{"id":879,"date":"2009-12-13T20:12:11","date_gmt":"2009-12-13T22:12:11","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=879"},"modified":"2009-12-20T19:17:28","modified_gmt":"2009-12-20T21:17:28","slug":"madame-bovary-o-romance-maior","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/madame-bovary-o-romance-maior","title":{"rendered":"MADAME BOVARY, O ROMANCE MAIOR"},"content":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>Madame Bovary, de Gustave Flaubert, foi lan\u00e7ado h\u00e1 150 anos e \u00e9 considerado &#8220;o romance dos romances&#8221; pela acurada carpintaria da linguagem, a estrutura impec\u00e1vel da narrativa, a complexidade social e psicol\u00f3gica dos personagens e a grande influ\u00eancia que exerceu em todo mundo, com os russos \u00e0 frente, como confessaram Tchecov e Tolstoi, entre muitos outros.<\/p>\n<p>Na edi\u00e7\u00e3o que eu li, da Nova Alexandria, com tradu\u00e7\u00e3o de Fulvia Moretto, temos direito a making of, ou seja, um anexo com os autos do processo que o governo moveu contra o autor por ter atentado contra a moral, os bons costumes e a religi\u00e3o e por ter feito um hino \u00e0 a lasc\u00edvia e ao adult\u00e9rio feminino. A defesa \u00e9 surpreendente. O advogado S\u00e9nard usa uma argumenta\u00e7\u00e3o extravagante, totalmente confirmada pelo autor que ficou ao seu lado nas audi\u00eancias. S\u00e9nard diz que o livro foi escrito por um homem rico e viajado,de fam\u00edlia com grandes servi\u00e7os prestados \u00e0 sociedade (era filho de famoso cirurgi\u00e3o). A obra, um exemplo da mais alta moral, servia para alertar sobre os perigos de as mulheres serem educadas nos princ\u00edpios que existiam apenas fora da sua classe social.<\/p>\n<p>Mulher pobre n\u00e3o teria nada que ficar aprendendo coisas que n\u00e3o lhe dizem respeito. Se freq\u00fcentarem estabelecimentos educacionais reservados aos mais abastados v\u00e3o aspirar ao que jamais ter\u00e3o. Vejam que perigo! No lugar de receberem uma forma\u00e7\u00e3o forte (viril, no m\u00ednimo, pelo que eu entendi), um conjunto de valores f\u00e9rreos que v\u00e3o ajud\u00e1-las no momento de fraqueza, elas acabam sendo levadas para a ilus\u00e3o e a perdi\u00e7\u00e3o. Estaria a\u00ed a ess\u00eancia da obra, segundo a defesa. Funcionou. Todo mundo foi absolvido: o autor, o editor e at\u00e9 mesmo impressor.<\/p>\n<p>Para que as mo\u00e7as pobres, no futuro, mantenham a retid\u00e3o, o casamento, seus deveres de esposa e m\u00e3e, devem ser treinadas para o lar, o trabalho, o sacrif\u00edcio, a devo\u00e7\u00e3o. Nada de sa\u00edrem de suas fazendolas, s\u00edtios, quintas para irem \u00e0s cidades receberem a educa\u00e7\u00e3o reservadas \u00e0s ricas. O pobre pai de Ema queria que ela casasse bem, por isso n\u00e3o a encaminhou para as lides campeiras, mas para as prendas da alta classe. Ema viu-se assim frustrada, execrando o casamento com um pobre profissional da sa\u00fade que nem tinha t\u00edtulo de doutor. Acabou sendo fisgada pelos devaneios, tornando-se presa f\u00e1cil dos rapazes endinheirados ou jovens alpinistas sociais que buscavam aventura com mulheres casadas.<\/p>\n<p>Madame Bovary seria assim uma esp\u00e9cie de manual de conduta para as senhoras, que veriam as puni\u00e7\u00f5es que acarretariam o pulo da cerca. Ou seja, Flaubert jogou pesado e inverteu a arma contra seu pr\u00f3prio advers\u00e1rio, o governo imperial (a monarquia restaurada, depois dos insucessos de Napole\u00e3o). Saiu-se como um campe\u00e3o moral, mas seu romance extrapola essas picuinhas da \u00e9poca. \u00c9, claro, uma obra-prima, uma li\u00e7\u00e3o de mestre de como se deve construir um romance, que extrapola todo o tipo de g\u00eanero. \u00c9 realista e rom\u00e2ntico, \u00e9 psicol\u00f3gico e de costumes, \u00e9 profundo e superficial. Foi vendido inicialmente como folhetim na Revue du Paris e se transformou num golpe contra a hipocrisia, os jogos de cena que amarravam as pessoas a duras rela\u00e7\u00f5es baseadas nas apar\u00eancias, no t\u00e9dio e na mesmice.<\/p>\n<p>Mas o livro fica imune ao jogo de for\u00e7as entre tradi\u00e7\u00e3o e ruptura, entre religi\u00e3o e ate\u00edsmo, entre ci\u00eancia e ignor\u00e2ncia. Trata das contradi\u00e7\u00f5es de classe (e isso lhe empresta perman\u00eancia): a esposa de classe m\u00e9dia que aspira \u00e0 riqueza e por isso se entrega a amantes ricos ou mais jovens do que ela; o farmac\u00eautico que usa o exerc\u00edcio da sua profiss\u00e3o e textos publicados em jornais da prov\u00edncia para conseguir a Legi\u00e3o de Honra; o agiota que explora as fantasias da senhora para arrancar-lhe o patrim\u00f4nio; o cego que invade a carruagem para conseguir alguns trocos dos viajantes; o funcion\u00e1rio que precisa abrir m\u00e3o de suas aventuras amorosas para n\u00e3o prejudicar a carreira; os camponeses explorados que s\u00e3o bajulados por um poder tirano e usurpador.<\/p>\n<p>Ema Bovary \u00e9 uma hero\u00edna cheia de contradi\u00e7\u00f5es, que tem a ousadia de tentar romper com o cerco e acaba sendo v\u00edtima de sua pr\u00f3pria determina\u00e7\u00e3o (n\u00e3o consegue se desvencilhar de sua situa\u00e7\u00e3o de classe). Por se situar na fronteira entre a classe m\u00e9dia e os ricos que usufruem de castelos, perfumes, roupas caras e teatros, ela mant\u00e9m uma conduta amb\u00edgua o tempo todo. Sua fragilidade \u00e9 confundida com sua for\u00e7a, seus encantos parecem ser sua reden\u00e7\u00e3o, sua intelig\u00eancia acena, em v\u00e3o, para algo maior do que a vidinha restrita de um casamento arranjado e med\u00edocre. Ela reconhece seu erro (a impossibilidade de ascender socialmente), por descobrir a repeti\u00e7\u00e3o das rotinas do casamento no fogo apagado dos escondidos encontros amorosos. Os amantes tornam-se t\u00e3o ins\u00edpidos quanto o marido.<\/p>\n<p>Mas pouco podemos dizer dessa obra depois de tanto tempo e tantos g\u00eanios que se debru\u00e7aram sobre ela. O importante \u00e9 ver como Flaubert comp\u00f4s o drama, tantas vezes levado \u00e0 tela e tantas vezes imitado.<\/p>\n<p>A protagonista surge por acaso no in\u00edcio da hist\u00f3ria e aos poucos vai tomando conta de tudo. Aparentemente o livro \u00e9 sobre o marido dela, Charles, que acaba ocupando papel secund\u00e1rio, mas ao mesmo tempo fundamental. Charles \u00e9 a \u00e2ncora desprezada pela mulher, o enamorado esposo que a tudo suporta e jamais a condena (vimos esse personagem mais tarde em Tchecov). O que vale a pena ver \u00e9 como Flaubert jorra na cria\u00e7\u00e3o de um universo riqu\u00edssimo em detalhes, a quantidade de palavras que usa, uma verdadeira enciclop\u00e9dia, sem jamais cair na pieguice, no mau gosto ou nos excessos de estilo. Ele fazia cinema antes de ser inventado. Suas cenas s\u00e3o vivas, as paisagens saltam na cara, os protagonistas jamais nos abandonam.<\/p>\n<p>&#8220;Dona Flor e seus dois maridos&#8221; \u00e9 uma adapta\u00e7\u00e3o de &#8220;Madame Bovary&#8221;, de Flaubert. Jorge Amado casou Ema Bovary com o farmac\u00eautico Homais (no romance franc\u00eas, um vizinho muito presente) e colocou seus dois amantes (Randolphe e Leon) num s\u00f3 personagem, o fantasma libertino do primeiro c\u00f4njuge. Dona Flor assim vira uma Ema sem culpa, pois pula a cerca (em termos, j\u00e1 que trai o atual marido com o marido morto) mantendo as apar\u00eancias sem se arruinar ou cometer suic\u00eddio. Como Dona Flor, tamb\u00e9m Capitu, de Machado de Assis, bebe da mesma fonte: a senhora distinta, casada, que enjoa dos la\u00e7os matrimoniais e precisa resolver seu tes\u00e3o, um tema que envolveu os escritores depois que Flaubert matou a charada de como abordar o tema maldito sem cair em desgra\u00e7a.<\/p>\n<p>Jorge Amado poderia ter escolhido outro tipo de marido mon\u00f3tono, mas optou exatamente pela figura do farmac\u00eautico, o vizinho do casal Charles-Emma, que acaba ocupando uma posi\u00e7\u00e3o central na hist\u00f3ria. Pern\u00f3stico, s\u00e9rio, interesseiro, pseudo intelectual, tudo do farmac\u00eautico de Flaubert foi adotado pelo de Jorge Amado, que n\u00e3o se livrou do personagem depois da leitura e acabou se entregando a ele. Identificar os amantes de Ema com o marido libertino que assombra Dona Flor com suas tenta\u00e7\u00f5es \u00e9 perfeito, pois os amantes de Ema eram tamb\u00e9m fantasmas na vida pacata provinciana. Eles agiam de uma forma que s\u00f3 a mulher percebia.<\/p>\n<p>Flaubert nos ensina como entrela\u00e7ar cenas e personagens sem cair nas armadilhas que acabam desmascarando o enredo perante o leitor. Algo cruza em determinado cap\u00edtulo: isso vai se desdobrar mais adiante. Nada est\u00e1 fora do lugar, nada est\u00e1 for\u00e7ado, nenhuma linha jogada fora. \u00c9 de babar. Mais do que Ema Bovary, o que fica \u00e9 a maestria do autor, um g\u00eanio da narrativa, insuper\u00e1vel. Podem tentar toda esp\u00e9cie de ruptura, o romance de Flaubert se manter\u00e1, intacto, como obra obrigat\u00f3ria. Proust, Barthes, Sartre e todos os outros grandes autores visitaram essas p\u00e1ginas importais e lhe renderam a aten\u00e7\u00e3o merecida.<\/p>\n<p>Jorge Amado tamb\u00e9m. O que fez muito bem, pois seu modelo, seu paradigma, \u00e9 o livro que surgiu como um terremoto e agora est\u00e1 sendo celebrado no seu sesquicenten\u00e1rio.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Madame Bovary, de Gustave Flaubert, foi lan\u00e7ado h\u00e1 150 anos e \u00e9 considerado &#8220;o romance dos romances&#8221; pela acurada carpintaria da linguagem, a estrutura impec\u00e1vel da narrativa, a complexidade social e psicol\u00f3gica dos personagens e a grande influ\u00eancia que exerceu em todo mundo, com os russos \u00e0 frente, como confessaram Tchecov e Tolstoi, entre muitos outros.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[10],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/879"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=879"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/879\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1370,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/879\/revisions\/1370"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=879"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=879"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=879"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}