{"id":915,"date":"2009-12-13T22:24:50","date_gmt":"2009-12-14T00:24:50","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=915"},"modified":"2009-12-21T22:52:02","modified_gmt":"2009-12-22T00:52:02","slug":"a-sindrome-do-ultimo","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/a-sindrome-do-ultimo","title":{"rendered":"A S\u00cdNDROME DO \u00daLTIMO"},"content":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>Existem solu\u00e7\u00f5es de linguagem que jamais perdem a utilidade, sendo infinitamente reproduzidas. Ainda n\u00e3o nos livramos, por exemplo, da influ\u00eancia de &#8220;O \u00faltimo dos moicanos&#8221;, t\u00edtulo do romance de James Fenimore Cooper sobre a amizade entre um \u00edndio e um branco, numa guerra do s\u00e9culo 18 na Am\u00e9rica. Talvez o motivo seja a for\u00e7a da proparox\u00edtana, amparada na \u00faltima vogal, e instaurada como lei em \u00e9pocas terminais \u2013 fim dos s\u00e9culos ou dos tempos. No mais recente apocalipse, pautado pela curiosidade sobre as profecias, &#8220;\u00faltimo&#8221; virou endemia. Um massacre refor\u00e7ado pelo famoso fim da Hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Ainda hoje, nesta primeira d\u00e9cada, quando se deveria falar em in\u00edcio de alguma coisa, sobrevive o h\u00e1bito de fechar o boteco em qualquer atividade, como se a humanidade fosse uma eterna despedida. O tom parece saudoso da grandeza \u00e9pica, mas pode ser apenas a vontade de se livrar das chatea\u00e7\u00f5es, e ir enfim para casa assistir um bom filme. S\u00f3 que os \u00faltimos grandes cineastas est\u00e3o morrendo.<\/p>\n<p>Jean-Luc Godard dizia que precisou duvidar da certeza de que tudo j\u00e1 tinha sido feito para come\u00e7ar a dirigir suas obras. \u00c9 uma esp\u00e9cie de assombra\u00e7\u00e3o. O que fazer se os \u00faltimos j\u00e1 se despediram? Ficou um tremendo vazio, apesar da quilometragem de vida pela frente. Para piorar, j\u00e1 somos craques em d\u00e9cadas perdidas, palavra que tamb\u00e9m teve sua fase. Ou ser\u00e1 que continuamos nela?<\/p>\n<p>A mo\u00e7ada custa a entender que esse \u00e9 um truque dos mais velhos. Como j\u00e1 viveram suas loucuras, os veteranos definem o fim de tudo para evitar concorr\u00eancia (e assim se recolher para o sof\u00e1 sem sentimento de culpa). Enquanto isso, os garotos ficam desesperados tentando arrebentar alguma coisa. Para qu\u00ea? Para nada. Os \u00faltimos anarquistas e revolucion\u00e1rios tamb\u00e9m j\u00e1 se foram.<\/p>\n<p>N\u00e3o se concebe a resist\u00eancia da s\u00edndrome do \u00faltimo em in\u00edcio de mil\u00eanio, outra palavra que emergiu poderosa, mas n\u00e3o por muito tempo. H\u00e1 uma exaust\u00e3o de mil\u00eanio, que perdeu a resist\u00eancia e talvez desapare\u00e7a do imagin\u00e1rio. Tentaram explorar ao m\u00e1ximo a cambalhota mortal do calend\u00e1rio, anunciada com promessas de cat\u00e1strofes definitivas.<\/p>\n<p>Anunciar de cara um fato monstruoso \u00e9 pura cria\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria, notadamente na Metamorfose, de Kafka, quando, na primeira frase, um pobre coitado descobre que virou inseto. Essa quebra de suspense tem seu charme. Foi imitado por Garcia Marques em &#8220;Cr\u00f4nica de uma morte anunciada&#8221;, express\u00e3o repetida at\u00e9 a ins\u00e2nia nas mais variadas formas.<\/p>\n<p>O planeta sofre de morte anunciada. Ser\u00e1 que chegaremos aos \u00faltimos ecologistas, coincidindo com o fim da vida humana na terra? Do jeito que vai, o \u00faltimo livro ser\u00e1 escrito para absolutamente ningu\u00e9m. Analfabetas, as tra\u00e7as cumprem seu of\u00edcio de devorar tudo, at\u00e9 a \u00faltima enciclop\u00e9dia, para que a vida possa entrar em novo ciclo.<\/p>\n<p>Seria bom se cheg\u00e1ssemos ao \u00faltimo &#8220;\u00faltimo&#8221;. Assim todos poderiam parar de se chatear e ir assistir a um filma\u00e7o, daqueles que n\u00e3o se fazem mais. O filma\u00e7o sumiu, junto com bigas romanas se estra\u00e7alhando na arena, travellings majestosos sobre multid\u00f5es de feridos, al\u00e9m de gritos de &#8220;Eu sou Spartacus&#8221;, que arrancavam l\u00e1grimas de espectadores ainda inconformados com a escravid\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Existem solu\u00e7\u00f5es de linguagem que jamais perdem a utilidade, sendo infinitamente reproduzidas. 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