{"id":891,"date":"2009-12-13T20:40:15","date_gmt":"2009-12-13T22:40:15","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=891"},"modified":"2009-12-21T22:04:13","modified_gmt":"2009-12-22T00:04:13","slug":"soldados-de-salamina","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/soldados-de-salamina","title":{"rendered":"SOLDADOS DE SALAMINA"},"content":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>Soldados de Salamina (2001) , a premiada e bem sucedida novela de Javier Cercas, \u00e9 sobre a reconcilia\u00e7\u00e3o nacional na Espanha depois da queda do franquismo, quando era necess\u00e1rio revisitar as feridas abertas da Guerra Civil de 1936 a 1939. Foi sucesso por v\u00e1rios motivos. Primeiro, pela s\u00fabita notoriedade que adquiriu quando foi descoberta por Mario Vargas Llosa, o que colocou o livro no circuito da leitura obrigat\u00f3ria. Segundo, porque aborda a rela\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea da Espanha com o passado, como notou o cineasta David Trueba ao levar a hist\u00f3ria para o cinema em 2002, filme que vi ontem e que \u00e9 absolutamente magn\u00edfico.<\/p>\n<p>E terceiro, exatamente porque tocou no ponto principal do pa\u00eds dividido: a necessidade de reconquistar a uni\u00e3o nacional, por meio n\u00e3o do perd\u00e3o puro e simples, mas do entendimento de que a vida precisa ser hegem\u00f4nica sobre a celebra\u00e7\u00e3o da morte. Mantenha-se a diversidade, mas um ponto comum \u00e9 preciso ser acertado, o da conviv\u00eancia por meio do resgate franco e aberto dos fatos que ensag\u00fcentaram o pa\u00eds.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 uma tarefa simples nem tranq\u00fcila. O livro virou alvo de cr\u00edticas contundentes, sendo acusado de promover a recostura da cultura patriarcal e excludente, j\u00e1 que se trata do resgate de um epis\u00f3dio obscuro, o motivo que fez um l\u00edder fascista espanhol ser poupado por um soldado que deveria fuzil\u00e1-lo. Cercas enfrentou seu touro a unha e saiu-se bem. Abordou os dois lados da trag\u00e9dia, por meio de um momento \u00fanico, o olhar entre o carrasco e a v\u00edtima, ambos envolvidos num conflito que dizia respeito a suas ideologias, mas jamais \u00e0 humanidade de cada um.<\/p>\n<p>Trueba, jovem diretor eficiente e sens\u00edvel, tem o cuidado de criar uma obra cinematogr\u00e1fica que n\u00e3o se rende \u00e0 emo\u00e7\u00e3o. \u00c9 enxuta o tempo todo ao seguir os passos de um Dedalus feminino, que usa o fio da investiga\u00e7\u00e3o dentro do labirinto para encontrar a ess\u00eancia da sua hist\u00f3ria. &#8220;Esquecemos de filmar a emo\u00e7\u00e3o&#8221;, diz ele, debochando, no making of, depois de fazer uma cena. Ele n\u00e3o filma a emo\u00e7\u00e3o, mas faz um filme emocionante. Consegue porque usou o livro como fundamento, gra\u00e7as ao entendimento que teve com Cercas num longo conv\u00edvio que chegou a cruzar as festas de fim de ano na virada de 2002.<\/p>\n<p>Trueba muda o sexo do protagonista, que no livro \u00e9 homem, o pr\u00f3prio Cercas, ou melhor, um personagem totalmente colado no autor. No filme \u00e9 a mulher que vai em busca da pr\u00f3pria salva\u00e7\u00e3o, pois o que procura \u00e9 exatamente voltar ao seu of\u00edcio perdido, o de escritora. Conta para isso com o apoio de quem lhe quer bem, a amiga das cartas de Tarot e os personagens que entrevista, todos eles gratificados por serem alvo da sua aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O encontro final, com o principal personagem, exatamente o soldado que poupou o l\u00edder fascista, \u00e9 de arrebentar. Mais n\u00e3o conto para n\u00e3o tirar a gra\u00e7a. Leitores e espectadores merecem ter sua pr\u00f3pria percep\u00e7\u00e3o desse trabalho maravilhoso que os espanh\u00f3is nos legaram. Precisamos nos mirar nesse exemplo: nos reconciliar, olhar com absoluta serenidade o Outro no momento extremo, quando nos defrontamos para nos eliminar. Deixar que a vida resolva a situa\u00e7\u00e3o, e que a alegria transpare\u00e7a e nos trespasse como um flecha exc\u00eantrica de Cupido, o deus travesso.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Soldados de Salamina (2001) , a premiada e bem sucedida novela de Javier Cercas, \u00e9 sobre a reconcilia\u00e7\u00e3o nacional na Espanha depois da queda do franquismo, quando era necess\u00e1rio revisitar as feridas abertas da Guerra Civil de 1936 a 1939. Foi sucesso por v\u00e1rios motivos. Primeiro, pela s\u00fabita notoriedade que adquiriu quando foi descoberta por Mario Vargas Llosa, o que colocou o livro no circuito da leitura obrigat\u00f3ria. Segundo, porque aborda a rela\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea da Espanha com o passado, como notou o cineasta David Trueba ao levar a hist\u00f3ria para o cinema em 2002, filme que vi ontem e que \u00e9 absolutamente magn\u00edfico. 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