{"id":925,"date":"2009-12-13T22:29:48","date_gmt":"2009-12-14T00:29:48","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/o-que-e-o-rio-grande-do-sul"},"modified":"2009-12-21T11:06:28","modified_gmt":"2009-12-21T13:06:28","slug":"o-que-e-o-rio-grande-do-sul","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/o-que-e-o-rio-grande-do-sul","title":{"rendered":"O QUE \u00c9 O RIO GRANDE DO SUL?"},"content":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>Parece ser imposs\u00edvel imaginar o Rio Grande do Sul fora dos lugares comuns. Todos falam a mesma coisa e esquecem o principal. Agora vem o Jabor dizer que no lugar de coqueiros o Rio Grande tem pinheiros, que \u00e9 uma \u00e1rvore t\u00edpica do Paran\u00e1. \u00c9 como eu digo: para quem n\u00e3o \u00e9 de l\u00e1, tudo abaixo do rio Pinheiros \u00e9 Porto Alegre. Jabor tamb\u00e9m diz que temos frio e vento e n\u00e3o calor. N\u00e3o h\u00e1 lugar mais quente do que o Rio Grande do Sul no ver\u00e3o, que al\u00e9m disso possui 700 quil\u00f4metros de praia. Ent\u00e3o como \u00e9 que fica?<\/p>\n<p>EUROPINHA &#8211; A frescura mais recorrente sobre o estado onde nasci e me criei \u00e9 que ele \u00e9 uma esp\u00e9cie de Europa em miniatura. Como ningu\u00e9m quer ser brasileiro e todos, absolutamente todos, possuem \u201csangue\u201d de europeus, russos ou sei l\u00e1 quem mais, tudo o que o Brasil possui teria sido feito por povos fora daqui. Vi recentemente uma propaganda colocando o m\u00e9rito do desenvolvimento de S\u00e3o Paulo nos italianos. Ali\u00e1s, em S\u00e3o Paulo sobra italiano. Todos possuem dupla cidadania, ou seja, s\u00e3o italianos de fato. Quem construiu S\u00e3o Paulo foram os brasileiros, e nessa categoria incluem-se os que se acham europeus ou asi\u00e1ticos. No Rio Grande do Sul a mesma coisa: vasta popula\u00e7\u00e3o negra e mesti\u00e7a, j\u00e1 tendo inclusive um governador negro (Alceu Collares), aquele \u00e9 um estado feito pela m\u00e3o xucra do Brasil. M\u00e3o que acolhe os estrangeiros e lhes d\u00e1 guarida, e que constr\u00f3i a riqueza do Estado, mas dessa riqueza n\u00e3o compartilha como deveria. Pois o m\u00e9rito do fazer fica fora da sua al\u00e7ada. Como s\u00f3 alem\u00e3es e italianos s\u00e3o operosos (e s\u00f3 eles existem, especialmente nas materinhas da televis\u00e3o, que s\u00f3 abordam esse aspecto do Rio Grande do Sul, mostrando a minoria loura como se fosse toda a popula\u00e7\u00e3o ga\u00facha), o que sobra para os brasileiros \u00e9 a fama de vagabundos, p\u00e1rias, fracassados. O Rio Grande do Sul \u00e9 composto basicamente de descendentes de ind\u00edgenas, misturados com negros e brancos. A minoria loura, que tinha suas pr\u00f3prias escolas, num gueto horroso at\u00e9 a segunda guerra mundial, levou um tranco de Getulio Vargas, que acabou com o pangermanismo e as escolas fascistas. Colocou tudo nos devidos eixos, bem brasileiros.<\/p>\n<p>RA\u00c7A &#8211; Um dia um padre metido a doutor em genealogia foi visitar Getulio e se oferecer para fazer a \u00e1rvore geneal\u00f3gica do novo presidente. \u201cN\u00e3o fa\u00e7a isso\u201d, advertiu Getulio. \u201cNo Brasil, toda raiz familiar acaba na senzala ou na aldeia ind\u00edgena.\u201d E soltou uma gargalhada. O especialista saiu ressabiado. Tinha levado uma li\u00e7\u00e3o e n\u00e3o sabemos se entendeu o recado: o de que pertencemos ao que Gilberto Freyre definiu como uma meta-ra\u00e7a. Como o ser humano n\u00e3o \u00e9 cavalo e n\u00e3o pode portanto ser dividido entre asi\u00e1ticos, caucasianos e hisp\u00e2nicos; como somos todos seres culturais e n\u00e3o raciais, nossa identidade vem do gesto, do comportamento, da entona\u00e7\u00e3o, da forma\u00e7\u00e3o. Jamais do \u201csangue\u201d. Sangue-bom \u00e9 express\u00e3o nazista. Outro equivoco \u00e9 enfocar o ga\u00facho fantasiado pelos CTGs como se fosse o ga\u00facho autentico. Nunca se aborda o ga\u00facho urbano, o da periferia ou o verdadeiro ga\u00facho rural. Este, gosta de m\u00fasicas como a guar\u00e2nia, a m\u00fasica sertaneja, o chamame argentino. N\u00e3o fica apenas cantando gauchadas. No Fant\u00e1stico, uma saraivada de asneiras foram veiculadas sobre o que cada estado acha do outro. O ga\u00facho por exemplo, se acharia \u201cmacho\u201d, mas os outros o acham \u201cmachista\u201d. E a\u00ed aparece um povo-fala de algu\u00e9m de Porto Alegre dizendo: \u201c\u00c9, eles n\u00e3o cuidam das mulheres deles.\u201d Tipo de mat\u00e9ria feita pra refor\u00e7ar preconceito. Com tanta mulher no Rio Grande do Sul, como pode uma popula\u00e7\u00e3o inteira se achar macho? A parcela homossexual da popula\u00e7\u00e3o no Estado tamb\u00e9m n\u00e3o pode ser enquadrada nesse tipo de r\u00f3tulo. Sobra o qu\u00ea? Os amorosos pais de fam\u00edlia, as crian\u00e7as, os idosos. Todos machos, machistas? D\u00e1 para entender o alcance da besteira?<\/p>\n<p>DIVERSIDADE &#8211; O Rio Grande do Sul, como o resto do Brasil, n\u00e3o \u00e9 para amadores, como diria Tom Jobim. A criatura mais internacional e anti-machista que conheci chama-se Caio Fernando Abreu, de Santiago do Boqueir\u00e3o, cidade situada bem no miolo do Rio Grande. Descendente de mexicanos, italianos, \u00edndios e portugueses, jamais me senti outra coisa do que brasileiro. O gauchismo, da maneira como \u00e9 colocado por essa inven\u00e7\u00e3o dos anos 50, os CTGs, \u00e9 algo discut\u00edvel. \u00c9 um movimento folcl\u00f3rico importante, mas n\u00e3o serve para definir todo o ethos do Estado. Mario Quintana se intitulava riograndese, jamais ga\u00facho. Quem \u00e9 de l\u00e1, tem o direito \u00e0 diversidade. Que o Brasil saiba disso e o Jabor pense um pouco antes de escrever sobre os ga\u00fachos. N\u00e3o somos \u201cdiferentes\u201d do resto do Brasil: somos exatamente iguais, j\u00e1 que somos brasileiros. Nossa diversidade interna, como em qualquer outro Estado, precisa ser vista e entendida.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A frescura mais recorrente sobre o estado onde nasci e me criei \u00e9 que ele \u00e9 uma esp\u00e9cie de Europa em miniatura. 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