{"id":88,"date":"2005-05-13T21:27:42","date_gmt":"2005-05-13T23:27:42","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=88"},"modified":"2009-12-21T21:45:27","modified_gmt":"2009-12-21T23:45:27","slug":"a-implosao-do-cenario","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/a-implosao-do-cenario","title":{"rendered":"A IMPLOSAO DO CEN\u00c1RIO"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o existe reconstitui\u00e7\u00e3o de \u00e9poca. O que existe \u00e9 a disposi\u00e7\u00e3o de elementos do cen\u00e1rio em fun\u00e7\u00e3o da narrativa. &#8220;Longe do Para\u00edso&#8221;, de Todd Haynes, \u00e9 a composi\u00e7\u00e3o de um ambiente que implode ao fazer o cruzamento com seu oposto. A dona de casa que serve de modelo para a publicidade e confunde seu vestido com as cores da parede descobre que est\u00e1 prisioneira de lustres, bibel\u00f4s, sof\u00e1s e cortinas. O arco que a sustenta, o marido, abdicou da sua fun\u00e7\u00e3o, sufocado pela cela constru\u00edda como um evento social.<\/p>\n<p>Ao refugiar-se no jardim, para expressar sua dor, ela \u00e9 capaz de seduzir-se por um cen\u00e1rio diferente, que come\u00e7a nas folhas do outono e des\u00e1gua na dan\u00e7a enfuma\u00e7ada de um bar da periferia. Sua busca da salva\u00e7\u00e3o est\u00e1 definida na opini\u00e3o do seu jardineiro, que enxerga a divindade na arte moderna &#8211; vista aqui como transgress\u00e3o do cen\u00e1rio. Enquanto as pessoas &#8220;normais&#8221; confessam seu desagrado por Mir\u00f3 e invocam Michelangelo parta justificar seu preconceito, ela descobre que Deus pode tamb\u00e9m estar fora da arte cl\u00e1ssica.<\/p>\n<p>O lugar onde ela habita, que era uno gra\u00e7as ao h\u00e1bito e o olhar contaminado pelo Mesmo, dissolve-se junto com o casamento. Primeiro, os elementos que eram poucos multiplicam-se, como uma revela\u00e7\u00e3o do olhar abismado pela surpresa e a descoberta. Depois, impedida de assimilar tudo o que acumulou e de partir para o lugar que descobriu, seu mundo desmorona e o que era diverso torna-se azul, ocre, quase s\u00e9pia. A felicidade,que era a harmonia da repeti\u00e7\u00e3o dentro da diversidade das cores e formas, \u00e9 substitu\u00edda pelo sofrimento, que \u00e9 o cen\u00e1rio m\u00faltiplo virando uma grande e \u00fanica massa espessa. A possibilidade do amor \u00e9 representada pelo len\u00e7o lil\u00e1s, aquele que voou por cima do telhado e foi encontrado pelo Outro.<\/p>\n<p>O marido que procura libertar-se do casamento que entronizou o Mesmo, foge para o Outro que \u00e9 sua imagem no espelho. O marido perde a luta contra o cen\u00e1rio e dele se retira para continuar com sua maldi\u00e7\u00e3o. Ela entrega-se \u00e0 luz que as flores brancas acenam como uma tr\u00e9gua.<\/p>\n<p>O amor inter-\u00e9tnico e o homossexualismo s\u00e3o apenas as formas de rupturas de cen\u00e1rios hegem\u00f4nicos. Quando a vida \u00e9 composta de objetos que ditam os destinos, a transgress\u00e3o \u00e9 a \u00fanica sa\u00edda para o que \u00e9 humano. Mesmo que essa ruptura seja involunt\u00e1ria, de seres colocados contra a parede, fica evidente que o drama \u00e9 render-se ao pincel que determina os pap\u00e9is e que a emo\u00e7\u00e3o verdadeira \u00e9 a viagem em dire\u00e7\u00e3o ao oculto e desconhecido &#8211; o bairro negro, a estrada de ferro, a m\u00fasica que sugere o desespero e que n\u00e3o faz parte da falsidade representada pelas imagens. A verdade surge num flagrante no escuro, numa dan\u00e7a acanhada, numa visita noturna. O amor que escapou do cotidiano assoma na despedida e dissolve o horror da repress\u00e3o, exercida pela tocaia de quem faz parte do cen\u00e1rio de badulaques ef\u00eameros.<\/p>\n<p>. O cinema existe em fun\u00e7\u00e3o do que lhe escapa. Por mais objetos que componham sua trama, por mais personagens que o povoem, por mais emo\u00e7\u00e3o que desperte, ele s\u00f3 se revela inteiramente quando a palavra soa depois que o filme acaba. A palavra sobre o filme \u00e9 o sonho marginal do cineasta que pinta um afresco como um Mestre insuper\u00e1vel. Mas ela se revela s\u00f3 quando levantamos da cadeira, quando perdemos enfim o filme todo para reencontr\u00e1-lo, inteiro, num texto insol\u00favel.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o existe reconstitui\u00e7\u00e3o de \u00e9poca. 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