{"id":887,"date":"2009-12-13T20:15:26","date_gmt":"2009-12-13T22:15:26","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=887"},"modified":"2009-12-21T22:28:22","modified_gmt":"2009-12-22T00:28:22","slug":"os-limites-do-humano-sao-a-sua-transcendencia","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/os-limites-do-humano-sao-a-sua-transcendencia","title":{"rendered":"OS LIMITES DO HUMANO S\u00c3O A SUA TRANSCEND\u00caNCIA"},"content":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>N\u00e3o existe nada mais datado e morto do que enxergar-se como a coisinha de Jesus que todos precisam admirar. Dostoievski e Kafka atingiram a perman\u00eancia ao compor uma literatura que devassa nosso esqueleto. Pode ser que apenas repassaram para a literatura o que a ci\u00eancia estava descobrindo, mas com isso deram a chave para virar de pernas para o ar a press\u00e3o conservadora de olharmos admirados nossos eleitos (nesta \u00e9poca de comodistas de traseiros presos, n\u00f3s mesmos). Esses autores destitu\u00edram a humanidade do pedestal que costuma refazer-se em cada gera\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que somos tabula rasa e precisamos de um esfor\u00e7o supremo para alcan\u00e7ar o mesmo patamar de gera\u00e7\u00f5es anteriores, e s\u00f3 depois disso tentar super\u00e1-las.<\/p>\n<p>Claro que inverteram tudo: a desconstru\u00e7\u00e3o dos mitos cristalizou-se. Agora o esp\u00edrito conservador cinzelou em m\u00e1rmore o que ele entende por modernidade e l\u00e1 vamos n\u00f3s de novo em regress\u00e3o absoluta. S\u00f3 se atinge a transcend\u00eancia com a vis\u00e3o clara dos nossos limites. N\u00e3o adianta perguntar ao espelho viciado em voc\u00ea quem \u00e9 o rei da cocada preta, que ele responder\u00e1 o \u00f3bvio. O truque \u00e9 mirar-se na diferen\u00e7a e pela diferen\u00e7a sintonizar-se com o Outro. Esse encontro s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel se definirmos os contornos do humano que habita em n\u00f3s.<\/p>\n<p>Transcender n\u00e3o significa ser aplaudido, mas habitar uma das moradas eternas (algumas delas s\u00e3o invis\u00edveis). Tamb\u00e9m n\u00e3o implica auto-esculacho, que no fundo \u00e9 pura vaidade, isca para o reconhecimento alheio, que se for puxa-saco o suficiente, ir\u00e1 discordar, a n\u00e3o ser que voc\u00ea viva no Brasil.<\/p>\n<p>Aqui, toda autocr\u00edtica \u00e9 levada a s\u00e9rio. Nunca diga, nem murmurando: como sou idiota! Todos ir\u00e3o sacudir afirmativamente a cabe\u00e7a. Voc\u00ea \u00e9 mesmo esse asno auto-punitivo. Definir os limites n\u00e3o \u00e9 dito aqui no sentido pedag\u00f3gico-babaca do termo: precisa dar limite para esta crian\u00e7a! Falo em descobrir os contornos, saber onde nos identificamos, onde est\u00e1 a fronteira que nos revela, e n\u00e3o a escassez que nos flagela.<\/p>\n<p>Quem somos n\u00f3s? N\u00e3o sabemos. Mas podemos vislumbrar alguma coisa se identificarmos onde est\u00e3o as linhas que nos fazem reais. Por exemplo: n\u00e3o sei perguntar, ou n\u00e3o sei dar a resposta a adequada, ou jamais saltarei de para-quedas, ou subir montanha \u00e9 para esp\u00e9cimes caprinas peludas. N\u00e3o sou pintor, mas desenhista, diz Rodolfo Mesquita na entrevista a Urariano Mota. A\u00ed voc\u00ea decide: Mesquita \u00e9 um tremendo de um artista, um desenhista \u00fanico, um pintor magn\u00edfico. Ou n\u00e3o. Mas veio dele algo que o define.<\/p>\n<p>Ele sempre parte do desenho. Isso n\u00e3o \u00e9 uma radiografia, um insumo para a cr\u00edtica de arte, mas exatamente a a\u00e7\u00e3o de definir os contornos do humano para atingir a transcend\u00eancia. N\u00e3o que ele queira atingir, mas chega l\u00e1 porque deixou-se levar pela sua natureza, pela transpar\u00eancia com que se enxerga, pela maneira tranq\u00fcila de se auto-definir.<\/p>\n<p>Vamos pegar outros exemplos. Jos\u00e9 Sarney se coloca como o grande pacificador, o reinventor da democracia no Brasil. Ser\u00e1 lembrado como o presidente da Arena que consolidou o regime de 64. Lula diz que nunca houve um presidente como ele. Pode ser uma profecia, mas n\u00e3o muito obediente ao profeta. FHC enche de elogios o grande assassino Henry Kissinger (conforme den\u00fancias, o sinistro mandat\u00e1rio do golpe chileno de 1973; foi tamb\u00e9m Nobel da Paz por pacificar, qu\u00e1 qu\u00e1 qu\u00e1, o Oriente M\u00e9dio). FHC ser\u00e1 lembrado como o grande pulha que entregou de bandeja o pa\u00eds \u00e0 sanha estrangeira em troca de alguns t\u00edtulos de Honoris Causa (certamente n\u00e3o foi s\u00f3 esse o pagamento). Uma biografia n\u00e3o funciona se o objetivo for jogar confete no biografado.<\/p>\n<p>Samuel Wainer entendia do riscado e passou o encargo da sua autobiografia para o competent\u00edssimo Augusto Nunes, que fez um primor de texto, sem trair o jeit\u00e3o do velho Samuel de contar uma hist\u00f3ria. Samuel fazia auto-cr\u00edtica, me olhando debaixo daquelas grossas sobrancelhas brancas. Era um rep\u00f3rter de si mesmo.<\/p>\n<p>Um escritor de verdade est\u00e1 sempre armado de um punhal, n\u00e3o apenas para cortar as abobrinhas, mas porque tem um encontro com a morte. Ele est\u00e1 preparado diante da amea\u00e7a fatal da obra morta ao nascer. Ele vive da supera\u00e7\u00e3o, de seu livro sobreviver a ele mesmo. Poucos conseguem. Nascemos para virar p\u00f3 do esquecimento. Mas, \u00e0s vezes, um anjo nos visita.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um escritor de verdade est\u00e1 sempre armado de um punhal, n\u00e3o apenas para cortar as abobrinhas, mas porque tem um encontro com a morte. Ele est\u00e1 preparado diante da amea\u00e7a fatal da obra morta ao nascer. Ele vive da supera\u00e7\u00e3o, de seu livro sobreviver a ele mesmo. Poucos conseguem. Nascemos para virar p\u00f3 do esquecimento. 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