{"id":932,"date":"2009-12-13T22:33:34","date_gmt":"2009-12-14T00:33:34","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=932"},"modified":"2009-12-21T22:37:56","modified_gmt":"2009-12-22T00:37:56","slug":"livro-a-metro","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/livro-a-metro","title":{"rendered":"LIVRO A METRO"},"content":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>Ler um livro \u00e9 altamente suspeito: requer concentra\u00e7\u00e3o, sil\u00eancio, solid\u00e3o. Contraria os princ\u00edpios da \u00e9poca, pautada pelo suor perform\u00e1tico, a exposi\u00e7\u00e3o ruidosa, o culto \u00e0 superf\u00edcie. Existem pessoas que conseguem devorar um romance viajando de p\u00e9 num metr\u00f4 na hora do rush, mas s\u00e3o raras, pelo menos no Brasil, onde h\u00e1 tamb\u00e9m escassez de trilhos.<\/p>\n<p>Na pr\u00e1tica, \u00e9 dif\u00edcil repassar a id\u00e9ia de seriedade \u2013 confundida com pragmatismo &#8211; no momento da leitura. \u00c9 pura perda de tempo, ou no m\u00e1ximo, apenas divers\u00e3o. Pelo menos \u00e9 o que sugerem as manifesta\u00e7\u00f5es expl\u00edcitas de algumas pessoas, n\u00e3o mediadas pelo h\u00e1bito de agradar o interlocutor. N\u00e3o arrisque folhear um volume, que \u00e9 visto, nesse \u00e2ngulo de observadores sinceros, mas radicais, como coisa de folgado, at\u00e9 mesmo vagabundo. Lendo, significa que est\u00e1 com a vida ganha.<\/p>\n<p>Mas se conseguir capturar alguns trechos de Madame Bovary no original usando um teclado e uma tela, isso ser\u00e1 confundido com trabalho. O olhar atento no computador, frente \u00e0s letrinhas luminosas, impressiona. Nem sequer passa pela cabe\u00e7a dos desconfiados que Flaubert seja naveg\u00e1vel numa conex\u00e3o t\u00edpica de escrit\u00f3rio.<\/p>\n<p>As estantes atulhadas servem apenas para fazer figura\u00e7\u00e3o. H\u00e1 uma boa por\u00e7\u00e3o de reconhecidas sumidades que usam luxuosas encaderna\u00e7\u00f5es ao fundo quando d\u00e3o declara\u00e7\u00f5es. \u00c9 um h\u00e1bito lucrativo, que exige investimento. Soube de um livreiro descolado que vende livro a metro. Por encomenda, ele forra paredes com obras verdadeiras, n\u00e3o com o expediente manjado das lombadas abra\u00e7ando papel em branco. Possui de sobra estoques repassados por herdeiros de leitores longevos, que morreram junto com suas bibliotecas.<\/p>\n<p>Conte\u00fados que s\u00f3 servem para a ostenta\u00e7\u00e3o comp\u00f5em o ambiente ideal para o capital simb\u00f3lico. Intactos, ficam condenados ao esquecimento, apesar da boa vida de ambientes bem iluminados, esterilizados e na temperatura certa. Enquanto Guy de Maupassant, Joseph Conrad ou Tchecov dormem na sala de luxo, o olhar profissional dedica-se ao que realmente interessa: contratos, regras, leis, ordens, card\u00e1pios e toda a tralha publicit\u00e1ria.<\/p>\n<p>Escrever literatura \u00e9 tamb\u00e9m uma atividade condenada pela barb\u00e1rie \u00e1grafa, que domina corpos dispon\u00edveis e mentes ocupadas. \u00c9 normal pretender ser astronauta ou intermedi\u00e1rio de diamantes, mas largar tudo para produzir uma obra \u00e9 um esc\u00e2ndalo tratado com devo\u00e7\u00e3o. O argumento vibrante \u00e9 que isso n\u00e3o d\u00e1 camisa para ningu\u00e9m, tanto \u00e9 que s\u00f3 meia d\u00fazia atinge uma posi\u00e7\u00e3o privilegiada. Para o resto, \u00e9 apenas hobby.<\/p>\n<p>Talvez a origem de tanto equ\u00edvoco esteja na estr\u00e9ia da cidadania no caminho do alfabetiza\u00e7\u00e3o. As primeiras letras, que s\u00e3o, de fato, as derradeiras, viram instrumentos de objetivos curtos. O alfabeto serviria n\u00e3o para compartilhar algo com Clarice Lispector ou Guimar\u00e3es Rosa, mas sim porque \u00e9 imprescind\u00edvel nos concursos. Quem precisa de um romance, se existe o resumo?<\/p>\n<p>\u00c9 duro decidir que alguns cent\u00edmetros de cria\u00e7\u00e3o \u2013 um conto, um poema \u2013 s\u00e3o o ponto de partida para o futuro hectare leg\u00edtimo no vasto latif\u00fandio liter\u00e1rio. \u00c9 quase certo ficar pelo caminho. O que salva \u00e9 a possibilidade, nem sempre remota, de atingir prateleiras acess\u00edveis, ao alcance da m\u00e3o, como um mouse. E virar um autor de janelas escancaradas, lido confortavelmente, sem despertar desconfian\u00e7a.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As estantes atulhadas servem apenas para fazer figura\u00e7\u00e3o. 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