{"id":934,"date":"2009-12-13T22:34:19","date_gmt":"2009-12-14T00:34:19","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=934"},"modified":"2009-12-21T22:24:46","modified_gmt":"2009-12-22T00:24:46","slug":"namoro-no-portao","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/namoro-no-portao","title":{"rendered":"NAMORO NO PORT\u00c3O"},"content":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>Ainda existem port\u00f5es e n\u00e3o se trata de nostalgia. O casario domina o territ\u00f3rio da na\u00e7\u00e3o, apesar das imagens de megal\u00f3poles fe\u00e9ricas e a onipresente s\u00edndrome dos edif\u00edcios.  E por mais que se fale em mudan\u00e7a de costumes, a unidade familiar \u00e9 hegem\u00f4nica, com seus encaminhamentos tradicionais. Tenho visto casais grudados na fronteira entre a casa e a rua e n\u00e3o noto nada de diferente do tempo em que tamb\u00e9m participei desse jogo de cena, em que os corpos e mentes ensaiam uma sintonia, sob a guarda de olhos atentos.<\/p>\n<p>O que mudou um pouco foram as roupas. N\u00e3o us\u00e1vamos bon\u00e9s e as meninas privilegiavam os vestidos e n\u00e3o as cal\u00e7as compridas. Diminuiu a diferen\u00e7a nas apar\u00eancias, por for\u00e7a dessa uniformiza\u00e7\u00e3o ditada pelo ganho de escala da ind\u00fastria de tecidos e roupas. Enquanto as passarelas exibem pe\u00e7as de arte, em modelos propositadamente m\u00ednimos (para que se destaque a obra), que s\u00e3o mais para serem vistas do que usadas, sobra por todo canto a indument\u00e1ria chapada em suas leis r\u00edgidas: t\u00eanis, camiseta, casaco, blusa.<\/p>\n<p>N\u00e3o mais o farfalhar de saias, os joelhos unidos no caminhar em tubos justos, pliss\u00eas encimando meias brancas at\u00e9 a uma altura tentadora. Ou mesmo cintos que estrangulavam cinturas, espalhando, em conseq\u00fc\u00eancia, as curvas que navegavam ao ritmo de animadas melodias, s\u00f3 ouvidas pela admira\u00e7\u00e3o datada, a que pega fogo nos verdes anos principalmente. Tamb\u00e9m ficaram de fora, para os rapazes, as bainhas italianas, a emprestar charme ali pelo n\u00edvel do tornozelo, as golas pontudas, os casacos de l\u00e3 acompanhados \u00e0s vezes por um len\u00e7o displicente imitando uma flor no peito ansioso.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o importa. A moda serve para marcar o tempo e quando desaparece sabemos que fazia parte da pele e, se voltar, jamais ser\u00e1 a mesma, pois os biotipos humanos mudam e talvez seja por isso que Humphrey Bogart n\u00e3o tenha substituto, nem Ingrid Bergman possa ser vista numa dobra de esquina. Mesmo assim, o que vale \u00e9 o beijo roubado, o pega-pega onde a prud\u00eancia estimula a emo\u00e7\u00e3o e cada gesto \u00e9 um aviso no caminho tortuoso em dire\u00e7\u00e3o ao amor.<\/p>\n<p>Pois, para que haja namoro no port\u00e3o, daquele tradicional, \u00e9 preciso, primeiro, haver mais limite do que atra\u00e7\u00e3o. O port\u00e3o \u00e9 a representa\u00e7\u00e3o dessa conflu\u00eancia entre a vontade e a permiss\u00e3o. O namoro fica sendo ent\u00e3o um exerc\u00edcio de paci\u00eancia, uma trilha complicada, uma gentileza entre as partes, esse passo al\u00e9m do flerte, que aproxima mas ainda mant\u00e9m dist\u00e2ncia. N\u00e3o seria simplesmente a farta avenida que promete liberdade mas de fato entrega horizontes curtos. Um caminho dif\u00edcil tem a promessa de paisagens mais amplas quando enfim se chega ao topo.<\/p>\n<p>E o topo, para quem amargou o inverno ao relento, seria o sof\u00e1 comum de uma sala acolhedora. \u00c9 quando o port\u00e3o enfim se abre para a apresenta\u00e7\u00f5es do entorno: irm\u00e3o, irm\u00e3, pai, m\u00e3e, tia, av\u00f3, cachorrinho. As m\u00e3os dadas j\u00e1 s\u00e3o oficiais. Os beijos em p\u00fablico, tolerados. E os interrogat\u00f3rios, insistentes. Um namorado firme precisa ter um arsenal de respostas para o caso de investiga\u00e7\u00e3o acima de suas for\u00e7as. Era assim antigamente e deve continuar sendo, ainda mais que as suspeitas, a viol\u00eancia, as armadilhas se multiplicaram. O que era apenas sugest\u00e3o virou realidade.<\/p>\n<p>O namoro se conjuga fora dos dom\u00ednios do verbo ficar, que \u00e9 mais antigo do que andar a p\u00e9, pois o grude instant\u00e2neo e sem conseq\u00fc\u00eancias sempre se infiltrou nas festas da mo\u00e7ada. Talvez n\u00e3o esteja mais direcionado diretamente e de maneira exagerada para o casamento. Diante da escassez de rela\u00e7\u00f5es humanas duradouras e respeitosas, um acordo que se quer monog\u00e2mico e que ultrapasse o momento inicial do toque, sempre \u00e9 bem-vindo. Um casal \u00e9 mais tranq\u00fcilo do que uma turma, mesmo que muitos casais se enturmem para fazer algo fora dos olhares temerosos.<\/p>\n<p>Uma liga\u00e7\u00e3o a dois ser reconhecida pela comunidade et\u00e1ria dos envolvidos \u00e9 sempre uma vantagem para quem anda a esmo pelas ruas ou noites, preenchendo o tempo com experi\u00eancias que nem sempre acabam bem. O encontro no port\u00e3o \u00e9 o sinal mais evidente de que algo h\u00e1 entre o garoto que saiu da sua casa em dire\u00e7\u00e3o ao bairro da pretendente, e da mo\u00e7a que aguarda a chegada do forasteiro que pretende roubar-lhe o cora\u00e7\u00e3o. Mesmo que digam que isso \u00e9 coisa do passado. N\u00e3o \u00e9. Quando vejo uma cena dessas, acredito que nem tudo est\u00e1 perdido.   <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ainda existem port\u00f5es e n\u00e3o se trata de nostalgia. O casario domina o territ\u00f3rio da na\u00e7\u00e3o, apesar das imagens de megal\u00f3poles fe\u00e9ricas e a onipresente s\u00edndrome dos edif\u00edcios.  E por mais que se fale em mudan\u00e7a de costumes, a unidade familiar \u00e9 hegem\u00f4nica, com seus encaminhamentos tradicionais. 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