{"id":936,"date":"2009-12-13T22:35:02","date_gmt":"2009-12-14T00:35:02","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=936"},"modified":"2009-12-21T20:44:44","modified_gmt":"2009-12-21T22:44:44","slug":"sartre-influencia-woody-allen","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/sartre-influencia-woody-allen","title":{"rendered":"SARTRE INFLUENCIA WOODY ALLEN"},"content":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>\u00c9 totalmente baseado num trecho das mem\u00f3rias de Sartre, \u201cAs palavras\u201d (Les Mots), o filme de Woody Allen \u201cDirigindo no escuro\u201d, de 2002. Nessa biografia da sua inf\u00e2ncia, Sartre imagina a m\u00e3e reclamando que ele lia no escuro, ao que replica que \u201cmesmo na escurid\u00e3o poderia escrever\u201d. \u00c9 antol\u00f3gica a autoflagela\u00e7\u00e3o de Sartre neste livro ao mergulhar nas imposturas do menino \u00f3rf\u00e3o criado pelo av\u00f4. Numa de suas maquina\u00e7\u00f5es, o garoto imaginava escrever, \u201cmais cego do que Beethoven foi surdo\u201d, seu derradeiro livro. Os contempor\u00e2neos achariam um lixo, mas os p\u00f3stumos, uma obra-prima.<\/p>\n<p>Woody Allen usa integralmente esse par\u00e1grafo (p\u00e1ginas 129\/130 da edi\u00e7\u00e3o da Difel, 1967, quatro anos depois do lan\u00e7amento de \u201cAs palavras\u201d na Fran\u00e7a), inclusive a met\u00e1fora de Beethoven, para contar a hist\u00f3ria do cineasta que tem um surto psic\u00f3tico e fica cego. Assim mesmo, consegue fazer o filme, que \u00e9 considerado uma droga. Mas os franceses o salvam, acham que \u00e9 genial. \u201cAinda bem que existem os franceses\u201d diz Allen. N\u00e3o vi na internet nenhuma refer\u00eancia sobre a liga\u00e7\u00e3o entre Sartre e Allen neste filme corrosivo, em que nem seus aliados, os franceses, escapam.<\/p>\n<p>Ler Sartre \u00e9 entender a nossa \u00e9poca. Absolutamente obrigat\u00f3rio, \u00e9 o escritor que devassa as fantasias mais caras dos contempor\u00e2neos, decomp\u00f5e a arquitetura de aliena\u00e7\u00f5es e instaura um narcisismo \u00e0s avessas que fez a fama de muita gente. Quer entender o narcisismo cool de nomes not\u00f3rios? Leia Sartre, est\u00e1 tudo l\u00e1.<\/p>\n<p>Eles descobriram que podem se auto-imolar \u00e0 vontade, sempre sair\u00e3o com uma grande frase que os redimir\u00e1. No fundo, confirmam o destino do menino Sartre, t\u00e3o devassado pelo cinq\u00fcent\u00e3o memorialista.  O superego exposto no a\u00e7ougue empresta charme \u00e0 arrog\u00e2ncia intelectual, encapotada sob mil mantos de informa\u00e7\u00f5es seguras, cita\u00e7\u00f5es, insights e tiradas de impacto, repetidas at\u00e9 o enlouquecimento.<\/p>\n<p>Justi\u00e7a seja feita: nem sempre originais, normalmente tomadas emprestadas, com cita\u00e7\u00f5es do cr\u00e9dito, claro, e que v\u00e3o desde \u201co mais belo animal do mundo\u201d, relacionado com Ava Gardner no seu esplendor, at\u00e9 \u201c\u00e9 a economia, est\u00fapido!\u201d a resposta malcriada e de sinceridade sartriana de um assessor do candidato Bill Clinton para os advers\u00e1rios encarnados em Bush pai. Uma frase dessas pede u\u00edsque, charuto e um olhar sampacu para o infinito. E a conseq\u00fcente desconstru\u00e7\u00e3o da cena, pois \u00e9 fundamental estar sempre \u00e0 tona, para evitar o esquecimento das novas gera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Sartre propunha-se, na inf\u00e2ncia, segundo o depoimento do adulto, falar para o ano tr\u00eas mil. \u00c9 o que sugerem seus seguidores, sempre na mar\u00e9 alta da notoriedade, por m\u00e9ritos pr\u00f3prios ou n\u00e3o . Talvez haja hoje tanta incapacidade intelectual que n\u00e3o se consiga preencher o vazio que as gera\u00e7\u00f5es que ultrapassam agora os 60 anos v\u00e3o deixando pelo caminho. Ent\u00e3o \u00e9 preciso envelhecer r\u00e1pido, como impunha Nelson Rodrigues.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 por acaso que Nelson Rodrigues implicou com Sartre, ou melhor, com a mentalidade subserviente dos brasileiros que ciceronearam o grande escritor e fil\u00f3sofo na sua festejada visita ao Brasil (um deles aparava os caro\u00e7os de uma fruta que a celebridade cuspia, por exemplo). Nelson talvez se sentisse incomodado com o sucesso das frases de Sartre, famosas, como \u201co inferno s\u00e3o os outros, os homens esqueceram a sua inf\u00e2ncia, o homem est\u00e1 condenado \u00e0 liberdade\u201d.<\/p>\n<p>Nelson tinham as suas, igualmente brilhantes, mas de t\u00e3o repetidas hoje parecem ser a \u00fanica produ\u00e7\u00e3o de pensamento da humanidade, como \u201ctoda unanimidade \u00e9 burra\u201d que pela exaust\u00e3o age ao contr\u00e1rio do que prop\u00f5e, se transformando num hino \u00e0 burrice.<\/p>\n<p>Woody Allen abusa do talento com suas tiradas. Neste \u201cDirigindo no escuro\u201d, uma personagem pede para dar um Oscar a Haley Joel Osment pelo conjunto da obra. (Osment foi o garotinho de seis anos de \u201cForrest Gump\u201d, e o menino de 11 de \u201cO Sexto Sentido\u201d, quando quase levou de fato um Oscar). Outro elogia o sol da Calif\u00f3rnia e avisa que vai tirar mais um c\u00e2ncer de pele. Em \u201cO Escorpi\u00e3o de Jade\u201d, o detetive diz que tem tanto problema que um suic\u00eddio n\u00e3o daria conta do recado.  <\/p>\n<p>Acredito que n\u00e3o exista bom cinema sem os autores obrigat\u00f3rios. Quer dirigir um filme ou escrever um roteiro? Leia os grandes autores. Jean-Paul Sartre na primeira fila.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 totalmente baseado num trecho das mem\u00f3rias de Sartre, \u201cAs palavras\u201d (Les Mots), o filme de Woody Allen \u201cDirigindo no escuro\u201d, de 2002. Nessa biografia da sua inf\u00e2ncia, Sartre imagina a m\u00e3e reclamando que ele lia no escuro, ao que replica que \u201cmesmo na escurid\u00e3o poderia escrever\u201d. \u00c9 antol\u00f3gica a autoflagela\u00e7\u00e3o de Sartre neste livro ao mergulhar nas imposturas do menino \u00f3rf\u00e3o criado pelo av\u00f4. Numa de suas maquina\u00e7\u00f5es, o garoto imaginava escrever, \u201cmais cego do que Beethoven foi surdo\u201d, seu derradeiro livro. Os contempor\u00e2neos achariam um lixo, mas os p\u00f3stumos, uma obra-prima.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/936"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=936"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/936\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1616,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/936\/revisions\/1616"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=936"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=936"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=936"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}