{"id":897,"date":"2009-12-13T20:43:00","date_gmt":"2009-12-13T22:43:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=897"},"modified":"2009-12-21T21:56:01","modified_gmt":"2009-12-21T23:56:01","slug":"a-ronda-dos-bichos-e-o-ceu-do-verao","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/a-ronda-dos-bichos-e-o-ceu-do-verao","title":{"rendered":"A RONDA DOS BICHOS E O C\u00c9U DO VER\u00c3O"},"content":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>Os bichos imprimem o desenho dos teus h\u00e1bitos. Est\u00e3o pr\u00f3ximos demais para serem ignorados. Os predadores domesticados te cercam, os selvagens acasalados te espiam, os habitantes de paragens remotas te sobrevoam. Penas, asas, patas, focinhos, olhos fundos a te enxergar a alma. Eles est\u00e3o conosco e repartem mais do que \u00e1gua e comida. Partilham o planeta, que longe do tr\u00e1fego, sabe ser quieto, majestoso, indecifrado.<\/p>\n<p>CORUJAS &#8211; No terceiro dia de nossa estadia, uma das corujas chegou at\u00e9 a cerca e pousou, perto da varanda, dando um guincho. Era o sinal mais expl\u00edcito de sua presen\u00e7a, de seu dom\u00ednio. Segundos depois, estourou uma bomba com som de canh\u00e3o. O sujeito deu um sobressalto, mas n\u00e3o levantou v\u00f4o. Continuou firme, nos espiando. Mora com sua parceira ou parceiro no terreno baldio em frente, ao lado da planta\u00e7\u00e3o de milho, que j\u00e1 est\u00e1 meio troncha pelo calor, falta de \u00e1gua e cuidados, cercada de mato ralo impertinente. O casal faz a ronda e ataca em rasantes os grandes cachorr\u00f5es que ousam aproximar-se do ninho, feito no ch\u00e3o. Quando explodiu a bomba e Os-Grandes-Olhos continuou no local, firmemente plantado no mour\u00e3o do muro, dei meu grito de guerra, que inventei neste ver\u00e3o:<\/p>\n<p>&#8211; Viva a Marinha do Brasil!<\/p>\n<p>Dizem que \u00e9 mais uma bobagem que tirei do ba\u00fa, mas o bord\u00e3o me acompanhou por toda a virada desse ano novo. Imaginei uma escola de navega\u00e7\u00e3o em cada cidade do litoral, para massificar uma pr\u00e1tica numa civiliza\u00e7\u00e3o das \u00e1guas. Imaginei milh\u00f5es de toras de madeira de lei apreendidas pelo Ibama serem transformadas em barcos novos para pescadores e amadores e o turismo em geral. Imaginei um pa\u00eds que planeja o grande fluxo migrat\u00f3rio de volta ao litoral \u2013 pois \u00e9 de l\u00e1 que viemos, quando arranh\u00e1vamos as costas, nos dizeres do nosso primeiro historiador, Frei Vicente de Salvador (ele falava em portugueses, mas d\u00e1 no mesmo).<\/p>\n<p>\u00c9 esse o sentido da grande massa que despenca para as praias: resgatar nossas ra\u00edzes sobre as areias, a vis\u00e3o primeira do para\u00edso, longe do inferno terreal do interior. Somos \u00edndios a olhar o horizonte em busca de navios, somos soldados portugueses a saudar a Marinha, estamos na plataforma do Brasil que olha o mundo, diante do mar profundo e azul turquesa da nossa costa sem fim. Planejar essa migra\u00e7\u00e3o, com local adequado para todos, para que n\u00e3o se atroplem, n\u00e3o sejam explorados, saibam navegar, eis o meu sonho deste in\u00edcio de 2004, enquanto o casal de corujas me observava.<\/p>\n<p>GAIVOTAS, CACHORRO &#8211; Rodeando por todo o canto, a palavra gaivota, que d\u00e1 nome a avenidas, pousadas, bares e restaurante. A majestade do p\u00e1ssaro maior das nossas praias, a disputar territ\u00f3rio a\u00e9reo com urubus, bem-te-vis e picapaus. A conviver com os poucos barcos dos pescadores que restaram, no canto de algumas praias, em comunidades despossu\u00eddas de terras que a especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria pegou, afundadas nas dunas, para depois serem expulsos de l\u00e1 em nome da &#8220;preserva\u00e7\u00e3o ambiental&#8221;. Enquanto isso, postes de luz fincam-se firmes na areia movedi\u00e7a e tudo \u00e9 permitido no litoral, onde se coloca carros em cima do dorso de Netuno, o deus exangue. Mas a barb\u00e1rie fica a alguns quil\u00f4metros.<\/p>\n<p>Aqui, a vida \u00e9 outra. Acho que n\u00e3o terei a oportunidade de testemunhar um evento que deve ocorrer em breve: a visita do cocker Nick ao mar, que desde que chegou na praia, ele pressente que existe. As pessoas saem pesarosas, com os rostos ca\u00eddos e voltam radiantes, molhadas e salgadas. Ele cheira e desconfia. Algo enorme esconde-se pra l\u00e1 do horizonte, perto das montanhas, quem sabe. Mas \u00e9 cedo. Ele ainda se recupera da travessia do pa\u00eds num edredon no banco de tr\u00e1s do carro, tremendo sem parar num dia de Natal, para poder ficar agora escondido em algum canto da grama do quintal.<\/p>\n<p>Ele sonha com a noite do dia 24 de dezembro, quando em Curitiba fez de tudo, desde verter \u00e1gua em todas as plantas do hotel, e at\u00e9 mesmo cair, na manh\u00e3 seguinte, com cinco graus de temperatura m\u00ednima, em plena piscina, obrigando seus donos a uma delicada opera\u00e7\u00e3o de salvamento. A longa jornada do cocker em dire\u00e7\u00e3o ao mundo muito maior do que ele imaginava \u00e9 a saga que levou Nick para um lugar onde ele agora cheira tudo, observa tudo e j\u00e1 come\u00e7a a latir para os que passam, pois seu territ\u00f3rio come\u00e7ou a ficar firmemente demarcado.<\/p>\n<p>S\u00f3 n\u00e3o pode chegar perto das corujas, que elas n\u00e3o deixam. Nem alcan\u00e7ar as gaivotas, que est\u00e3o muito acima do que um pobre c\u00e3o pode viver ou pensar.<\/p>\n<p>ASTRONOMIA POPULAR &#8211; Enquanto isso, diante do c\u00e9u estrelado, o poeta explica para seus filhos a exist\u00eancia das improv\u00e1veis Tr\u00eas Joaninhas, uma carreirinha de estrelas apagadas que est\u00e3o perto das Tr\u00eas Marias e que, desconfio, s\u00f3 existiam porque Tia Ceci um dia nos disse que elas estavam l\u00e1. E est\u00e3o mesmo!<\/p>\n<p>A astronomia popular de Uruguaiana sobe aos c\u00e9us da ilha encantada. Ouve-se mais um tiro de canh\u00e3o:<\/p>\n<p>&#8211; Viva a Marinha do Brasil! grito, sem nenhum freio.<\/p>\n<p>Tem gente que sacode a cabe\u00e7a, achando estranho.<\/p>\n<p>Mas h\u00e1 ver\u00f5es e ver\u00f5es. Este fica na hist\u00f3ria.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os bichos imprimem o desenho dos teus h\u00e1bitos. Est\u00e3o pr\u00f3ximos demais para serem ignorados. Os predadores domesticados te cercam, os selvagens acasalados te espiam, os habitantes de paragens remotas te sobrevoam. Penas, asas, patas, focinhos, olhos fundos a te enxergar a alma. Eles est\u00e3o conosco e repartem mais do que \u00e1gua e comida. 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