{"id":919,"date":"2009-12-13T22:27:00","date_gmt":"2009-12-14T00:27:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=919"},"modified":"2009-12-21T21:59:37","modified_gmt":"2009-12-21T23:59:37","slug":"receitas-contra-o-corpo","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/receitas-contra-o-corpo","title":{"rendered":"RECEITAS CONTRA O CORPO"},"content":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>Sobra programa e reportagens sobre como devemos nos alimentar. Mudar de dieta \u00e9 o maior crime que podemos cometer contra nosso corpo. Se voc\u00ea sobreviveu tomando caf\u00e9 com p\u00e3o de manh\u00e3, arroz\/bife\/feij\u00e3o\/salada ao meio dia e sopa \u00e0 noite, n\u00e3o v\u00e1 querer virar zen-budista da alimenta\u00e7\u00e3o ou macrobi\u00f3tico, substituindo prote\u00edna por acelga, carboidrato por alpiste, macarr\u00e3o por gelatina. \u00c9 o politicamente correto do bucho. Estar\u00e1s frito se fores nessa onda.<\/p>\n<p>QUIABO &#8211; A ind\u00fastria aliment\u00edcia adora te assustar para que percas completamente a no\u00e7\u00e3o do que precisas para continuar em p\u00e9. Te imp\u00f5e coisas sem saber onde o bicho pega na tua vida di\u00e1ria, no teu pa\u00eds ou regi\u00e3o. Nada sabe da tua biografia, das tuas doen\u00e7as, de teus temores, da tua mem\u00f3ria. Mas a toda hora colocam um monte de elefantes na tua cara e te dizem: se voc\u00ea n\u00e3o correr todos os dias, se voc\u00ea n\u00e3o subir montanhas, se voc\u00ea n\u00e3o assumir teu lado j\u00f3\u00f3vem, se continuares sendo tu mesmo, vais escapar das nossas garras, por isso te horrorizamos com pessoas de avental dizendo sandices, com gordalh\u00f5es andando penosamente. Coma muita nectarina, nabo e quiabo. Devore hectolitros de suco de pena de ganso. E minta, minta muito que voc\u00ea cuida de sua alimenta\u00e7\u00e3o, porque sabemos: queres mesmo \u00e9 fazer aquela boquinha na madruga. Contrarie para ver a gastrite que vai acontecer.<\/p>\n<p>LATA &#8211; Para te encher de culpa, os programas tur\u00edsticos mostram como no Exterior se come bem e como as pessoas l\u00e1 s\u00e3o felizes. Aquele pastelzinho portugu\u00eas, aquele strudel alem\u00e3o, aquela raviolada em N\u00e1poles. Aqui, \u00e9 s\u00f3 tristeza: d\u00ea-lhe sandu\u00edche e comida de brasileiro. Pois cansei de tudo isso. Perdi a forma do meu corpo de tanta dieta que fiz (300 gramas no almo\u00e7o, farelo matinal, sopinha rala \u00e0 noite). Foi uma sanfona s\u00f3. Acabei maior do que antes. Dez anos de insist\u00eancia e chega. Uma boa goiabada com queijo depois do feij\u00e3o com ling\u00fci\u00e7a \u00e0s segundas-feiras, um cafeza\u00e7o com queijo branco de manh\u00e3, um churrasco de vez em quando, uma cuca caseira antes do anoitecer chuvoso. Agora que est\u00e1 tudo perdido, tento voltar a mim mesmo.<\/p>\n<p>L\u00e1 em casa, em Uruguaiana, o caf\u00e9 da manh\u00e3 era esplendoroso. Nada tinha a ver com os breakfest de hot\u00e9is (que adoro) de hoje, mas era aquele p\u00e3ozinho honesto com leite idem e caf\u00e9 quase forte. Ao meio dia, o guisadinho com pur\u00ea e sala de alface (para que mais?) e tomate. As quatro da tarde, mais caf\u00e9, junto com a gurizada da vizinhan\u00e7a.<\/p>\n<p>E \u00e0 noite, qualquer coisa boa para a gente cruzar o que faltava da jornada. Sempre havia a hora do t\u00f4-com-fome, em que bat\u00edamos a lata de p\u00e3o a\u00ed pelas onze. Mas a lata fazia barulho e bastava destampar a bicha para algum adulto acordar e dar o flagra. O melhor era a bolacha Argentina, de massa branqu\u00edssima e que ficava melhor a cada dia. Bolacha mesmo, daquelas batutas, com miolo inesquec\u00edvel. Ali\u00e1s, os argentinos sempre foram bambas em comida. Duraznos em calda La Dona, caramelos de leche, carne rec\u00e9m abatida, tudo era festa com los hermanos. V\u00ednhamos de Libres carregados.<\/p>\n<p>FORTE &#8211; Quando hoje comentam minha apar\u00eancia (que \u00e9 a maior grosseria que pode ser feita para uma pessoa) , gosto de lembrar que, quando tinha a\u00ed uns 70 quilos, ningu\u00e9m elogiava, todo mundo dizia: que horror, est\u00e1s doente, n\u00e3o comes. Mas sempre tive, como dizia meu pai, \u00e1cido de bateria no est\u00f4mago. Nesta altura do campeonato, quase completando 57 anos, o tal \u00e1cido faz falta. Gostaria de digerir mais para enfrentar os outros. Ei, como est\u00e1s forte. \u00c9 verdade, t\u00e3o forte que te darei agora mesmo uma bolacha nessa cara lambida.<\/p>\n<p>Comentar a apar\u00eancia \u00e9 exercer a m\u00e1xima: todo elogio traz embutido um esculacho. Est\u00e1s bem, dizem, est\u00e1s bem. E te olham com pena. Bleargh. A apar\u00eancia, por n\u00e3o ser notada por quem aparece, deve ser de foro \u00edntimo, e n\u00e3o propriedade alheia. Olhe nos olhos. \u00c9 l\u00e1 que pessoa se encontra. S\u00f3 que vivemos na barb\u00e1rie das superf\u00edcies e n\u00e3o na civiliza\u00e7\u00e3o dos mergulhos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A apar\u00eancia, por n\u00e3o ser notada por quem aparece, deve ser de foro \u00edntimo, e n\u00e3o propriedade alheia. Olhe nos olhos. \u00c9 l\u00e1 que pessoa se encontra. 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