{"id":889,"date":"2009-12-13T20:39:19","date_gmt":"2009-12-13T22:39:19","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=889"},"modified":"2009-12-21T22:40:54","modified_gmt":"2009-12-22T00:40:54","slug":"antes-do-baile","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/antes-do-baile","title":{"rendered":"ANTES DO BAILE"},"content":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>As multid\u00f5es n\u00e3o estavam soltas, impregnando cidades, ou forrando estradas, como agora. Eram reunidas em lugares fechados, e na maior parte do tempo ficavam em repouso. Pessoas de todos os tipos e lugares obedeciam a fila, ou permaneciam lado a lado, mudas, ext\u00e1ticas, a um bra\u00e7o de dist\u00e2ncia uma da outra. Usavam uniformes de cores neutras, um azul marinho nas blusas e casacos, um filete branco nas mangas. Golas engomadas exageravam na pontualidade.<\/p>\n<p>Os olhares eram duros, fixos, e os corpos se submetiam \u00e0 posi\u00e7\u00e3o de sentido ou se debru\u00e7avam sobre carteiras, mesas, balc\u00f5es. Somavam centenas, milhares, milh\u00f5es, mas eram invis\u00edveis. Onde se escondiam, enquanto a sesta devorava a tarde, ou os descampados sofriam o jugo dos nossos passeios secretos, quando pratic\u00e1vamos tiro nas andorinhas? Embaixo de qual pedra se situavam? Fugiam dos nossos crimes que atulhavam quintais imensos sem testemunhas? As massas habitavam lugares exc\u00eantricos, longe de nossa vista, \u00e0 espera de um sino, um alarme, um bater de palmas, para se desencadearam em ruidosa e irresist\u00edvel avalanche.<\/p>\n<p>Ocup\u00e1vamos ent\u00e3o nossos postos na sa\u00edda dos col\u00e9gios das freiras. Sapatos de seda, adornados por la\u00e7os de fita violeta, transportavam as meninas. Pernas amaciadas por meias de puro cetim marchavam sob o surdo farfalhar de saias cada vez mais pr\u00f3ximas do sonho. Aquele mar de mulher sa\u00eda compacto abra\u00e7ando cadernos e livros e tapando a boca na hora das confid\u00eancias. O riso era abafado, como \u00e9 comum at\u00e9 hoje entre garotas chinesas e coreanas. T\u00ednhamos algo de oriental. O cabelo escovinha coroava a rigidez dos pesco\u00e7os. Os guarda-p\u00f3s desciam at\u00e9 os p\u00e9s.<\/p>\n<p>A reuni\u00e3o do estado-maior era ao redor de uma garrafa de soda-laranja, depositada sobre um tampo de m\u00e1rmore ou f\u00f3rmica. O gar\u00e7om \u00e0s vezes chegava perto para oferecer algo ou simplesmente recolher os copos. Exibia distin\u00e7\u00e3o envergando gravata borboleta, enquanto o grande guardanapo pendia no bra\u00e7o como um pingente de ouro. Moleques, ped\u00edamos mais uma &#8220;dose&#8221; e assim corriam as horas at\u00e9 chegar o momento da s\u00fabita prociss\u00e3o dos habitantes.<\/p>\n<p>Aglomera\u00e7\u00f5es bem vestidas sa\u00edam dos est\u00e1dios. Uma recorrente f\u00e1brica de gritos encerrava as sess\u00f5es de cinema. Com\u00edcios desaguavam num tropel de votantes convictos. Um deslizamento silencioso tomava conta de cal\u00e7adas e pra\u00e7as depois da missa matinal. Grandes brigas atra\u00edam gigantescos ajuntamentos. E os corredores improvisados dos parques de divers\u00f5es tinham o poder da imanta\u00e7\u00e3o coletiva.<\/p>\n<p>Em todo lugar havia gente saindo pelo ladr\u00e3o. Mas o planeta estava vazio. O vento batia nos eucaliptos no col\u00e9gio abandonado. O melhor amigo se mudara para sempre. O professor insubstitu\u00edvel n\u00e3o voltaria no fim das f\u00e9rias. A menina dos olhos namorava firme com algu\u00e9m.<\/p>\n<p>\u00c0 tardinha, as multid\u00f5es se recolhiam, para depois sentarem na frente das casas, a receber visitas. Sa\u00edamos ent\u00e3o em dire\u00e7\u00e3o ao centro, contando cadeiras pregui\u00e7osas. Em cada uma delas, algu\u00e9m iria dar um aceno. Pois esse era o nosso objetivo. De toda aquela imensa quantidade, uma s\u00f3 pessoa sairia do miolo do devaneio para chegar at\u00e9 n\u00f3s. Pisaria macio como fada em baile de formatura. Nosso \u00fanico trabalho era tir\u00e1-la para dan\u00e7ar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As multid\u00f5es n\u00e3o estavam soltas, impregnando cidades, ou forrando estradas, como agora. Eram reunidas em lugares fechados, e na maior parte do tempo ficavam em repouso. Pessoas de todos os tipos e lugares obedeciam a fila, ou permaneciam lado a lado, mudas, ext\u00e1ticas, a um bra\u00e7o de dist\u00e2ncia uma da outra. 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