{"id":895,"date":"2009-12-13T20:42:14","date_gmt":"2009-12-13T22:42:14","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=895"},"modified":"2009-12-21T22:10:28","modified_gmt":"2009-12-22T00:10:28","slug":"sinistrus-joe-no-diario-da-fonte","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/sinistrus-joe-no-diario-da-fonte","title":{"rendered":"SINISTRUS JOE NO DI\u00c1RIO DA FONTE"},"content":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>ENTREVISTA COM SINISTRUS JOE<\/p>\n<p>Quando todos se mandaram do sonho de viver na praia, a\u00ed pela grande crise do Plano Cruzado, ele permaneceu. Foi se afastando de todos os expedientes e hoje vive s\u00f3, numa casa de pau-a-pique, ao lado de gigantesco menir arqueol\u00f3gico, na ponta de uma praia oculta. \u00c9 direto e definitivo sobre todos os assuntos. Usa longo cabelo crespo branco revolto e vive de pequenos peixes que lhe atiram. Tem o olhar azul furibundo. De perto parece assustador. Mais de perto, sai da frente. Olha agora as pessoas que, cansadas das megal\u00f3poles, voltam a sonhar \u00e0 beira do mar, e sacode a cabe\u00e7a. Fui entrevist\u00e1-lo. De longe, aos berros. As respostas serviram para me deixar desconfiado: estaria ele me tirando um sarro?<\/p>\n<p>P &#8211; Ei, Sinistrus, quando \u00e9 que voc\u00ea vai voltar para a civiliza\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>R &#8211; Tomorrow after rain, responde, recompondo em ingl\u00eas fajuto o cl\u00e1ssico &#8220;amanh\u00e3 depois da chuva&#8221;.<\/p>\n<p>P &#8211; Como voc\u00ea consegue sobreviver nesta ilha?<\/p>\n<p>R &#8211; Killing dog screaming (matando cachorro a grito), continua o ermit\u00e3o.<\/p>\n<p>P &#8211; Voc\u00ea torce para qual time?<\/p>\n<p>R &#8211; O da v\u00e9ia, sempre tor\u00e7o para o time da v\u00e9ia.<\/p>\n<p>Ele estava mesmo me gozando. Mas n\u00e3o desisti. Subi mais alguns lances da pedra para v\u00ea-lo melhor. Usava roupa de papel crepom desbotado e segurava um cajado de osso. De baleia, possivelmente.<\/p>\n<p>P &#8211; Voc\u00ea j\u00e1 viu uma baleia?<\/p>\n<p>R &#8211; A toda hora. Elas engordam na civiliza\u00e7\u00e3o e chegam aqui para suar um pouco. Sempre penso que \u00e9 para perder peso, mas \u00e9 s\u00f3 para abrir o apetite.<\/p>\n<p>P &#8211; Falo das baleias mesmo, as do mar.<\/p>\n<p>N\u00e3o me respondeu. Parece que gritava, n\u00e3o dava para ver. Um eco me trazia um<\/p>\n<p>-&#8230;a senhora sua m\u00e3e&#8230;<\/p>\n<p>mas n\u00e3o deu para saber se era dele mesmo.<\/p>\n<p>P &#8211; Sinistrus (eu n\u00e3o desistia), voc\u00ea acha que o Brasil tem jeito?<\/p>\n<p>R &#8211; Claro que tem. O Brasil sempre fica no jeito. Primeiro foram os espanh\u00f3is, depois os franceses, mais tarde os ingleses, depois os americanos, agora os chineses, os ucranianos, os trogloditas e os saramagos. O Brasil sempre d\u00e1 um jeitinho de ficar no jeito. \u00c9 o \u00fanico pa\u00eds do mundo que, onde estiver, sacode as tetas.<\/p>\n<p>P &#8211; Voc\u00ea \u00e9 nacionalista, Sinistrus?<\/p>\n<p>R &#8211; Nada. Sou de antes da na\u00e7\u00e3o. Sou do Brasil antes do Brasil. Nasci para enfiar esse cajado na costa brasileira.<\/p>\n<p>E sacudiu o osso gritando para as nuvens.<\/p>\n<p>Sinistrus Joe estava mesmo em forma. Quem mandou entrevist\u00e1-lo?<\/p>\n<p>BACIA &#8211; Os barcos ficam lado a lado na pequena bacia. O mar deveria ser calmo aqui, mas ronca. S\u00e3o pequenas ondas que lambem a costa. Estariam sendo geradas por algum pesqueiro no horizonte? N\u00e3o h\u00e1 pesqueiros hoje em toda a ilha. Est\u00e3o recolhidos. Os pescadores se re\u00fanem nos bares que s\u00f3 funcionam na temporada e exibem esqueletos do que foram ou ser\u00e3o (coisas cheias de gente b\u00eabada). Os pescadores est\u00e3o s\u00f3brios. Parecem s\u00e9rios, mas gritam quando voc\u00ea passa. Est\u00e3o, claro, tirando uma de turistas de inverno. Um deita atirado na areia e te olha de soslaio. Massas de terra ao longe fundem-se com a maresia, que aqui possui carne grossa. Ser\u00e3o ilhas? Ser\u00e1 o continente? N\u00e3o sabemos. N\u00e3o temos rosa dos ventos. Somos n\u00e1ufragos desse peda\u00e7o do planeta terra, escolhendo pequenas conchas, pequenas pedras. Todas as casas est\u00e3o vazias. O sol a pino diz que \u00e9 ver\u00e3o no corpo. Basta bater no morro a\u00ed pelas quatro da tarde, o gelo come\u00e7a a descer. O sul me ensina a solid\u00e3o do inverno. Debaixo de placas proibitivas, o dono solta seus tr\u00eas cachorr\u00f5es. Eles descobrem a felicidade. Chama-se liberdade, fica na areia e na beira da \u00e1gua. \u00c9 assim o planeta onde vivemos. Algu\u00e9m deve ter puxado a descarga para que pouca gente o veja assim. Em cima de um morrete, colocaram algumas estacas e sobre elas um estrado. Algu\u00e9m do povo brasileiro dorme sobre esse estrado. Viajo no tempo e aguardo. Sonho com algumas provid\u00eancias. O corpo pede a\u00e7\u00e3o. Os pulm\u00f5es se recuperam. A lua nova virou mocinha. Est\u00e1 enfeitada, brilhante, \u00e0 espera do tempo novo que chega. Lua nova n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 promessa, \u00e9 feitio de ora\u00e7\u00e3o. Desce, M\u00e3e de Deus, teu manto sobre nossas vidas e nos proteja. Queremos aquele Brasil, o que nossos pais e av\u00f3s constru\u00edram, e nos legaram. Ele continua aqui, mas precisamos saber viver nele de novo. Mutuca, Z\u00e9 Gomes, toquem aquelas velhas e in\u00e9ditas can\u00e7\u00f5es. Irei at\u00e9 os an\u00e9is de Saturno, para encontrar objetos perdidos&#8230;O vento \u00e9 uma pedra polar&#8230;<\/p>\n<p>10 de Julho de 2004<\/p>\n<p>Di\u00e1rio da Fonte<\/p>\n<p>UM PASSEIO EM PARATY<\/p>\n<p>Nosso correspondente em Paraty, surpreendentemente, \u00e9 Sinistrus Joe, aquele que, quando todos se mandaram , a\u00ed pela grande crise do Plano Cruzado, permaneceu na ponta de uma praia oculta aqui de Floripa. Como vive s\u00f3, numa casa de pau-a-pique, ao lado de gigantesco menir arqueol\u00f3gico, achava que jamais se daria o trabalho de viajar. Pois ele foi para a Flip e j\u00e1 voltou. Fez tudo de avi\u00e3o. Ganhou a mesada de um milion\u00e1rio, ex-companheiro de viagens dos anos 60, que \u00e9 herdeiro de fortuna, um esp\u00f3lio meio escandaloso de ind\u00fastrias sucateadas. O longo cabelo crespo branco revolto de Sinistrus Joe real\u00e7ava seu olhar de um azul furibundo. Fiz nova entrevista. Desta vez, ele estava mais acostumado comigo.<\/p>\n<p>TIT\u00c3S ? Perguntei pelo encontro liter\u00e1rio internacional e Sinistrus Joe, direto como sempre, interrompeu-me pelo meio da frase:<\/p>\n<p>&#8211; Tem sempre um Tit\u00e3 no meio!<\/p>\n<p>\u00c9 verdade. Se \u00e9 festival de m\u00fasica, l\u00e1 est\u00e3o eles. Se \u00e9 mat\u00e9ria sobre filhos rec\u00e9m nascidos, manda-lhe um Tit\u00e3. Se \u00e9 livro, de novo eles. Parecem at\u00e9 aquele magrinho de Porto, que foi comprar um cachorro-quente. O hot-dog portoalegrense \u00e9 pioneiro nessa hist\u00f3ria de colocar um monte de coisa junto com a salsicha, desde salsinha, queijo e at\u00e9 milho. Vai milho? perguntou o cachorreiro. S\u00f3\u00f3\u00f3, respondeu o magrinho, completamente pronto naquela hora do dia. A\u00ed o ambulante fez de prop\u00f3sito: colocou s\u00f3 milho. Pois \u00e9 assim que parece a Sinistrus Joe: onde acontecer qualquer coisa, s\u00f3 tem Tit\u00e3. Ali\u00e1s, eles estavam na festa gigantesca da Tim esses dias.<\/p>\n<p>&#8211; Mas Arnaldo Antunes \u00e9 um bom poeta, argumento.<\/p>\n<p>&#8211; Sol a s\u00f3s \u00e9 dose, grunhiu o ermit\u00e3o.<\/p>\n<p>Ele se referia a um verso do badalado Tit\u00e3.<\/p>\n<p>&#8211; Os n\u00e3o-livros n\u00e3o se satisfazem em ser o que s\u00e3o, disse. Agora est\u00e3o diminuindo de tamanho. Dizem que ningu\u00e9m l\u00ea. Claro, n\u00e3o-leitores n\u00e3o l\u00eaem, s\u00f3 os leitores mesmo. Daqui a pouco todos v\u00e3o se abaixar bem para ver o que est\u00e1 escrito naqueles min\u00fasculos produtos de entretenimento e v\u00e3o acabar achando s\u00f3 aquela s\u00edntese total da l\u00edngua portuguesa.<\/p>\n<p>&#8211; Qual \u00e9, Sinistrus?<\/p>\n<p>Como \u00e9 um cara antigo, ele sussurrou o palavr\u00e3o de duas letras no meu ouvido.<\/p>\n<p>&#8211; ??? pasmei<\/p>\n<p>&#8211; Sim, sim. Os livros de verdade ficam para os estrangeiros. Os de fora fazem livros grossos, at\u00e9 mesmo livros grossos infantis, como os do Harry Potter. Mas n\u00e3o cai a ficha dos caras.<\/p>\n<p>LIVRISMO &#8211; Lembrei ent\u00e3o do livrismo:<\/p>\n<p>&#8211; Tinha muita crian\u00e7a l\u00e1, Sinistrus?<\/p>\n<p>&#8211; Muita, muita. E n\u00e3o tinha o Mauricio de Souza, mas o Jaguar. Todos livristas. E mais o Cae, que publicou aquele Noites Tropicais, por isso tamb\u00e9m \u00e9 autor.<\/p>\n<p>&#8211; Mas Caetano \u00e9 g\u00eanio, Joe. Por que a implic\u00e2ncia?<\/p>\n<p>Ele ent\u00e3o me segredou que foi l\u00e1 levar seu romance in\u00e9dito para ver se encontrava editor. Mas o confundiram com um catador de papel, e lhe deram umas esmolas. Ele mostrava as resmas de folhas escritas em papel de alma\u00e7o, jurando que era um romance in\u00e9dito, mas ningu\u00e9m deu bola. Perguntei do que se tratava o livro.<\/p>\n<p>&#8211; Sobre os gigantes, respondeu. Os gigantes que me aparecem ao vivo e \u00e0s vezes em sonho. Eles existem, est\u00e3o a\u00ed, s\u00e3o criaturas-montanhas.<\/p>\n<p>E me olhou, furibundo. Perguntei se tinha dormido ao relento e ele me respondeu que ficou na pens\u00e3o do Paulinho. Gostava do Paulinho, que contava as hist\u00f3rias mais mal-assombradas sobre as cercanias de Paraty, de estradas coloniais misteriosas, v\u00e1rios tipos desconhecidos de on\u00e7a. Isso assustava os turistas, que preferiam ir dormir na pra\u00e7a a ter que aturar as conversas. Sinistrus escutava Paulinho at\u00e9 o amanhecer.<\/p>\n<p>&#8211; Viste algum gigante por l\u00e1? perguntei, meio distra\u00eddo.<\/p>\n<p>Ele ficou furioso. Adiantou-se alguns passos (est\u00e1vamos na beira da praia, gelada neste in\u00edcio de inverno) e olhou para os fios, os postes de luz. Apontou-me um urubu pousado em<\/p>\n<p>cima de uma lumin\u00e1ria, uma coruja sobre o mour\u00e3o de uma cerca.<\/p>\n<p>&#8211; Acredita no urubu? Na coruja? Ent\u00e3o tem que acreditar nos gigantes.<\/p>\n<p>E foi-se, chutando conchas. Cantava baixinho algo de Jo\u00e3o Gilberto. Joe adora Jo\u00e3o. Gritou l\u00e1 da frente:<\/p>\n<p>&#8211; Jo\u00e3o Gilberto n\u00e3o \u00e9 babaca. Nunca tirou o terno, nunca foi a uma festa de livros, nunca deixou de ser o que \u00e9. T\u00e1 todo mundo fantasiado. Querem ser tudo. Onde est\u00e3o os autores? Perdidos, vendo a vida passar totalmente in\u00e9dita!<\/p>\n<p>Batia na sacolona que trazia a tiracolo, onde guardava, acredito, seu romance in\u00e9dito.<\/p>\n<p>&#8211; Ningu\u00e9m quer saber, querem s\u00f3 badalar, fazer pose. Quem vai l\u00e1 tamb\u00e9m fica fazendo pose. Conhe\u00e7o montes de romances in\u00e9ditos. Para onde v\u00e3o? Para o bucho das tra\u00e7as. Sol a s\u00f3s um bom cacete. O sol bebe cerveja comigo ao anoitecer.<\/p>\n<p>CRISTINO &#8211; Figura esse Sinistrus Joe. Ningu\u00e9m d\u00e1 bola para ele. Quando o revelei, aqui no DF, n\u00e3o houve um coment\u00e1rio sequer. \u00c9 a maldi\u00e7\u00e3o dessa gera\u00e7\u00e3o. Ser esquecida em vida. Ser enterrada cheia de coisas para dizer. Vendo todos se locupletarem na festa sem fim. Dei de ombros e fui para a casa. Que me importa tudo isso. Vou para baixo das cobertas. Os barzinhos de Paraty, diz a TV, est\u00e3o lotados. Deve estar bom l\u00e1. Caco Belmonte foi, Tony Monti foi. Est\u00e3o se divertindo. Quem sabe cravam um editor bom de bola e explodem na pra\u00e7a.<\/p>\n<p>No meio da noite, ou\u00e7o passos pesados. E uma voz que espicha as vogais, gutural:<\/p>\n<p>&#8211; Os gigantes, escuto Sinistrus Joe dizer. Os gigantes est\u00e3o bem perto de ti, cara. Os gigantes&#8230;<\/p>\n<p>Ser\u00e1 que o Paulinho, dono da melhor pens\u00e3o de Paraty, viu algum deles? Me deu saudade daquela cidade. Tive que sair da velha Paraty para encontrar um chinelo forte, que aguentasse as pedras do s\u00e9culo 18. Fora daquela maravilha arquitet\u00f4nica, as cal\u00e7adas e ruas s\u00e3o como qualquer outra cidade brasileira. Caminh\u00f5es estacionam, ambulantes deslizam. E no pobre riozinho, aquela chata que fica tirando lama do fundo e que \u00e9 sustentada por dinheiro japon\u00eas, faz barulho. J\u00e1 tinha visto uma chata dessas no Tiet\u00ea, por longos anos. Tiravam barro do fundo, financiada a fundo perdido. Ser\u00e1 que \u00e9 a mesma chata?<\/p>\n<p>&#8211; Os gigantes, cara, eles est\u00e3o aqui. Tenho medo, Cristino. Tenho medo da dor e da morte&#8230;<\/p>\n<p>Deus do c\u00e9u. Sempre que escuto algum sussurro, me vem o cangaceiro de duas cabe\u00e7as do inesquec\u00edvel Othon\/Glauber.<\/p>\n<p>27 de Dezembro de 2004<\/p>\n<p>Di\u00e1rio da Fonte<\/p>\n<p>O BATICUM BERRADO DOS PREDADORES<\/p>\n<p>Sinistrus Joe, o ermit\u00e3o que vive na ponta de uma praia isolada, ao lado de um grande menir, me concedeu nova entrevista exclusiva e falou sobre o h\u00e1bito que existe hoje de as pessoas imporem seus auto-falantes para o ouvido alheio. O que \u00e9 isso? perguntei, assustado com a dissemina\u00e7\u00e3o de uma doen\u00e7a social, pois o que se coloca no mais alto volume, al\u00e9m de ser uma estupidez, um atentando contra os outros, \u00e9 o ru\u00eddo insuport\u00e1vel de quem nada sabe sobre harmonia, melodia, arranjos, essas coisas mortas. O berreiro infernal e a bate\u00e7\u00e3o de lata toma conta de todo o pa\u00eds e Sinistrus Joe pensa um pouco antes de falar. Co\u00e7a o cabelo grisalho comprido, enruga ainda mais o rosto j\u00e1 enrugado e solta um guincho que me assusta. O susto que deu com sua imita\u00e7\u00e3o de gaivota era sua resposta: \u00c9 o bote animal dos predadores, diz esse exemplar perdido dos sonhos dos anos 70. Eles berram no teu ouvido, te ensurdecem para poder te matar sem resist\u00eancia. O que devemos fazer? torno a perguntar.<\/p>\n<p>GOLPE &#8211; Tem gente que chama a pol\u00edcia, mas a praga est\u00e1 muito hegem\u00f4nica, continuei falando. Todo supermercadinho resolve colocar um som alt\u00edssimo para te anunciar, domingo \u00e0s sete da manh\u00e3 por exemplo, as suas grandes atra\u00e7\u00f5es e descontos. Vejo pessoas puxando uma caixa de som como se fosse mala de aeroporto, com rodinhas, e de l\u00e1 sai o barulh\u00e3o que provoca surdez. Est\u00e1 tudo dominado, e gostaria de saber como sair dessa. Sinistrus foi r\u00e1pido na resposta: Proclame-se presidente da rep\u00fablica e reprima violentamente toda e qualquer manifesta\u00e7\u00e3o que ultrapasse um n\u00edvel bem baixo de decib\u00e9is, me diz. Reagi imediatamente: Golpe de estado? N\u00e3o \u00e9 o meu forte. N\u00e3o tem sa\u00edda, diz Sinistrus. Se o banana do presidente da Rep\u00fablica recebe em pal\u00e1cio essas duas bestas ambulantes que s\u00e3o o Zez\u00e9 di Camargo e o Luciano, ou faz salamaleques para o Chitaz\u00f3 e Chororinho, se tem gente ganhando dinheiro pesado com o som horr\u00edvel de shows indecentes e ilegais, ent\u00e3o s\u00f3 um bom golpe de estado, diz Sinistrus, na maior calma. Fico olhando para o cara. Me parecia um sujeito decente, apesar da apar\u00eancia. Achei que era democrata, mas tinha me enganado: Sinistrus, dar um golpe de estado s\u00f3 para evitar a viol\u00eancia do volume alto, s\u00f3 porque n\u00e3o tem ningu\u00e9m que possa ficar numa praia ou num camping em paz sem ser atormentado por um desses carros envenenados com mil auto-falantes em s\u00e9rie reproduzindo baticuns sem parar e berreiro pseudo sertanejo? Eles querem te mataaar, responde Sinistrus, espichando as s\u00edlabas e fazendo voz gutural. Te matar, entende? Est\u00e3o te tonteando, te tirando a paz porque querem te fazer, te cortar o bucho, te estaquear no sol, e se pedires \u00e1gua eles te dar\u00e3o salmoura, entende? S\u00f3 bala com essa canalha!<\/p>\n<p>CANH\u00c3O &#8211; Pensei que eras um democrata, disse eu, meio ressabiado. Ele olhou para o horizonte do mar. O problema, seu poeta, me disse com uma ponta de cinismo, \u00e9 que eles usaram a palavra democracia para impor a ditadura. Existe liberdade? Ent\u00e3o tome vagabunda rebolando a perereca em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 garrafinha em hor\u00e1rio infantil. Tem democracia? Ent\u00e3o tome som bem alto de madrugada para acabar contigo. Porque rebolar o bucet\u00e3o fazendo violentos movimentos p\u00e9lvicos em dire\u00e7\u00e3o a um grande pau imagin\u00e1rio e sacudir os gl\u00fateos e o rabo sem parar em programa para crian\u00e7a \u00e9 um crime hediondo que merece fuzilamento. Hoje, n\u00e3o provoca nenhuma rea\u00e7\u00e3o. Ningu\u00e9m tem coragem de reclamar. Se algu\u00e9m se dispuser a ir at\u00e9 o vizinho falar que o som est\u00e1 insuport\u00e1vel e n\u00e3o deixa ningu\u00e9m conversar, dormir, existir, o animal vai rir da tua cara. Ent\u00e3o a sa\u00edda \u00e9 uma s\u00f3: come\u00e7ar a dar tiro nesses filhos da puta. \u00c9 a guerra, meu amigo. Eles n\u00e3o v\u00e3o parar sen\u00e3o a tiro. Eu estaria disposto a ganhar um rifle de Natal e sair atirando nesses pulhas. Aviso j\u00e1 que aquele balei\u00e3o da TV Band, que n\u00e3o d\u00e1 folga um segundo e toma conta de todos os espa\u00e7os com sua graxa sinistra, vai ser o primeiro. Aquele paquerador de putinhas do sub\u00farbio, aquele descontrole desumano, aquela bisca, aquele idiota que faz cara s\u00e9ria ao perguntar ao animal\u00e3o Alexandre Frota se realmente comeu determinada atriz. Esses filhos da puta precisam levar um canh\u00e3o no meio dos cornos, \u00e9 o que estou te falando.<\/p>\n<p>BIROSCA &#8211; Muita viol\u00eancia, disse eu, reagindo \u00e0 explos\u00e3o de f\u00faria de Sinistrus Joe. Nem sabia que ele via televis\u00e3o. Via. Fugia \u00e0s vezes para uma birosca \u00e0 beira mar, onde aturava o som alto para olhar um pouco de TV, s\u00f3 para matar o tempo. Mas voltava correndo para sua cabana. L\u00e1 ficava remoendo id\u00e9ias da revolu\u00e7\u00e3o. Foi sempre assim o velho Sinistrus. Ele nunca desistiu de uma boa guerrinha.<\/p>\n<p>A BOBAGEM SEGUNDO SINISTRUS JOE<\/p>\n<p>O velho ermit\u00e3o Sinistrus Joe n\u00e3o ag\u00fcentou sua turn\u00ea pelo Brasil e voltou a morar na praia, numa tosca cabana, ao lado de um gigantesco menir, daqueles id\u00eanticos aos carregados pelo Obelix. J\u00e1 est\u00e1 na ativa, rolando pelas ruas e atacando as caixas de lixo que cont\u00eam preciosidades como deliciosas sobras de refrigerante ou suco. Encontrei-o no seu canto favorito, em frente a um conjunto comercial e resolvi entrevist\u00e1-lo de novo.<\/p>\n<p>&#8211; E a\u00ed, Joe, o que est\u00e1 pegando no pa\u00eds?<\/p>\n<p>&#8211; O maior sucesso \u00e9 a Daspu, diz, enquanto faz slurp numa das latas recolhidas na \u00faltima meia hora.<\/p>\n<p>&#8211; Por que ser\u00e1 que todo mundo fala dessa griffe das prostitutas?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o sei, mas acho que o motivo \u00e9 que todos decidiram gostar de uma grande bobagem. Pois o que vale n\u00e3o s\u00e3o os direitos das putas, mas o trocadilho. Desde a \u00e9poca do Pasquim que o trocadilho est\u00e1 erradicado do humor nacional, n\u00e3o pode mais, ou n\u00e3o podia. Daspu \u00e9 uma liberta\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; &#8230;dos costumes? pergunto, s\u00e9rio.<\/p>\n<p>Joe n\u00e3o tem paci\u00eancia com ningu\u00e9m, muito menos comigo, que costumo atazan\u00e1-lo com perguntas.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, a liberta\u00e7\u00e3o da bobagem, acabo de dizer, n\u00e3o escutou? A bobagem \u00e9 realmente libertadora. Slurp.<\/p>\n<p>Olhei para ele. Esta sorvendo sofregamente, num calor ardido, v\u00e9spera de chuva, um resto de coca light, que deve ser o pior purgante do mundo.<\/p>\n<p>&#8211; Coca light est\u00e1 na moda, o Lula emagreceu dez quilos s\u00f3 nisso, slurp, disse Joe, adivinhando meus pensamentos (eu fazia uma cara bem expl\u00edcita do meu desagrado).<\/p>\n<p>&#8211; Daspu vale ent\u00e3o porque \u00e9 um trocadilho com a Daslu? N\u00e3o seria apenas ressentimento contra o desperd\u00edcio e a ostenta\u00e7\u00e3o dos milion\u00e1rios?<\/p>\n<p>&#8211; Nada disso. \u00c9 s\u00f3 pela bobagem.<\/p>\n<p>&#8211; Mas este pa\u00eds s\u00f3 tem bobagem, Joe. Acho tua explica\u00e7\u00e3o prec\u00e1ria.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 que voc\u00ea perdeu a capacidade de pensar. O que mais o Brasil sente falta hoje \u00e9 de bobagem. O que tem \u00e9 corrup\u00e7\u00e3o, sacanagem, viol\u00eancia, esperteza, mentiras, mis\u00e9ria. Falta o qu\u00ea?<\/p>\n<p>&#8211; Didi, Moc\u00f3 e Zacarias?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, esses j\u00e1 s\u00e3o o sintoma da decad\u00eancia. Falta aquela for\u00e7a que fazia uma anedota ser conhecida em todo o Brasil em poucos dias, sem nunca ter sido dita na r\u00e1dio ou no teatro. Falta esse rio (e quando dizia rio, Joe jogava o bra\u00e7o estendido com a m\u00e3o espalmada) que te dava seguran\u00e7a de que est\u00e1vamos no pa\u00eds certo.<\/p>\n<p>&#8211; Mas Daspu \u00e9 um trocadilho infame.<\/p>\n<p>&#8211; Todo trocadilho \u00e9 infame. Mas n\u00e3o defendo o trocadilho, v\u00ea se me escuta. Defendo essa permeabilidade (quando dizia essa palavra dif\u00edcil, o mendigo ermit\u00e3o torcia todos os dedos ao mesmo tempo), que nos identificava como na\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea \u00e9 saudosista, Jose?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, bobalh\u00e3o. N\u00e3o sou saudosista. Daspu foi criado no s\u00e9culo passado?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Foi uma piada do Oscarito?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Saiu no Reco-Reco, Bol\u00e3o e Azeitona? Ent\u00e3o n\u00e3o sou saudosista. Por mim, acho prostitui\u00e7\u00e3o um crime. Falta de sexo \u00e9 pura repress\u00e3o. Eles reprimem o sexo para poder vend\u00ea-lo. Ou facilitam at\u00e9 o osso para ter todo mundo na m\u00e3o. Mas que Daspu \u00e9 engra\u00e7ado, \u00e9. At\u00e9 j\u00e1 bolei&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; O que tem de engra\u00e7ado&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o interrompa minha frase no meio, mas que mania!<\/p>\n<p>Deu um berro na palavra mania e me assustei. Quis ir embora, mas ele ficou me olhando daquele jeito. Jamais me perdoaria se eu o deixasse no meio de uma frase.<\/p>\n<p>&#8211; O que voc\u00ea bolou, Joe?<\/p>\n<p>Sinistrus aos poucos voltou a si. Talvez tivesse imaginado reagir de alguma forma, mas jamais soube de nada violento dele, e isso que o conhe\u00e7o h\u00e1 d\u00e9cadas.<\/p>\n<p>&#8211; Bolei um canal pago de TV exclusivo sobre e para prostitutas.<\/p>\n<p>&#8211; Qual seria o nome do canal?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o interessa&#8230;ou melhor, n\u00e3o pensei. Bolei apenas a grade de programas.<\/p>\n<p>&#8211; E quais seriam?<\/p>\n<p>&#8211; Programa de audit\u00f3rio com gincana entre as garotas, Disputa; programa de debate pol\u00edtico, Deputando; programa de inform\u00e1tica, Input; programa de depoimentos das presidi\u00e1rias que faziam a vida, Carandipu; moda gay, Dascu; programa policial, Kaput; infantil, Hist\u00f3rias da Tia Putinha; teen, Putz&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ningu\u00e9m usa mais Putz, interrompi.<\/p>\n<p>Sinistrus Joe desta vez nem me olhou. Desistiu. Juntou seus cacarecos e se foi, meio curvado, a barba muito branca, ele todo muito magro. De vez em quando parava e se sacudia todo. Estava rindo. Teria encontrado o nome do canal? Ou o do programa de receitas?<\/p>\n<p>2 de Agosto de 2005<\/p>\n<p>Di\u00e1rio da Fonte<\/p>\n<p>A DESPEDIDA DE SINISTRUS JOE<\/p>\n<p>Depois de dormir em frente \u00e0 caixa r\u00e1pida, esperando o pagamento de um conto que vendeu para uma revista espanhola, Sinistrus Joe achou a grana t\u00e3o boa que decidiu ir embora de Florian\u00f3polis. Por isso me convidou para uma visita ao seu ref\u00fagio, que fica ao lado de um grande menir numa das in\u00fameras praias da ilha. Fui v\u00ea-lo porque o veranico deste inverno nos permite chegar perto das ondas . E tamb\u00e9m porque essa era a grande oportunidade de fazer perguntas definitivas sobre uma personalidade que rolou vestido de roupa preta apertada, um len\u00e7o na cabe\u00e7a e uma mochila velha, ciscando latas usadas de refrigerante para sorver o resto do caldo que se acumulava em lixeiras do centro da cidade. Encontrei-o com os olhos r\u00fatilos, que focava um granito \u00e0 sua frente. Aproveitei para perguntar:<\/p>\n<p>&#8211; Sinistrus, por que voc\u00ea vai embora?<\/p>\n<p>&#8211; Porque esta \u00e9 uma ilha hostil.<\/p>\n<p>&#8211; Mas ela tem fama de cordial.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 para atrair turistas. Fique depois do feriad\u00e3o para ver.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o est\u00e1 exagerando? Voc\u00ea mesmo ficou aqui por d\u00e9cadas.<\/p>\n<p>-As pessoas ficam aqui porque n\u00e3o conseguem sair. O dinheiro n\u00e3o circula e todo mundo fica confinado, sem poder comprar a passagem.<\/p>\n<p>&#8211; Mas n\u00e3o p\u00e1ra de chegar gente. Todos querem viver em Floripa.<\/p>\n<p>&#8211; Boa sorte para todos. Ver\u00e3o que o mau humor, quando quer ser engra\u00e7ado, torna-se deboche. O cinismo \u00e9 a alegria da crueldade. E se a esperteza \u00e9 a intelig\u00eancia dos burros, como j\u00e1 disseram, a burrice \u00e9 a \u00e9tica dos inteligentes. Estou burro. Vou-me embora.<\/p>\n<p>&#8211; Vais deixar de morar na praia?<\/p>\n<p>&#8211; O mar, no Brasil, \u00e9 uma ilus\u00e3o. \u00c9 s\u00f3 chegar na beira do mar para ficar completamente duro. E ainda tem que ag\u00fcentar os canalhas que passam o ano poluindo e chegam aqui carregados de dinheiro. N\u00e3o sei de onde tiram tanta grana. Todo mundo abre a carteira e saltam notas de dez e cinq\u00fcenta. S\u00f3 eu conto moedas, e quando encontro nem d\u00e1 para um p\u00e3ozinho.<\/p>\n<p>Sinistrus me enxergou finalmente. Tinha detectado um sorrisinho na minha maneira disfar\u00e7ada de escut\u00e1-lo falar sobre pobreza.<\/p>\n<p>&#8211; Isso o que voc\u00ea est\u00e1 fazendo \u00e9 o que mais me irrita nesta ilha.<\/p>\n<p>&#8211; Isso o qu\u00ea?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o se fa\u00e7a de inocente. Foi s\u00f3 falar de dureza que voc\u00ea j\u00e1 me enxerga como um morto de fome, um perdedor. N\u00e3o gosto que me enquadrem.<\/p>\n<p>E aproximando o rosto bem perto do meu:<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea se sente superior, senhor jornalista? Porque tem um salarinho acha que pode me esnobar?<\/p>\n<p>&#8211; Longe de mim. Tenho a maior considera\u00e7\u00e3o por voc\u00ea.<\/p>\n<p>Conversa, disse ele. E virou o corpo todo para o horizonte. Tentei dar uma relaxada na conversa:<\/p>\n<p>&#8211; Este ano n\u00e3o teve tainha.<\/p>\n<p>&#8211; Nem vai ter mais. Essas pessoas est\u00e3o abaixo do caipira. Caipira ainda tem cultura. Eles est\u00e3o na fase vegetal do pensamento. Se pegam tainhas ovadas todos os anos, \u00e0s toneladas, h\u00e1 centenas de anos, como podem querer que elas se reproduzam? No fundo, a pesca de tainha aqui \u00e9 um crime ecol\u00f3gico. Os peixes sobem para desovar mais para o norte e s\u00e3o interceptadas aqui. Cada ano ficaram em menor n\u00famero e os pescadores foram se acostumando. Agora elas escassearam. Puseram culpa no clima, mas este fez uma friaca braba, como nos outros. O problema \u00e9 que o inverno n\u00e3o deixa res\u00edduos.<\/p>\n<p>&#8211; Como assim?<\/p>\n<p>&#8211; O frio n\u00e3o faz parte da civiliza\u00e7\u00e3o portuguesa. N\u00e3o v\u00ea o Glauber? Morreu de septecemia em Cintra, no alto da serra em Portugal, terra fria pra ded\u00e9u, onde n\u00e3o existe uma lareira. Aqui morre-se de frio, mas basta a temperatura subir para todo mundo dizer que n\u00e3o houve inverno. Conheci um potiguar que ficava em mangas de camisa no inverno. Ele dizia: Mas eu n\u00e3o sinto frio! Depois descobri que ele queria dizer exatamente isto: Eu n\u00e3o sinto frio porque sou macho! Sentir frio \u00e9 para crian\u00e7cas, mulheres e gente velha. Valha-me Deus.<\/p>\n<p>-Voc\u00ea vai para onde, Joe?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o sei ainda. Primeiro vou dar um pulo em Sampa, comprar uns livros antigos de literatura da Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira nos sebos que tem l\u00e1. Vendem a tr\u00eas centavos a p\u00e1gina. Aqui, ningu\u00e9m l\u00ea. Quando algu\u00e9m no \u00f4nibus senta ao meu lado com um livro, \u00e9 sempre o Paulo Coelho.<\/p>\n<p>&#8211; O que voc\u00ea tem contra o Paulo Coelho?<\/p>\n<p>&#8211; Ele foi a Sele\u00e7\u00f5es do pensamento esot\u00e9rico. Ningu\u00e9m lia nada dos grandes autores, como Gurdjieff, Castaneda, Madame Blavatski, Krishnamurti. Ent\u00e3o ele apareceu com sua auto-ajuda colocando \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o do grande p\u00fablico algumas sacadas.<\/p>\n<p>&#8211; U\u00e9, mas Castaneda \u00e9 best-seller.<\/p>\n<p>&#8211; As pessoas leram um outro livro dele, n\u00e3o a obra toda, que \u00e9 em espiral. A leitura deve ser completa para a gente entender do que se trata. Paulo Coelho leu, mas diluiu. Agora \u00e9 romancista. N\u00e3o gosto.<\/p>\n<p>&#8211; Implic\u00e2ncia sua, Sinistrus,. N\u00e3o ser\u00e1 um pouco de inveja?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o sinto inveja, meu caro escritor. Sinto fome.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 o que estou dizendo.<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea n\u00e3o entendeu. Sinto fome de cultura. Sinto fome de paisagem. Por isso vim para c\u00e1. Pela paisagem. Os catarinenses acham que \u00e9 pelos seus belos olhos azuis. Estou me lixando. Sempre quis a montanha, o c\u00e9u, a lua e as \u00e1guas.<\/p>\n<p>-E agora ficar\u00e1s longe disso.<\/p>\n<p>Sinistrus me abra\u00e7ou. Estava chorando.<\/p>\n<p>&#8211; Vou-me embora, cara. Essa ilha nunca me quis.<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea vai voltar. Sei que um dia vai voltar.<\/p>\n<p>Sa\u00ed dali porque ca\u00eda a tarde e o frio tinha come\u00e7ado de novo. N\u00e3o olhei para tr\u00e1s. Sinistrus Joe assobiava Sabi\u00e1, de Tom Jobim e Chico Buarque. Bem na batida de Jo\u00e3o. O cara adora Jo\u00e3o Gilberto.<\/p>\n<p>23 de Junho de 2006<\/p>\n<p>Di\u00e1rio da Fonte<\/p>\n<p>SINISTRUS JOE E AS SURPRESAS DE PARREIRA<\/p>\n<p>N\u00e3o gosto de estat\u00edsticas, elas me assustam. Dizem que s\u00e3o criados uns 70 mil blogs por dia ou por m\u00eas, ou algo assim. Que existem n\u00e3o sei quantos milh\u00f5es de sites, que a mis\u00e9ria aumenta apesar de os 50 pa\u00edses mais pobres terem melhorado de vida e que as pesquisas apontam a vit\u00f3ria do primeiro turno, bem, voc\u00eas sabem de quem. Os n\u00fameros nos cercam e mordem os calcanhares. Como acompanhar a prolifera\u00e7\u00e3o dos conte\u00fados dispon\u00edveis na grande rede? Muito dif\u00edcil. Mas tudo que assusta n\u00e3o passa de um tigre de papel, para usar a velha met\u00e1fora de Mao sobre o imperialismo. Nas redes do monop\u00f3lio de TV, a internet \u00e9 tratada como coadjuvante ou vil\u00e3 (jamais acesso os endere\u00e7os que eles falam com uma batata na boca, o tal d\u00e1bliu d\u00e1bliu d\u00e1bliu). Na grande imprensa impressa, os blogs diretamente ligados \u00e0s reda\u00e7\u00f5es pecam ou por falta de atualiza\u00e7\u00e3p adequada ou por estarem limitados pelos h\u00e1bitos cevados em 42 anos de ditadura. Blog \u00e9 queimar navios e n\u00e3o olhar para tr\u00e1s, para n\u00e3o virar est\u00e1tua de sal. Al\u00e9m disso, um espa\u00e7o na internet s\u00f3 se consolida ao longo dos anos. \u00c9 complicado firmar o h\u00e1bito de visita e leitura com tantas op\u00e7\u00f5es. O importante \u00e9 voc\u00ea ser m\u00eddia, ou seja, tudo o que voc\u00ea sente, sonha, pensa, cria precisa estar no blog. Isso d\u00e1 credibilidade e fisga o leitor. O bom do blog, para quem \u00e9 jornalista, \u00e9 que o lead pode tranq\u00fcilamente ficar no p\u00e9 do texto. \u00c9 o que acontece na edi\u00e7\u00e3o de hoje, que tem jogo do Jap\u00e3o s\u00f3 mais embaixo.<\/p>\n<p>PATETAS &#8211; O maior perigo dos blogs \u00e9 o pensamento \u00fanico. Todos vivem na mesma situa\u00e7\u00e3o e pensam da mesma forma. Ser original no meio de tanta manifesta\u00e7\u00e3o \u00e9 mosca branca. Por isso decidi visitar novamente Sinistrus Joe, que tem acompanhado a Copa do Mundo num bar perto de onde mora. \u00c9 mais uma birosca, que fica a meio caminho das dunas que escondem seu casebre ao lado de um grande menir de pedra, numa praia escondida aqui na Ilha. Quando ele me v\u00ea se aproximando, finge que se afasta. Sinistrus adora ser esnobe.<\/p>\n<p>&#8211; E a\u00ed, Joe, a Sele\u00e7\u00e3o deslanchou no jogo contra o Jap\u00e3o?<\/p>\n<p>&#8211; Estou preocupado com a gera\u00e7\u00e3o dos patetas, respondeu ele.<\/p>\n<p>&#8211; Quem s\u00e3o os patetas, os torcedores?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, a nova gera\u00e7\u00e3o. Ando \u00e0s vezes de \u00f4nibus e n\u00e3o ag\u00fcento a meninada falando como se tivesse perdido a no\u00e7\u00e3o da l\u00edngua do pa\u00eds.<\/p>\n<p>&#8211; Isso \u00e9 g\u00edria, coisa antiga.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o \u00e9 n\u00e3o. G\u00edria \u00e9 uma concess\u00e3o da l\u00edngua culta. O que eles falam \u00e9 pior do que um patu\u00e1, s\u00e3o as ru\u00ednas do que um dia foi linguagem. \u00c9 como se a l\u00edngua nacional tivesse entrado em processo de implos\u00e3o interna.<\/p>\n<p>Achei estranha aquela maneira pomposa de Joe se manifestar. Parecia consultor de empresa.<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1s lendo auto-ajuda de neg\u00f3cios, cara?<\/p>\n<p>Ele me olhou de vi\u00e9s, quase rosnando. Odeia que o chamem de cara, ou se dirijam a ele dizendo &#8220;meu caro&#8221;.<\/p>\n<p>&#8211; A gera\u00e7\u00e3o dos patetas engata uma longa narrativa costurando as frases com a express\u00e3o e a\u00ed. Falam assim: fulano foi para l\u00e1 e a\u00ed\u00ed\u00ed voltou para c\u00e1 e a\u00ed\u00ed\u00ed eu cheguei e perguntei e a\u00ed\u00ed\u00ed n\u00f3s fomos at\u00e9 o lugar aquele e a\u00ed\u00ed\u00ed..<\/p>\n<p>FEN\u00d4MENO &#8211; Ele continuaria por horas no seu exemplo, mas eu o interrompi:<\/p>\n<p>&#8211; E a sele\u00e7\u00e3o, Joe, gostou?<\/p>\n<p>&#8211; A imprensa e os torcedores s\u00e3o todos profetas do passado. O futebol n\u00e3o cabe numa cabe\u00e7a que tenha dois olhos para ver e nenhum para enxergar. Sempre me surpreendo com o Parreira. Cansei de duvidar dele. At\u00e9 parece um sonho que eu tive.<\/p>\n<p>&#8211; Que sonho, Joe?<\/p>\n<p>&#8211; Eu estava dentro do \u00f4nibus e de repente todos os bancos foram amassados e s\u00f3 eu sobrevivi. N\u00e3o era eu que tinha morrido, era o mundo que tinha acabado. Sa\u00ed para a rua e os edif\u00edcios eram engolidos, s\u00f3 eu passeava nas ruas. Os carros explodiram e sumiram no ar, s\u00f3 eu andava por a\u00ed. Parreira a mesma coisa.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o entendi.<\/p>\n<p>&#8211; Claro, eu ainda n\u00e3o expliquei&#8230;<\/p>\n<p>Desta vez ele rosnou mesmo.<\/p>\n<p>&#8211; Se eu puder chegar ao fim da minha met\u00e1fora, agrade\u00e7o. Parreira detonou todo o entorno do Ronaldo, manteve s\u00f3 o Fen\u00f4meno. Fez o contr\u00e1rio do que todo mundo dizia. Insistiam em tirar o Ronaldo, como se fosse o rem\u00e9dio para todos os males. Pois Parreira manteve o craque e substituiu os outros. E a\u00ed\u00ed\u00ed o Ronaldo fez dois gols e poderia ter feito mais.<\/p>\n<p>Concordei. Sempre gosto de ouvir Sinistrus Joe, o cara da minha gera\u00e7\u00e3o que ficou na ilha, foi escritor, jornalista, artes\u00e3o, fot\u00f3grafo e hoje vive num puxado de madeira tosca grudado numa pedra. Tem cabelo raspado, veste-se de preto e dorme nos sagu\u00f5es das galerias e edif\u00edcios de luxo. Todos os conhecem e o toleram. Mas s\u00f3 eu pe\u00e7o que emita suas opini\u00f5es.<\/p>\n<p>SINISTRUS JOE E O FIM DE BEL\u00cdSSIMA<\/p>\n<p>Como est\u00e1 fazendo calor neste inverno, resolvi dar uma passada na casa de Sinistrus Joe, que mora ao lado de um grande menir numa praia isolada aqui na ilha. Vi que ele estava tranq\u00fcilo, espichado na sua varanda feita de areia, olhando para algum ponto entre o mar e a montanha. Perguntei o motivo de sua aparente paz, e ele respondeu que era o clima. E que inverno mesmo, desses de lareira e vinho, fazia mal para a sa\u00fade e que o bom era um veranico tempor\u00e3o. Eu queria saber o que tinha feito nos \u00faltimos dias.<\/p>\n<p>&#8211; Vi o final de Bel\u00edssima, me disse. Vi no aparelho do bar ali da vila.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o sabia que voc\u00ea via novela.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o vejo, mas todo mundo acaba vendo. Bem na hora em que voc\u00ea espicha os ossos \u00e9 que eles colocam aquelas coisas horrendas. Ent\u00e3o n\u00e3o tem como escapar.<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea achou o final surpreendente?<\/p>\n<p>&#8211; Achei. Acabamos descobrindo que todos, no fundo, eram primo-irm\u00e3o do pai do Coisa. Isso \u00e9 realmente revelador.<\/p>\n<p>&#8211; E os casais? Achou que ficou de bom tamanho?<\/p>\n<p>&#8211; Claro. O mais emocionante foi o Tony Ramos ficar com o Cemil. A dan\u00e7a imitando Zorba o grego foi de chorar. Eu quase tive um ataque de apoplexia. Em determinado momento fiquei estarrecido. \u00c9 que a gente acaba cedendo \u00e0 novela porque n\u00e3o h\u00e1 outra coisa na TV aberta, e a novela \u00e9 a coisa em si. Vemos ent\u00e3o as imagens assim meio de vi\u00e9s. Levei um susto, pois num determinado momento o Tony Ramos estava sorrindo para um cara que podia ser seu pai, mas na trama \u00e9 seu filho, e os dois dan\u00e7avam de maneira apaixonada. No momento seguinte a Verta Holtz estava na cama com um anjinho barroco. Num primeiro instante, achei que o Cemil e Tony estavam j\u00e1 na cama. Foi de dar calafrios.<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea est\u00e1 sendo injusto, Joe. O Silvio Abreu faz o maior sucesso.<\/p>\n<p>&#8211; O que encanta \u00e9 a profundidade dos di\u00e1logos. O grego Tony, que se expressa por interjei\u00e7\u00f5es e gritos de caminhoneiro, estava aboiando um avi\u00e3o quando viu sua amada, a coitada da Gloria Pires, que estava pagando o maior mico com aquela seq\u00fc\u00eancia. A\u00ed o Grego pergunta: &#8220;Voc\u00ea n\u00e3o foi embora, \u00ea?&#8221; Claro que ela deveria responder: &#8220;Fui, o que v\u00eas aqui \u00e9 um holograma, cedido pela produ\u00e7\u00e3o do Star Wars&#8221;.<\/p>\n<p>Achei que Joe estava amargo demais e tentei desviar o assunto para outros desdobramentos da novela. Perguntei sobre as demais atrizes, se estavam tamb\u00e9m pagando mico.<\/p>\n<p>&#8211; A Claudia Abreu \u00e9 realmente excepcional, mas , coitada, vive mergulhada nestas porcarias da televis\u00e3o. Deveria ser nossa estrela do cinema, se tiv\u00e9ssimos produ\u00e7\u00e3o regular de cinema.<\/p>\n<p>&#8211; E a Claudia Arraia?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o sei porque ela precisa fazer o papel de gostosa em todos os segundos da novela. Vive estuando o peito e se fresqueando para a c\u00e2mara. O que me irrita em algumas personalidades globais \u00e9 que eles acreditam mesmo que s\u00e3o de Hollywood. N\u00e3o v\u00ea aquele gordinho diretor, que tem a certeza de ser a Marilyn Monroe? Ele n\u00e3o apareceu esses tempos, de novo no Faust\u00e3o imitando Marilyn em diamantes s\u00e3o para sempre? O problema \u00e9 que a Arraia acha que est\u00e1 sempre fazendo um teste para o George Cukor.<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea n\u00e3o gosta mesmo da Globo, Joe.<\/p>\n<p>&#8211; Que nos resta? Os concorrentes s\u00e3o piores. Estamos presos, assim como os que trabalham l\u00e1 dentro. \u00c9 impressionante a jaula em que nos metemos. Gostaria que TV digital fosse para valer e eu pudesse ter uma esta\u00e7\u00e3o de TV aqui mesmo da minha pedra.<\/p>\n<p>&#8211; Teria novela na TV Joe, Joe?<\/p>\n<p>&#8211; Deus que me livre. Eu transmitiria o mar. Mas um mar sem grego.<\/p>\n<p>E abriu os bra\u00e7os em sinal de celebra\u00e7\u00e3o e rever\u00eancia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A apari\u00e7\u00e3o de Sinistrus Joe no Di\u00e1rio da Fonte teve v\u00e1rios desdobramentos. 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