{"id":911,"date":"2009-12-13T22:22:59","date_gmt":"2009-12-14T00:22:59","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=911"},"modified":"2009-12-20T20:34:29","modified_gmt":"2009-12-20T22:34:29","slug":"funk-can-can-e-velhas-profissoes","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/funk-can-can-e-velhas-profissoes","title":{"rendered":"FUNK, CAN-CAN E VELHAS PROFISS\u00d5ES"},"content":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>Mirar o rabo para a multid\u00e3o, sacudindo decididamente os pa\u00edses baixos ao som do baticum funkeiro em dire\u00e7\u00e3o a uma plat\u00e9ia apartada do sexo real (se n\u00e3o fosse, n\u00e3o pagaria pela festa para ter a ilus\u00e3o do sexo dispon\u00edvel no palco) \u00e9 neg\u00f3cio para velhas profiss\u00f5es, como a prostitui\u00e7\u00e3o, a segunda mais antiga do mundo, pois a primeira (qual \u00e9?) forneceu os recursos para pagar pela primeira noitada.<\/p>\n<p>O funk ganhou status de cultura marginal de periferia, mas n\u00e3o passa do velho can-can, quando as mulheres mostravam o que existia embaixo da roupa e simulavam o ato sexual em forma de dan\u00e7a. Agora invade os bairros de classe m\u00e9dia e est\u00e1 perdendo seu car\u00e1ter mais radical, mas mant\u00e9m a ess\u00eancia: a representa\u00e7\u00e3o da censura ao sexo num pa\u00eds que finge gozar e que no fundo apenas exp\u00f5e sua nudez para que outros usufruam do prazer.<\/p>\n<p>PERVERS\u00c3O &#8211; O efeito \u00e9 devastador, mas como \u00e9 apenas um sintoma n\u00e3o pode ser perseguido pelo moralismo fundamentalista. O que deve ser confrontado \u00e9 a origem do evento: num pa\u00eds sem soberania, a popula\u00e7\u00e3o \u00e9 treinada para expor suas partes pudendas para que o mundo se conven\u00e7a que estamos de pernas abertas, \u00e9 s\u00f3 chegar e entrar.<\/p>\n<p>N\u00e3o podemos ter, nesta atual fase da ditadura, o que qualquer na\u00e7\u00e3o disp\u00f5e: mulheres protegidas por leis e costumes. Quem quer isso? O neg\u00f3cio \u00e9 faturar e, claro, fazer an\u00e1lises como a da Rede Record no programa Domingo Espetacular, que perguntava se aquilo \u00e9 pervers\u00e3o. N\u00e3o \u00e9. Pervers\u00e3o \u00e9 querer um pa\u00eds soberano.A reportagem da Record flagrou v\u00e1rios grupos de machos estrangeiros (nenhuma funkeira vinda de fora das fronteiras), como uruguaios e australianos, encantados com las chicas. \u00c9 turismo sexual, tratado como fen\u00f4meno de comportamento.<\/p>\n<p>MODA &#8211; Como virou moda, ningu\u00e9m se pergunta o que significa simular a trepada publicamente, como sempre se fez nos velhos cabar\u00e9s. A explica\u00e7\u00e3o normal \u00e9 de que tudo isso n\u00e3o tem import\u00e2ncia, que \u00e9 assim mesmo, que o importante \u00e9 se divertir, fazer exerc\u00edcio e tudo o mais. Parece que liberou geral, mas \u00e9 o contr\u00e1rio. O sexo est\u00e1 vedado para quem paga para participar do baile funk. O abombado pode se esfregar um pouco, fazer trenzinho de bunda, fingir que \u00e9 um grande comedor de puta, mas n\u00e3o passa de um infeliz. Sexo \u00e9 de foro \u00edntimo, e quando \u00e9 exposto n\u00e3o passa de mercantiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Romperam-se os limites entre o prost\u00edbulo e os clubes para a juventude, pois os negociantes do ramo descobriram que difundir a putaria \u00e9 lucro certo. Como n\u00e3o existem espa\u00e7os gratuitos de lazer e esportes, com raras exce\u00e7\u00f5es, a meninada fica confinada em lugares artificiais, sendo tonteada pela barulheira eletr\u00f4nica e pelas vozes estridentes da falta de talento.<\/p>\n<p>Falam em letras mas n\u00e3o h\u00e1 letras, j\u00e1 que n\u00e3o h\u00e1 poesia. Melodia nem se fala: \u00e9 sempre a mesma arenga. Uma das funkeiras diz que faz o que o povo gosta, que \u00e9 letra de duplo sentido e com esse expediente foi at\u00e9 Paris. Certamente foi apresentada como a manifesta\u00e7\u00e3o da brutalidade cultural do Brasil sucateado, mesmo n\u00e3o tendo nada a ver com isso, j\u00e1 que apenas aproveita as portas que lhe abrem (e as cantoras n\u00e3o est\u00e3o enquadradas na categoria mais apelativa, o que fica a cargo das dan\u00e7arinas) .<\/p>\n<p>O mundo consome nossas ru\u00ednas, devora nosso f\u00edgado. Na jequice atual do berreiro sem fim, quando aparece algu\u00e9m capaz de trinar uma melodia \u00e9 considerado g\u00eanio. Mas n\u00e3o \u00e9. Apenas se destaca num mar de absoluta mediocridade. Para termos g\u00eanios, precis\u00e1vamos confrontar a origem pol\u00edtica dessa situa\u00e7\u00e3o. Peitar o poder, que nos corrompe.<\/p>\n<p>AO ANDAR &#8211; A Grande Fam\u00edlia, da Globo, \u00e9 um sucesso e dizem que \u00e9 pelo texto enxuto, pela f\u00f3rmula, pelos grandes atores, pelo timing, montagem ou sei l\u00e1 o qu\u00ea. Acho que \u00e9 pelo andar. Notem como a personagem Marilda anda. Ela usa o salto alto para arrebitar um pouco o traseiro e fazer pular o cabelo sempre mal produzido. A Nen\u00ea tem aquele passinho ao mesmo tempo decidido e submisso. Lineu abre os p\u00e9s em dez para as duas para navegar a barriga. Tuco anda de maneira tr\u00f4pega, representa\u00e7\u00e3o da sua falta de independ\u00eancia econ\u00f4mica. Agostinho \u00e9 o pr\u00f3prio Costinha, com o corpo sendo revirado em sentido oposto ao da cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>Andar \u00e9 compor um personagem. Especialmente se o autor do andar \u00e9 um ator como Marco Nanini, Pedro Cardoso, Marieta Severo etc. Eles trabalham o povo, de onde vieram. Seriam caricaturas se s\u00f3 houvesse esfor\u00e7o de interpreta\u00e7\u00e3o. Mas h\u00e1 muito mais. Existe o passo do pa\u00eds que resiste.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O mundo consome nossas ru\u00ednas, devora nosso f\u00edgado. 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