{"id":893,"date":"2009-12-13T20:41:13","date_gmt":"2009-12-13T22:41:13","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=893"},"modified":"2009-12-21T22:51:39","modified_gmt":"2009-12-22T00:51:39","slug":"ceu-de-bomba-estrela","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/ceu-de-bomba-estrela","title":{"rendered":"C\u00c9U DE BOMBA-ESTRELA"},"content":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>A estabilidade \u00e9 o capital simb\u00f3lico do v\u00f4o. O olhar curioso, que vasculha o c\u00e9u em busca de uma estrela diurna, repousa quando encontra o balan\u00e7o sem n\u00f3s de uma pipa, equil\u00edbrio a sugerir excel\u00eancia na arquitetura, f\u00f4lego nos materiais e alta defini\u00e7\u00e3o nos detalhes. Destaca-se tamb\u00e9m o preparo do piloto, que manobra \u00e0 dist\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Se, ao contr\u00e1rio, houver excessivo rodopio, mergulhos lancinantes, amea\u00e7as de cair em algum fio ou telhado, o espectador fica em sobressalto. A instabilidade significa p\u00e9ssimas inten\u00e7\u00f5es de abordagem, ansiedade em derrubar criaturas da mesma esp\u00e9cie, ou simplesmente falta de compet\u00eancia t\u00e9cnica. Pipa sem paz de esp\u00edrito gera suspeita ao procurar algo que n\u00e3o lhe diz respeito.<\/p>\n<p>Um objeto desses fazia parte de grande diversidade no territ\u00f3rio das nossas mem\u00f3rias. Em oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 pipa, encarada como jogo da primeira inf\u00e2ncia, existia a bomba-estrela, que exigia habilidades de mestre de of\u00edcio. O corte de bambus longos, finos e resistentes, todos do mesmo tamanho, a partir de mat\u00e9ria-prima escassa e problem\u00e1tica (a taquara dos terrenos baldios), era apenas o primeiro passo.<\/p>\n<p>Quando algu\u00e9m se dedicava a construir uma bomba-estrela, imediatamente se fazia sil\u00eancio absoluto. Era permitido que os mais chegados vissem de perto o andamento dos trabalhos, sem jamais dar palpites, pois uma oficina que gera o deslumbramento n\u00e3o pode ser interrompida pelo grasnar dos leigos. Os menos considerados chegavam a esconder-se atr\u00e1s das \u00e1rvores, para s\u00f3 espiar de vez em quando.<\/p>\n<p>A devo\u00e7\u00e3o fazia parte do ambiente que circundava a obra. Bomba-estrela s\u00f3 poderia levantar v\u00f4o em \u00e9pocas sagradas do calend\u00e1rio, como nas vira\u00e7\u00f5es violentas da primavera. Implicava grosso investimento em pap\u00e9is de cores variadas, fundamentais para vestir a majestade. Impunha cola de primeira linha, e n\u00e3o o expediente maroto de misturar farinha com \u00e1gua (a gl\u00f3ria n\u00e3o permitia o grude). E os barbantes deveriam resistir \u00e0s tempestades.<\/p>\n<p>Como o dinheiro era escasso, a bomba-estrela provinha da generosidade dos adultos ou da s\u00fabita uni\u00e3o dos desiguais, que abriam m\u00e3o das adversidades para viabilizar o sonho de ver o b\u00f3lido fazendo inveja na vizinhan\u00e7a. Havia sempre um motivo nobre para a empreitada. No meu caso, meu pai cacifou uma enorme bomba-estrela, daquelas com roncador e tudo, para me dar de presente de anivers\u00e1rio.<\/p>\n<p>Quando o gigante ficou pronto, ultrapassava minha altura. Impressionava at\u00e9 mesmo os autores da fa\u00e7anha, que cuidaram da decolagem. O monstro subiu ruidoso como um drag\u00e3o de matin\u00ea. Mas a ordem paterna era que eu me apossasse da opera\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o fui amarrado pela cintura por grossa corda que empinava o bruto. Por pouco n\u00e3o fui varrido do mapa. Salvou-me o choro, que liberou a prenda para quem a constru\u00edra, sob o olhar assombrado da Inoc\u00eancia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A devo\u00e7\u00e3o fazia parte do ambiente que circundava a obra. Bomba-estrela s\u00f3 poderia levantar v\u00f4o em \u00e9pocas sagradas do calend\u00e1rio, como nas vira\u00e7\u00f5es violentas da primavera. Implicava grosso investimento em pap\u00e9is de cores variadas, fundamentais para vestir a majestade. Impunha cola de primeira linha, e n\u00e3o o expediente maroto de misturar farinha com \u00e1gua (a gl\u00f3ria n\u00e3o permitia o grude). E os barbantes deveriam resistir \u00e0s tempestades.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[6],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/893"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=893"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/893\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1755,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/893\/revisions\/1755"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=893"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=893"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=893"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}