{"id":92,"date":"2005-05-13T21:31:11","date_gmt":"2005-05-13T23:31:11","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=92"},"modified":"2011-03-18T01:28:14","modified_gmt":"2011-03-18T01:28:14","slug":"a-casa-do-pescador","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/a-casa-do-pescador","title":{"rendered":"A CASA DO PESCADOR"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>A casa que explodiu em Uruguaiana \u00e0s nove e meia da noite de quarta-feira, 30, \u00e9 exatamente a casa que um dia pertenceu aos meus pais. Pelas informa\u00e7\u00f5es que tardiamente ouvi , o estoque de fogos situava-se precisamente no quarto deles. A brutal coincid\u00eancia despertou-me do longo distanciamento em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 minha cidade, um ex\u00edlio pessoal que vem desde 1981, quando vi meu pai pela \u00faltima vez.<\/p>\n<p>Ele era o Seu Ortiz, de todos conhecido, pelo carisma pessoal que eu gostaria de ter herdado, e pela maneira franca de falar. Na Rodovi\u00e1ria, antes de eu partir para sempre do seu conv\u00edvio , abra\u00e7ou-me fortemente &#8211; o que nunca foi seu h\u00e1bito &#8211; e de maneira demorada. Esse abra\u00e7o ainda est\u00e1 comigo e por isso talvez, n\u00e3o voltei l\u00e1, para n\u00e3o passar pela dor de n\u00e3o v\u00ea-lo novamente.<\/p>\n<p><img src=\"http:\/\/consciencia.org\/neiduclos\/imagens\/fotos\/peixe.jpg\" border=\"0\" alt=\"PEIXE\" align=\"left\" \/>V\u00ea-lo no fim da tarde, sentado em frente da casa, na cal\u00e7ada que agora \u00e9 ru\u00edna. Para entender direito, \u00e9 preciso um pouco de geografia urbana. A casa ficava nos fundos de uma garagem &#8211; a mesma que aparece agora bombardeada nas fotos. Uma porta ao lado dessa garagem dava para um corredor estreito, que desembocava numa sala, que continuava numa copa, que ficava ao lado de uma cozinha, que antecedia mais um corredor, que dava acesso aos quartos. Na \u00faltima pe\u00e7a, situava-se a minha mob\u00edlia, que era a mesma desde os meus tr\u00eas anos de idade e tinha vindo de uma outra casa, a da minha inf\u00e2ncia.<\/p>\n<p>A garagem era outra hist\u00f3ria. Dava direto na cal\u00e7ada e abrigou por muitos anos a Casa do Pescador, sonho que meu pai um dia realizou. Pescador de carteirinha, ele ensinou os filhos as durezas do mato, a necessidade de se virar por conta pr\u00f3pria, o valor da iniciativa. Nos acampamentos, testava nossa bravura. Um dia deixou um trinta e oito na minha frente, em cima de uma mesa tosca improvisada e avisou: &#8220;Vou at\u00e9 a cidade. Se algu\u00e9m aparecer, manda bala.&#8221; Lembro que fiquei horas olhando o rev\u00f3lver, sem coragem de toc\u00e1-lo. Quando voltou, vendo que tudo estava em ordem, riu satisfeito. E comentava, exagerado:<\/p>\n<p>-O guri, sozinho, deu conta do recado.<\/p>\n<p>A Casa do Pescador foi minha primeira ocupa\u00e7\u00e3o profissional. Atendia o balc\u00e3o, desde os 14 anos, vendendo, primeiro, anz\u00f3is, cani\u00e7os, redes e linhas. Mais tarde, por for\u00e7a do c\u00e2mbio, de tudo: caf\u00e9 sol\u00favel, garrafa t\u00e9rmica, tesouras, etc. Com o dinheiro da loja, ele conseguiu comprar a casa do fundos. O ponto vingou, encerrando assim a fase terr\u00edvel dos alugu\u00e9is que tinha nos atormentado por alguns anos. Esse foi um dos seus maiores orgulhos: voltar a ter uma casa pr\u00f3pria, por for\u00e7a de uma id\u00e9ia, de um empreendimento bem sucedido.<\/p>\n<p>Mas o c\u00e2mbio um dia virou e ele acabou fechando as portas. Alugou a garagem e ficou vivendo de aposentadoria. Depois de morrer, em 1985, seu vizinho e compadre, o alfaiate Paulo Cezimbra, resolveu fazer uma homenagem . Fez da sua alfaiataria, que ficava no im\u00f3vel ao lado, uma outra Casa do Pescador, a mesma que desabou no dia 30, matando sua esposa, Dona Tita, comadre dos meus pais. Do cogumelo de fogo, safou-se Ubirajara Raffo Constant, um dos poetas de Uruguaiana que teve a coragem de ficar. Sobrevivente, \u00e9 dele a frase lapidar do epis\u00f3dio: &#8220;Agrade\u00e7o a Jesus Cristo e a meu pai , que me criou macho&#8221;. O pai dele foi amigo e vizinho de meu pai.<\/p>\n<p>Outra frase importante \u00e9 a do pr\u00f3prio Cezimbra, companheiro de pescarias que enviuvou precocemente e que hoje reparte a dor com seus filhos:<\/p>\n<p>-Esta \u00e9 uma cidade sem lei.<\/p>\n<p>Fiquei sabendo que o ponto onde meu pai refez sua vida hoje \u00e9 chamado de Baixada Fluminense. Toda a fronteira \u00e9 a vitrine de um pa\u00eds. N\u00e3o consigo entender como \u00e9 poss\u00edvel transformar a parte comercial de uma cidade modelo, que foi idealizada por Domingos Jos\u00e9 de Almeida, o Ministro da Rep\u00fablica do Piratini, na Guerra dos Farrapos, situada estrategicamente bem no miolo do Mercosul, numa esp\u00e9cie de mercado a c\u00e9u aberto, exposto ao caos e \u00e0 trag\u00e9dia. A casa tinha sido vendida, depois da morte do meu pai. Virou dep\u00f3sito de fogos de artif\u00edcio, transformou-se em calamidade p\u00fablica.<\/p>\n<p>Ouvi de meu irm\u00e3o a pergunta:<\/p>\n<p>-Que sinal foi esse? Se voc\u00ea tiver uma pista, me ligue.<\/p>\n<p><img src=\"http:\/\/consciencia.org\/neiduclos\/imagens\/fotos\/ortizepeixe.jpg\" border=\"0\" alt=\"Pescaria\" align=\"right\" \/>Talvez nossa heran\u00e7a espiritual, aquilo que nos foi legado durante toda uma vida, esteja abandonada, maltratada, pisada. Talvez nosso passado &#8211; do qual afastei-me pela dor de ter perdido meus pais &#8211; tenha dado um aviso. Por que lutaram tanto nossos pais, em tantas d\u00e9cadas de vida brasileira? O que restou de tudo o que eles constru\u00edram, al\u00e9m de carne, sangue e sonho? O que diz essa mem\u00f3ria que, inconformada, explode em hor\u00e1rio nobre, para todo o Pa\u00eds, como se quisesse ralhar conosco? O que impede Uruguaiana de cumprir totalmente sua voca\u00e7\u00e3o comercial e empreendedora, a mesma que alimenta seus filhos e atrai gente de toda parte? Por que aquele quarteir\u00e3o, que gerou tantos recursos, n\u00e3o foi remodelado, n\u00e3o cresceu, n\u00e3o ficou mais adequado \u00e0 grande demanda de compradores da Argentina e do Uruguai? Por que casas, cal\u00e7adas e ruas permaneceram id\u00eanticas tantos anos?<\/p>\n<p>A explos\u00e3o da casa paterna e dos pr\u00e9dios vizinhos nos obriga a fazer mais perguntas. Qual cen\u00e1rio a riqueza do Mercosul vai gerar a partir de agora? Que tipo de empres\u00e1rio, de consumidor, de autoridade p\u00fablica surgir\u00e1 desses escombros?<\/p>\n<p>O estrondo ouviu-se a dois mil quil\u00f4metros. Na sexta-feira, dia 2, eu estava sentado na sala, rec\u00e9m refeito de uma conjuntivite al\u00e9rgica e portanto, apto a voltar ao notici\u00e1rio. Abri o jornal. A Casa do Pescador tinha explodido na virada de dezembro. O quadro de Cristo voou da parede e foi cair nos bra\u00e7os do poeta. Quem mais morreu debaixo de toda aquela pedra?<\/p>\n<p>Nei Ducl\u00f3s<br \/>\n<em>3 de dezembro de 1994 <\/em><\/p>\n<div><img src=\"http:\/\/consciencia.org\/neiduclos\/imagens\/fotos\/ortiz.jpg\" border=\"0\" alt=\"seu Ortiz\" \/><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ele era o Seu Ortiz, de todos conhecido, pelo carisma pessoal que eu gostaria de ter herdado, e pela maneira franca de falar. 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