{"id":907,"date":"2009-12-13T21:07:02","date_gmt":"2009-12-13T23:07:02","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=907"},"modified":"2009-12-21T22:27:03","modified_gmt":"2009-12-22T00:27:03","slug":"a-revolucao-dos-roteiristas","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/a-revolucao-dos-roteiristas","title":{"rendered":"A REVOLU\u00c7\u00c3O DOS ROTEIRISTAS"},"content":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>H\u00e1 uma rea\u00e7\u00e3o cada vez mais intensa contra a babaquice da chamada ind\u00fastria do entretenimento, bra\u00e7o ideol\u00f3gico da era Bush. A idiotia reinante \u00e9 a retalia\u00e7\u00e3o ao que de melhor se fez nas d\u00e9cadas anteriores. Veio em forma de roteiros rob\u00f4s, clonados e multiplicados ao infinito. E da destrui\u00e7\u00e3o do trabalho autoral dos cineastas, que hoje s\u00e3o apenas funcion\u00e1rios de megaprodu\u00e7\u00f5es (pessoas como Roman Polanski e Woody Allen s\u00e3o exce\u00e7\u00f5es; mesmo que o primeiro tamb\u00e9m fa\u00e7a parte de altos esquemas, ainda consegue imprimir sua marca neles). Todos hoje podem adivinhar o desdobramento de um filme a partir dos seus momentos iniciais, mas isso n\u00e3o goza mais da mesma impunidade de anos atr\u00e1s.<\/p>\n<p>N\u00e3o que Hollywood volte aos tempos em que contratava escritores de verdade para roteirizar seus filmes em s\u00e9rie, como Faulkner, Brecht, John Fante (que jamais ficavam satisfeitos com o resultado). Hoje o roteirista \u00e9 um free-lance, que usa um esquema fatal para concretizar seu trabalho: envia o roteiro para os atores consagrados, e tamb\u00e9m diretores com passado autoral, que caem como loucos nas boas hist\u00f3rias, especialmente as que fogem da padroniza\u00e7\u00e3o e da celebra\u00e7\u00e3o dos crimes do Imp\u00e9rio. Mas h\u00e1 um perigo: n\u00e3o se pode dar bandeira, fazer oposi\u00e7\u00e3o descarada, j\u00e1 que cinema sempre foi uma atividade estrat\u00e9gica, monitorada pelo macartismo vencedor.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o se fazem grandes roteiros, que geram filmes importantes, mas o making off acaba jogando areia nos olhos de todo mundo, pois \u00e9 importante preservar o esp\u00edrito americaninho de ser, n\u00e3o dar sopa diante das amea\u00e7as da criminalidade imperial. No m\u00e1ximo, esse tipo de filme, que tem exemplos not\u00f3rios especialmente de 2002 para c\u00e1, faz den\u00fancias pesadas \u00e0s press\u00f5es que a cidadania n\u00e3o consegue mais suportar. O contraponto \u00e9 apostar na imagem original do estado americano, capaz de gerar justi\u00e7a, o que \u00e0s vezes produz um happy end (prec\u00e1rio, mas feliz).<\/p>\n<p>Syriana \u00e9 o exemplo mais forte. Roteirizado e dirigido por Stephen Gaghan, encheu-se de astros que imploraram uma ponta. Atores famosos como Matt Damon e George Clooney dizem que a grande estrela do filme \u00e9 exatamente o roteiro. \u00c9 uma den\u00fancia grave sobre os interesses e a\u00e7\u00f5es americanas no Oriente M\u00e9dio, j\u00e1 comentado aqui no DF. O \u00e1libi, no caso, foi usar as mem\u00f3rias de um ex-agente da CIA, o que deixa tudo em casa, pois a den\u00fancia viria do ventre do monstro. Mas \u00e9 incontest\u00e1vel que o filme expressa o que a oposi\u00e7\u00e3o do pa\u00eds pensa sobre os conflitos que hoje destroem o L\u00edbano e o Iraque, entre outros resultados. \u00c9, como disse no meu artigo, o petr\u00f3leo segundo a CIA, mas \u00e9 tamb\u00e9m uma forma de dizer n\u00e3o ao horror imposto pela corrup\u00e7\u00e3o e o poder de fogo.<\/p>\n<p>O Senhor das Armas, com Nicholas Cage, e roteiro de Andrew Nicol, \u00e9 uma com\u00e9dia sinistra e ir\u00f4nica, com os dois p\u00e9s no drama, que aponta os respons\u00e1veis pela matan\u00e7a em todo o mundo: os pa\u00edses membros do Conselho de Seguran\u00e7a da ONU. Antes que se diga que isso faz parte da tradi\u00e7\u00e3o da Am\u00e9rica, denunciar os excessos do Imp\u00e9rio, parece que h\u00e1 algo de novo no ar: uma exaust\u00e3o da extermina\u00e7\u00e3o em massa, que extrapola a revisita \u00e0s hist\u00f3rias da Segunda Guerra. Come\u00e7ou por a\u00ed, pelo que os alem\u00e3es fizeram, mas agora chega ao centro do horror, colocando a responsabilidade nas m\u00e3os deles mesmos, os arautos da democracia e da retid\u00e3o de car\u00e1ter.<\/p>\n<p>Quem v\u00ea e ouve Condoleeza Rice, com seus olhos de abutre, suas ma\u00e7\u00e3s salientes no rosto (o que lhe d\u00e1 o ar de uma bruxa niquelada) dizer que a atual guerra do L\u00edbano s\u00e3o as dores do parto de um novo Oriente M\u00e9dio, sabe que ela tem uma vis\u00e3o bem distorcida do que seja um parto. No lugar de gerar vida, promove a morte. Condoleeza \u00e9 o \u00e1pice do cidad\u00e3o que manipula tudo a seu favor, como fica expl\u00edcito no filme Fora de Controle, roteirizado por Chap Taylor e Michael Tolkin. A imoralidade profissional, a ansiedade, o medo de perder status, a pressa e o egoismo fazem a festa no pa\u00eds sanguin\u00e1rio, que resolveu tacar fogo no mundo.<\/p>\n<p>H\u00e1 ainda refilmagens como Sob o Dom\u00ednio do Mal (com Denzel Washington e a maior atriz do mundo hoje, Merryl Streep, em performance magistral como a senadora\/Jocasta), que clonou o cl\u00e1ssico de 1962 de John Frankenheimer, ambos feitos a partir de uma livro de Richard Condon. O novo, de 2004, foi roteirizado por Daniel Pyne e Dean Georgaris e livra a cara dos soldados no Iraque, mas n\u00e3o deixa de denunciar a guerra. \u00c9 sobre o uso do subconsciente das pessoas para impor um estado de terror na Am\u00e9rica e no resto dos pa\u00edses. Coisa que j\u00e1 aconteceu, com o t\u00edtere que governa a mando dos traficantes de armas, dos donos do petr\u00f3leo e de seus aliados nas elites asquerosas dos \u00faltimos mundos.<\/p>\n<p>O cinema americano est\u00e1 vivo, apesar de tudo. \u00c9 poss\u00edvel encontrar nas locadoras filmes desafiadores. Mesmo exibindo a bandeira estrelada em quase todas as cenas (parece que \u00e9 obrigat\u00f3rio), nos faz ter alguma esperan\u00e7a. Talvez estejamos todos fartos dessa guerra sem fim. Talvez o atual presidente caia por seus erros e que o pr\u00f3ximo seja algu\u00e9m gerado no cora\u00e7\u00e3o desse movimento de liberta\u00e7\u00e3o das velhas f\u00f3rmulas. Isso l\u00e1 \u00e9 poss\u00edvel? Sempre que a esperan\u00e7a d\u00e1 um aceno, precisamos responder. Al\u00f4, esperan\u00e7a, voc\u00ea diz al\u00f4 e eu n\u00e3o digo adeus. Cante comigo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 uma rea\u00e7\u00e3o cada vez mais intensa contra a babaquice da chamada ind\u00fastria do entretenimento, bra\u00e7o ideol\u00f3gico da era Bush. A idiotia reinante \u00e9 a retalia\u00e7\u00e3o ao que de melhor se fez nas d\u00e9cadas anteriores. Veio em forma de roteiros rob\u00f4s, clonados e multiplicados ao infinito. E da destrui\u00e7\u00e3o do trabalho autoral dos cineastas, que hoje s\u00e3o apenas funcion\u00e1rios de megaprodu\u00e7\u00f5es. 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