode at\u00e9 dar status, dependendo do n\u00edvel (sempre alto) da disposi\u00e7\u00e3o de aplaudir os esp\u00edritos-de-porco.<\/p>\n<p>O MARKETING DA PRESSA \u2013 O grande cronista Louren\u00e7o Diaf\u00e9ria, que por muito tempo foi a estrela maior da cr\u00f4nica em S\u00e3o Paulo e que continua exercendo seu talento, um dia nos contou na reda\u00e7\u00e3o da Ilustrada o caso de algu\u00e9m que tinha outro emprego, mas a dire\u00e7\u00e3o do jornal n\u00e3o sabia (j\u00e1 existia, a partir dos anos 70, a preocupa\u00e7\u00e3o de tornar a profiss\u00e3o mais conseq\u00fcente e acabar com a imagem que ela tinha, de &#8220;bico&#8221;, atividade secund\u00e1ria para refor\u00e7ar o or\u00e7amento dom\u00e9stico e fazer lobby).<\/p>\n<p>Ent\u00e3o o personagem dessa hist\u00f3ria do Diaf\u00e9ria chegava \u00e0s seis horas da tarde e imediatamente pedia um lanche. Quando o diretor da reda\u00e7\u00e3o descia do Olimpo para dar uma vistoriada, l\u00e1 estava o sujeito comendo apressado seu sandu\u00edche empurrado por iogurte. &#8220;Como vai, chefe? Hoje nem tive tempo de almo\u00e7ar!&#8221; Descobri tamb\u00e9m num emprego que as pessoas aceleravam propositadamente o passo (que virava seu andar &#8220;natural&#8221;) para projetar a imagem de efici\u00eancia, trabalho insano e dedica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>S\u00e3o maneiras de receber cr\u00e9dito, nem sempre indevido, pois pode ser que o autor do marketing da pressa seja mesmo dedicado e eficiente, s\u00f3 que n\u00e3o se satisfaz em trabalhar, prefere demonstrar publicamente. Ler os gestos dos colegas \u00e9 uma maneira de conhec\u00ea-los melhor. Pe\u00e7a para seus amigos imitarem seu andar: voc\u00ea vai descobrir o que faz com o corpo para impressionar os outros. Quem por exemplo, depois de alguns anos de profiss\u00e3o, n\u00e3o exibe uma curvatura, leve que seja, nas costas, n\u00e3o merece muito cr\u00e9dito: esse gosta mais de mandar do que pegar no pesado.<\/p>\n<p>ASSINATURA &#8211; Assinar as mat\u00e9rias \u00e9 uma maneira de deixar registrado a sua cria\u00e7\u00e3o, mas quando algu\u00e9m \u00e9 editor ou redator, como provar? Uma das sa\u00eddas \u00e9 eventualmente escrever algo assinado, s\u00f3 para manter a escrita, como se diz. Outra \u00e9 incluir-se numa assinatura coletiva, sem destacar seu nome. Mas normalmente quem trabalha na cozinha fica sendo conhecido apenas no seu meio. Parece que hoje a cozinha est\u00e1 meio em desuso, pois o rep\u00f3rter coleta os dados, escreve o texto final, revisa, \u00e0s vezes tira at\u00e9 foto, faz o t\u00edtulo, a linha fina, as legendas e os olhos.<\/p>\n<p>Acabou a figura do copy-desk, o que \u00e9 uma pena , pois sempre encarei esse of\u00edcio como edi\u00e7\u00e3o de texto. Para mim foi uma escola. Ter ao seu lado numa reda\u00e7\u00e3o editores de texto (pr\u00f3prio ou alheio) como Ricardo Vespucci (o imbat\u00edvel Bi), Antenor Nascimento (quando a palavra atinge o topo), Genilson C\u00e9sar (perfei\u00e7\u00e3o em todos os detalhes), Humberto Werneck (enciclop\u00e9dia de recursos da linguagem), Wagner Carelli (que faz o Pa\u00eds tremer toda vez que escreve), Moacir Japiassu (que me deslumbrou com seu romance &#8220;Concerto para Paix\u00e3o e Desatino&#8221; e me tirava a vontade de terminar o livro para poder continuar vivendo na sua cria\u00e7\u00e3o), entre muitos outros, \u00e9 mais do que um privil\u00e9gio, \u00e9 uma festa do talento, \u00e9 uma p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o sem burocracia nem pose. S\u00e3o jornalistas que honram a l\u00edngua portuguesa e, esses sim, merecem ser nomes de escolas de jornalismo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;A C\u00e9sar o que \u00e9 de C\u00e9sar&#8221; deve ser a lei de uma profiss\u00e3o totalmente exposta ao p\u00fablico. Reconhecer e identificar o trabalho alheio \u00e9 um exerc\u00edcio de inclus\u00e3o num pa\u00eds que costuma jogar fora o que produz de melhor. 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