{"id":928,"date":"2009-12-13T22:32:05","date_gmt":"2009-12-14T00:32:05","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=928"},"modified":"2009-12-21T22:04:59","modified_gmt":"2009-12-22T00:04:59","slug":"acaso-coincidencia-e-narrativa","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/acaso-coincidencia-e-narrativa","title":{"rendered":"ACASO, COINCID\u00caNCIA E NARRATIVA"},"content":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>Por pura coincid\u00eancia (ou seriam os deuses do Acaso?) vi dois filmes seguidos sobre o mesm\u00edssimo tema, apesar de, nos cr\u00e9ditos e no Google, n\u00e3o existir ningu\u00e9m que tenha falado que haja liga\u00e7\u00e3o entre eles. Um \u00e9 A Ponte de S\u00e3o Lu\u00eds del Rey e outro Eterno Amor. Cada um \u00e9 baseado num autor diferente. O primeiro, no ganhador do Pulitzer Thornton Wilder, que lan\u00e7ou seu livro em 1927. E o outro no livro de S\u00e9bastien Japrisot. O argumento \u00e9 id\u00eantico: cinco pessoas condenadas se encontram juntos no mesmo lugar para morrer. Quem s\u00e3o elas e por que est\u00e3o l\u00e1? pergunta o narrador\/investigador da Ponte de S\u00e3o Luis Rey, um padre que est\u00e1 sendo julgado pela Inquisi\u00e7\u00e3o. Quem s\u00e3o essas pessoas e ser\u00e1 que uma delas sobreviveu? pergunta a narradora\/investigadora de Eterno Amor. Destino \u00e9 a chave para decifrar a charada. A trama \u00e9 a busca de respostas, que surgem a partir do resgate de cada uma das cinco vidas.<\/p>\n<p>TRINCO &#8211; O que \u00e9 uma coincid\u00eancia? Voc\u00ea coloca a m\u00e3o no trinco e sente que a porta tem vida pr\u00f3pria. Ela est\u00e1 se abrindo praticamente sozinha, impulsionada por uma for\u00e7a fora de voc\u00ea. \u00c9 que no mesm\u00edssimo instante, algu\u00e9m colocou tamb\u00e9m a m\u00e3o no trinco, do outro lado da porta e as duas pessoas se v\u00eaem uma diante da outra, a se perguntar: porque ela teve a mesma necessidade, a mesma id\u00e9ia e o mesmo impulso no mesmo exato momento? Bem, isso tem que acontecer de alguma forma, diz o Calculador de Probabilidades, que nada mais \u00e9 do que o Inquisidor Cient\u00edfico Anti-Acaso. Magia, sinal, destino, dir\u00e1 o Esot\u00e9rico, que nada mais \u00e9 do que o Procurador de Coincid\u00eancias Reveladoras. A coincid\u00eancia \u00e9 isso mesmo: a porta entre os mundos, quando o caos encontra um ponto em comum e, a partir da\u00ed, uma sa\u00edda. Foi Deus que decidiu punir as cinco pessoas que ca\u00edram da ponte? O noivo da mulher que vai atr\u00e1s de respostas est\u00e1 realmente vivo? Por que ele deveria sobreviver e os outros, morrer? Por que as cinco pessoas, de vidas t\u00e3o distintas, estavam juntas naquele lugar?<\/p>\n<p>FRAN\u00c7A &#8211; Eterno amor foi incendiado pela cr\u00edtica brasileira, a Demolidora Genocida. Por uma simples raz\u00e3o: o diretor, Jean-Pierre Jeunet, repetiu a dose do seu mega-sucesso Am\u00e9lie Poulin, ao escolher a atriz Audrey Tautou e optar tamb\u00e9m por um filme quase todo narrado. \u00c9 o seguinte: o cara pegou todo mundo de surpresa com um filme maravilhoso, encantador, um anti-blockbuster total, feito de emo\u00e7\u00e3o, amadurecimento, poesia, tudo regado com a m\u00fasica (sumida) e essa l\u00edngua sem igual que \u00e9 o franc\u00eas. A\u00ed as massas acorreram ao cinema. A cr\u00edtica brasileira ficou mordida. O cara estava fazendo muito sucesso. Esperou o passo seguinte.<\/p>\n<p>OBRA &#8211; O sujeito repetiu a dose, quer fazer o mesmo sucesso, repetiu-se? \u00d3dio em cima dele. E essa nega\u00e7\u00e3o n\u00e3o passa de uma bobagem. Jeunet \u00e9 um autor com uma obra, tem o direito de fazer uma seq\u00fc\u00eancia de filmes do seu jeito, como acontece com todos os grande cineastas. Era s\u00f3 o que faltava: os sem-no\u00e7\u00e3o quererem ensinar cineasta a fazer filme direito! Eterno amor \u00e9 magn\u00edfico, inacredit\u00e1vel de t\u00e3o bom. Tem performances estupendas, desde Audrey at\u00e9 a ponta feita por Jodie Foster. S\u00f3 vendo para crer.<\/p>\n<p>CAOS &#8211; Em a Ponte, at\u00e9 que o canastr\u00e3o Robert de Niro est\u00e1 bem, talvez porque fa\u00e7a um arcebispo histri\u00f4nico, que \u00e9 bem do seu feitio. Mas l\u00e1 est\u00e3o Kathy Bates, arrasadora como sempre, e Harvey Keitel, um ator did\u00e1tico, que descreve seus personagens enquanto atua. O filme \u00e9 de Mary McGuckian e parece confuso no in\u00edcio, dif\u00edcil de entrar nele, pois n\u00e3o sabemos as inten\u00e7\u00f5es dos autores. Mas a id\u00e9ia \u00e9 essa mesma: ao resgatar a vida das pessoas que ca\u00edram da ponte, o narrador pontua um tribunal com sua narra\u00e7\u00e3o fragmentada, ca\u00f3tica. Aos poucos, a hist\u00f3ria vai se afunilando at\u00e9 fazer sentido completamente. O padre queria saber os des\u00edgnios de Deus no epis\u00f3dio, para refor\u00e7ar sua f\u00e9; a noiva queria saber se o noivo estava vivo, para continuar vivendo.<\/p>\n<p>N\u00d3 &#8211; A presen\u00e7a de cinco pessoas diferentes no mesmo local e hora \u00e9 o ponto nodal de narrativas que se desdobram ao infinito quando v\u00e3o para o passado, e resultam numa s\u00edntese no desfecho. Foi o acaso, a coincid\u00eancia que decidiu a parada, ou h\u00e1 algo maior e mais complicado por tr\u00e1s de tanto mist\u00e9rio?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por pura coincid\u00eancia (ou seriam os deuses do Acaso?) vi dois filmes seguidos sobre o mesm\u00edssimo tema, apesar de, nos cr\u00e9ditos e no Google, n\u00e3o existir ningu\u00e9m que tenha falado que haja liga\u00e7\u00e3o entre eles. Um \u00e9 A Ponte de S\u00e3o Lu\u00eds del Rey e outro Eterno Amor. Cada um \u00e9 baseado num autor diferente. O primeiro, no ganhador do Pulitzer Thornton Wilder, que lan\u00e7ou seu livro em 1927. E o outro no livro de S\u00e9bastien Japrisot. O argumento \u00e9 id\u00eantico: cinco pessoas condenadas se encontram juntos no mesmo lugar para morrer. Quem s\u00e3o elas e por que est\u00e3o l\u00e1? pergunta o narrador\/investigador da Ponte de S\u00e3o Luis Rey, um padre que est\u00e1 sendo julgado pela Inquisi\u00e7\u00e3o. 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