{"id":901,"date":"2009-12-13T21:04:23","date_gmt":"2009-12-13T23:04:23","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=901"},"modified":"2009-12-21T22:52:44","modified_gmt":"2009-12-22T00:52:44","slug":"gestos-perdidos","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/gestos-perdidos","title":{"rendered":"GESTOS PERDIDOS"},"content":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>Os flertes come\u00e7avam com um piscar de olhos. E as mocinhas desmaiavam, coisa que n\u00e3o se v\u00ea mais, nem no cinema. O aceno do adeus com len\u00e7o ficou para tr\u00e1s, como a significar sua pr\u00f3pria despedida. N\u00e3o lembro se dizer adeus com len\u00e7o era inven\u00e7\u00e3o dos romances, das matin\u00eas ou dos document\u00e1rios sobre os imigrantes, ou se existiu mesmo.<\/p>\n<p>H\u00e1 gestos que continuamos vendo nas telas, mas nunca existiram, como a ordem muda, mas imperiosa, do sargento para seus soldados de tocaia, significando go go go. A m\u00e3o que ordena o movimento \u00e9 acompanhada por um menear na cabe\u00e7a, que imit\u00e1vamos depois que sa\u00edamos das sess\u00f5es da tarde. &#8220;Vamos! Por aqui! Sigam-me!&#8221; Quem diz isso na vida real? A prop\u00f3sito: o que \u00e9 vida real? O apertar, ao longe, da aba do chap\u00e9u com o indicador e o polegar grudados, sinal pautado por olhar significativo, era outra obra exclusiva da s\u00e9tima arte.<\/p>\n<p>J\u00e1 disseram que aprendemos a beijar com Hollywood. Aqueles beijos, em que o casal fazia pose para a c\u00e2mara deslumbrada dos nossos olhares, quando havia esse tipo de deslumbramento, s\u00f3 existiam originalmente na luminosidade da sala escura. Depois foram imitados, principalmente nas cerim\u00f4nias de casamento. Ali\u00e1s, de todo tipo de cena, as de casamento s\u00e3o as minhas favoritas. Sunrise, sunset: quem n\u00e3o cai na lona quando assiste a uni\u00e3o musical em &#8220;O violinista do telhado?&#8221; E aquele casamento em &#8220;Giant&#8221;, em que Rock Hudson recupera Liz Taylor? E a coreografada explos\u00e3o serial de &#8220;Sete noivas para sete irm\u00e3os&#8221;?<\/p>\n<p>A imagem toma emprestado da literatura e devolve para a vida. Existem manifesta\u00e7\u00f5es humanas que simplesmente definem um povo inteiro. Em &#8220;O poderoso chef\u00e3o&#8221;, o diretor Francis Ford Coppola colocou os mafiosos se dando tapinhas na cara. \u00c9 poss\u00edvel que exista mesmo esse acervo na Hist\u00f3ria, mas de Coppola em diante ningu\u00e9m se atreve a mostrar um mafioso sem que ele bata na cara de quem est\u00e1 na sua frente.<\/p>\n<p>Superioridade f\u00edsica era representada pelo bater forte da m\u00e3o no ombro. Ou ent\u00e3o no muque, pois era obrigat\u00f3rio ter muque. Med\u00edamos a resist\u00eancia do m\u00fasculo do antebra\u00e7o desde a segunda inf\u00e2ncia. Era para enfrentar os inimigos e impressionar as gurias. Quando quer\u00edamos amea\u00e7ar algu\u00e9m bat\u00edamos na pr\u00f3pria m\u00e3o, enquanto diz\u00edamos: &#8220;Te pego na sa\u00edda&#8221;. Isso poderia ser substitu\u00eddo por uma representa\u00e7\u00e3o do soco no nosso queixo. Significava que ir\u00edamos quebrar a cara de algu\u00e9m.<\/p>\n<p>Cruzar os dedos para impedir algum acontecimento, fazer figa para devolver o mau olhado, fechar o punho esquerdo em sinal de revolta, levantar o chap\u00e9u de feltro para a popula\u00e7\u00e3o em del\u00edrio: eis alguns gestos perdidos que fazem parte de outra humanidade, a que fomos um dia. De hoje, o que ficar\u00e1? Ser\u00e1 que o pula-pula dos torcedores nos est\u00e1dios ser\u00e1 visto no futuro como um sintoma grave de autismo comportamental coletivo? E as m\u00e3os ao alto nos shows, seria o sinal de que todos est\u00e3o entregues \u00e0 sanha do mau gosto e de outras mazelas nacionais?<\/p>\n<p>Mas nem tudo sai de moda. Abra\u00e7ar com apenas um bra\u00e7o o ombro de algu\u00e9m enquanto se caminha numa conversa amistosa ou carinhosa, por exemplo, \u00e9 algo que n\u00e3o some do mapa. N\u00e3o significa apenas amizade ou amor. Quer dizer que somos a extens\u00e3o das outras pessoas e fazemos parte delas como as gaivotas do mar. N\u00e3o estamos s\u00f3s quando o abra\u00e7o demonstra a comunh\u00e3o espiritual de duas mentes que acompanham o ritmo do cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o gostamos da comercializa\u00e7\u00e3o pura e simples, como as falsas campanhas da paz que usam pombas, coitadas, t\u00e3o cheias de problemas de sa\u00fade e de superpopula\u00e7\u00e3o. Ou de cria\u00e7\u00f5es publicit\u00e1rias em que as pessoas batem carinhosamente no cora\u00e7\u00e3o para dizer que o candidato est\u00e1 cheio de amor para dar. Gostamos \u00e9 quando a crian\u00e7a se expressa, criando um gesto \u00fanico. D\u00e1 vontade de peg\u00e1-la nos bra\u00e7os e levant\u00e1-la em dire\u00e7\u00e3o ao sol.<\/p>\n<p>Brilha, meu amor, que somos um s\u00f3 e ningu\u00e9m vai conseguir nos apartar do nosso destino, esse sentimento que sobrevive sob qualquer condi\u00e7\u00e3o, em qualquer tempo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cruzar os dedos para impedir algum acontecimento, fazer figa para devolver o mau olhado, fechar o punho esquerdo em sinal de revolta, levantar o chap\u00e9u de feltro para a popula\u00e7\u00e3o em del\u00edrio: eis alguns gestos perdidos que fazem parte de outra humanidade, a que fomos um dia. De hoje, o que ficar\u00e1? Ser\u00e1 que o pula-pula dos torcedores nos est\u00e1dios ser\u00e1 visto no futuro como um sintoma grave de autismo comportamental coletivo?<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[6,11],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/901"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=901"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/901\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1758,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/901\/revisions\/1758"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=901"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=901"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=901"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}