{"id":930,"date":"2009-12-13T22:32:49","date_gmt":"2009-12-14T00:32:49","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=930"},"modified":"2009-12-21T21:44:19","modified_gmt":"2009-12-21T23:44:19","slug":"a-qualidade-dos-conterraneos","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/a-qualidade-dos-conterraneos","title":{"rendered":"A QUALIDADE DOS CONTERR\u00c2NEOS"},"content":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>Fa\u00e7o parte de uma gera\u00e7\u00e3o de pessoas gentis, formada na refrega dura da vida estudantil onde n\u00e3o havia colher de ch\u00e1, onde bastava tomar bomba numa s\u00f3 mat\u00e9ria para repetir de ano, e se repetisse duas vezes, era convidado a deixar a escola. Meus pares s\u00e3o pessoas como Fernando Pereira da Silva Filho, Carlos Alberto Martins Bastos, Solon Sastre, Rubens Lenar G\u00fcez, Gilberto Duro Gick, Lino Antonio Ulharuso, Vicente Torre, Luiz Carlos Etcheverria, Miguel Ramos, entre tantos outros. Todos, claro, de Uruguaiana.<\/p>\n<p>O TREM DEMOCR\u00c1TICO &#8211; No seu belo best-seller, que tem o nome de Como \u00e9 longe Uruguaiana, meu amigo (e colega de aula do meu irm\u00e3o Luiz Carlos) Fernando Pereira da Silva Filho me envia um exemplar onde revela seu texto limpo, cheio de detalhes, que mistura hist\u00f3ria familiar com a hist\u00f3ria da cidade. Fernando resgata, entre v\u00e1rios eventos maravilhosos, uma viagem de trem, esse transporte que foi sucateado criminosamente pelo regime que ainda est\u00e1 no poder, o instaurado em 1964.<\/p>\n<p>O hoje Dr. Fernando, dentista renomado, filho da grande amiga da minha m\u00e3e, Dona Leda, sua colega de trabalho no Centro de Sa\u00fade, d\u00e1 um banho de mem\u00f3ria e cria\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria, ao contar cada curva daquela estrada inesquec\u00edvel, cada tipo que viajava naqueles trens puxados por uma esfor\u00e7ada Maria Fuma\u00e7a, todas as perip\u00e9cias de viagens que marcaram vidas, pois somos dos confins do Brasil, ou melhor, do seu in\u00edcio, e sa\u00edamos \u00e0s cinco da manh\u00e3 para chegar, com sorte, a Porto Alegre, \u00e0s sete da manh\u00e3 seguinte.<\/p>\n<p>Chega ao requinte de descrever o vag\u00e3o restaurante, esse luxo que n\u00e3o existe mais nas viagens brasileiras, onde havia confraterniza\u00e7\u00e3o, alegria e conv\u00edvios definitivos. Fernando descreve o cuidado que todos deviam ter ao tentar tomar caf\u00e9 enquanto o trem sacudia, a distribui\u00e7\u00e3o para o vizinho do pacote de bolacha Maria e a presen\u00e7a fulgurante do chefe do trem. Como diz Fernando, a \u201cautoridade m\u00e1xima da composi\u00e7\u00e3o, com poderes de mando irrestritos dentro de todo aquele territ\u00f3rio, que percorria vag\u00f5es, vestindo sua farda azul, com algumas ins\u00edgnias e bot\u00f5es dourados bem polidos e a cabe\u00e7a coberta por um indefect\u00edvel quepe da mesma cor\u201d.<\/p>\n<p>Fernando tem um estilo direto, saboroso, que recria cenas aparentemente banais, que \u00e9 o segredo de todo escritor de verdade. Sabemos o quanto custa chegar a esse resultado, sem pretens\u00f5es, que torna-se po\u00e9tico sem jamais distrair-se da narra\u00e7\u00e3o. Sua hist\u00f3ria corre pela linha como uma composi\u00e7\u00e3o que nos carrega para longe, para a alegria das descobertas de um tempo que ainda est\u00e1 conosco, morando como um parente pr\u00f3ximo, e amado porque jamais superado na sua grandeza.<\/p>\n<p>DESTILARIA &#8211; Perto da minha casa morava, e ainda mora, a grande fam\u00edlia dos Etcheverria. O patriarca era o primeiro funcion\u00e1rio da Destilaria, marco da introdu\u00e7\u00e3o do petr\u00f3leo no Brasil. Pois a primeira empresa que cuidou do petr\u00f3leo em territ\u00f3rio brasileiro foi a que \u00e9 hoje a Ipiranga. Um grupo de empres\u00e1rios come\u00e7ou a importar \u00f3leo cru de Buenos Aires e a fazer o refino. Mais tarde, com as mudan\u00e7as da legisla\u00e7\u00e3o e da pol\u00edtica, e devido a uma estrat\u00e9gia com mais chances de sucesso, a empresa transferiu-se para Rio Grande, onde hoje tem sua sede. Luiz Carlos Etcheverria era um dos amigos daquela rua. Muito magro, com cal\u00e7\u00f5es at\u00e9 os joelhos, era um inventor de palavras. Tinha mais de 15 irm\u00e3os. Hoje ele \u00e9 professor aposentado e reparte conosco a gl\u00f3ria de ter fundado o Esporte Clube Guarani, um time de rua que tem mais de 40 anos. A duas quadras, morava (numa casa que continua com sua fam\u00edlia) o meu amigo Cabeto Bastos, o mais elegante, culto e gentil exemplar desta gera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ele faz parte de uma das fam\u00edlias, por muitas d\u00e9cadas, propriet\u00e1rias do Grupo Ipiranga. \u00cdamos ao col\u00e9gio Romaguera Correa no mesmo passo. Us\u00e1vamos avental branco, um grande tope no pesco\u00e7o, com nossas lancheiras a tiracolo. Ele quase caiu para tr\u00e1s quando o presenteei com um convite de formatura do pr\u00e9-prim\u00e1rio. \u201cComo conseguiste guardar isso tanto tempo?\u201d perguntou. Eu n\u00e3o soube responder.<\/p>\n<p>SENTINELA &#8211; Na minha recente viagem \u00e0 cidade, tive a felicidade de encontrar no tradicional Hotel Gl\u00f3ria o S\u00f3lon Sastre, um apaixonado pela obra de Fulvio Penacchi, o maior pintor do Grupo Santa Helena e que tem suas obras primas na catedral Santana da nossa cidade. Comecei ent\u00e3o pensar nas pessoas daqueles idos dos anos 50 e 60 e descobri que compartilhamos a mesma forma\u00e7\u00e3o ao mesmo tempo r\u00edgida e amorosa dos nossos pais, do ensino estimulante das escolas p\u00fablicas e privadas, do debate aberto e franco das id\u00e9ias, que jamais deixaram quaisquer resqu\u00edcios de inimizade, isso que atravessamos longa e penosa ditadura.<\/p>\n<p>Dei-me conta ent\u00e3o que fazemos parte de uma humanidade que procura, hoje, transmitir a todos o que aprendemos, dividir a alegria da conversa, somar esperan\u00e7as e sentir a genu\u00edna alegria no reencontro. Pena que alguns j\u00e1 partiram, como o pr\u00edncipe Gilberto Gick, aquele que jamais deveria ter nos deixado, pelo tanto que poderia fazer, pela enormidade do esp\u00edrito, pela intelig\u00eancia infinita e pela ousadia de chegar sempre na frente.<\/p>\n<p>Gilberto era a nossa vanguarda e, como todo sinuelo, sofreu o vento minuano dos tiros na primeira hora, quando ainda est\u00e1vamos dormindo. Quando acordamos, est\u00e1vamos desamparados pela perda. Mas o texto, que \u00e9 sempre trabalho penoso pelo desafio e gratificante pelos resultados, \u00e9 a po\u00e7\u00e3o m\u00e1gica que traz todo mundo de volta e nos coloca ao redor do fogo.<\/p>\n<p>Somos de Uruguaiana, a cidade-sentinela. Quem vem de outro pa\u00eds nos cumprimenta em primeiro lugar. Respondemos com o abra\u00e7o das boas vindas, com a aceita\u00e7\u00e3o das diferen\u00e7as, com a certeza de que nascemos para dar o exemplo, j\u00e1 que somos fruto do exemplo maior da gera\u00e7\u00e3o \u2013 e que gera\u00e7\u00e3o! \u2013 que nos precedeu. A gera\u00e7\u00e3o que nos deu os melhores, a que fundou a na\u00e7\u00e3o a partir do nada, e que nenhum respeito ou agradecimento, por maiores que sejam, jamais poder\u00e3o retribuir tudo o que nos deram.<\/p>\n<p>RETORNO &#8211; Fernando Pereira da Silva Filho me envia a seguinte a mensagem: &#8220;Meu prezado Nei &#8211; Os amigos s\u00e3o sempre benevolentes. Grato por ter me colocado no mundo. Sei dos meus limites mas pretendo ir alargando-os, antes tarde do que nunca. Apesar de levar uma vida de paulista em Uruguaiana ( d\u00e1 para acreditar?) pelos meus trabalhos ( tenho tr\u00eas frentes para encarar por dia) tenho me dedicado aos escritos. Sem medo de errar digo que eles s\u00e3o o meu prazer, o meu lazer e minha terapia para enfrentar esse mundo de hoje. Um abra\u00e7o fraterno e obrigado pelo est\u00edmulo. Leio sempre tuas mensagens e vejo que apesar dos tempos n\u00e3o te desligastes de nossa terra. Quem escreve com o cora\u00e7\u00e3o n\u00e3o se trai nunca&#8221;.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fa\u00e7o parte de uma gera\u00e7\u00e3o de pessoas gentis, formada na refrega dura da vida estudantil onde n\u00e3o havia colher de ch\u00e1, onde bastava tomar bomba numa s\u00f3 mat\u00e9ria para repetir de ano, e se repetisse duas vezes, era convidado a deixar a escola.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[11],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/930"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=930"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/930\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1642,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/930\/revisions\/1642"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=930"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=930"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=930"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}