{"id":938,"date":"2009-12-13T22:35:43","date_gmt":"2009-12-14T00:35:43","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=938"},"modified":"2010-09-19T16:35:04","modified_gmt":"2010-09-19T19:35:04","slug":"o-admiravel-cinema-argentino","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/o-admiravel-cinema-argentino","title":{"rendered":"O ADMIR\u00c1VEL CINEMA ARGENTINO"},"content":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>Eu escrevia sobre o que n\u00e3o entendia. Deveria ter escrito sobre o medo. Por medo te perdi, por medo trabalho num lugar que odeio. Eu achava que tudo o que eu tocava virava ouro. Mas descobri que tudo o que eu toco vira merda.&#8221;<\/p>\n<p>(Fala de Ricardo Darin no filme &#8220;O mesmo amor, a mesma chuva&#8221;, de Juan Jos\u00e9 Campanella)<\/p>\n<p>O cinema argentino \u00e9 a express\u00e3o de um pa\u00eds que amadureceu quando foi destru\u00eddo pelas perdas internacionais, gerenciadas cruelmente por uma elite interna traidora. Os argentinos colocam os torturadores da ditadura na cadeia, expulsam presidentes a panela\u00e7os e n\u00e3o perdoam o que fizeram com eles. Por isso seu cinema \u00e9 t\u00e3o not\u00e1vel, disparado um dos melhores do mundo na atualidade. Existem in\u00fameros exemplos, mas prefiro ficar com os tr\u00eas de Juan Jos\u00e9 Campanella, estrelado por esse fant\u00e1stico talento que \u00e9 o Ricardo Darin: O mesmo amor, a mesma chuva (1999), O filho da noiva (2002) e O Clube da Lua (2004).<\/p>\n<p>S\u00e3o filmes perfeitos que abordam, o primeiro, a dolorosa trajet\u00f3ria da intelectualidade rumo \u00e0 compreens\u00e3o da mis\u00e9ria real do pa\u00eds; o segundo, a classe m\u00e9dia pressionada pela crise e que luta para manter um neg\u00f3cio familiar, cercado pelos monop\u00f3lios; e o terceiro, a classe m\u00e9dia empobrecida que v\u00ea no clube um local para se manter \u00edntegra, enquanto tudo ao redor, especialmente o mundo empresarial e do trabalho, desmorona e as cidades se transformam em cemit\u00e9rios.<\/p>\n<p>PUNI\u00c7\u00c3O &#8211; Vejam que temas! Temos exemplos de sobra no Brasil para fazer algo parecido (por que n\u00e3o seguimos o exemplo, sem imitar pura e simplesmente?), mas preferimos outra coisa. H\u00e1, entre n\u00f3s, a certeza gran\u00edtica de que nos livramos dos opressores e que vivemos njuma democracia, o que seria o \u00e1libi perfeito para a aceita\u00e7\u00e3o covarde de mais ditadura.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m h\u00e1 vergonha de pertencer \u00e0 classe m\u00e9dia. \u00c9 uma esp\u00e9cie de crime que merece ser punido. Empobreceu? Bem feito, quem manda ser alienado. Ent\u00e3o n\u00e3o temos filmes sobre o mundo do trabalho e dos neg\u00f3cios. Isso \u00e9 coisa, digamos, do tal capitalismo. Tamb\u00e9m n\u00e3o fazemos filmes pol\u00edticos que denunciam o que achamos ser a esquerda ou os progressistas. Nosso heroismo n\u00e3o permite ver em n\u00f3s mesmos a ess\u00eancia da derrota do pa\u00eds, como acontece com o filme &#8220;O mesmo amor, a mesma chuva&#8221;, um haraquiri de extrema lucidez.<\/p>\n<p>E a vida econ\u00f4mica? Somos capazes de entender perfeitamente o que \u00e9 um spread, mas acusamos o golpe quando se fala em a\u00e7\u00f5es humanas comuns e que fazem parte da vida de todas as geraq\u00e7\u00f5es. Comprar, vender, ganhar o p\u00e3o com o suor do rosto s\u00e3o atividades multimilenares. Ent\u00e3o ficamos pasmos com esse tipo de preconceito. Como o mundo da honestidade \u00e9 altamente suspeito, ent\u00e3o se entroniza a putaria como modelo de comportamento. Transgredir o tempo todo \u00e9 a express\u00e3o de um pa\u00eds, o Brasil, que n\u00e3o amadureceu quando foi destru\u00eddo pelas perdas internacionais e pela elite traidora interna. Os torturadores, ditadores, morrem de velhos, depois de continuarem dando as cartas. Por que acontece isso? Porque nos falta coragem, que sobra entre os argentinos.<\/p>\n<p>No cinema, na maioria das obras, somos adolescentes tentando impor nossa sexualidade, a confirmar aquilo que uma senhora muito digna e debochada dizia: os jovens acham que s\u00f3 eles trepam. Vejam alguns exemplos. Cidade Baixa, fica parecendo a celebra\u00e7\u00e3o da turismo sexual e da prostitui\u00e7\u00e3o que se quer charmosa. Existem intermin\u00e1veis cenas de sexo expl\u00edcito, como a mostrar como se deve trepar. Bem no meio de qualquer cena, as pessoas se pelam e come\u00e7am a fungar.<\/p>\n<p>VOLTAGEM &#8211; Vejam que cena er\u00f3tica. Ricardo Darin se separou e dorme no clube. L\u00e1, encontra colega da diretoria tentado roubar o cofre, pois est\u00e1 desesperada com a falta de dinheiro e o desemprego. Ela pede perd\u00e3o e os dois saem at\u00e9 a casa dela. Na hora de se despedir, ela o convida para ficar. Ele recusa, e enquanto argumenta come\u00e7a a beij\u00e1-la. Os dois se colocam em pratos limpos: dizem que est\u00e3o apaixonados por seus ex-parceiros. Feito isso, entram na casa.<\/p>\n<p>N\u00e3o aparece uma bunda pulando, um p\u00ealo p\u00fabico, um par de perna escancarado. Nada. Mas existe alta voltagem er\u00f3tica, fruto da situa\u00e7\u00e3o desesperada dos dois, que se tocam num momento extremo. Ou seja, o sexo n\u00e3o \u00e9 gratuito, tem a ver com a mente das pessoas, com sua condi\u00e7\u00e3o social, com a quadra da vida onde se encontram. O cinema argentino n\u00e3o \u00e9 como n\u00f3s, que estamos a toda hora dizendo: vejam mam\u00e3e, como somos sexy.<\/p>\n<p>A cena mais importante e sem d\u00favida, antol\u00f3gica (\u00e9 talvez a melhor cena do cinema contempor\u00e2neo) \u00e9 a discuss\u00e3o entre os s\u00f3cios do clube , que v\u00e3o decidir se vendem para um grupo de investidores que querem fazer dele um cassino. \u00c9 uma cena longa, em que dois protagonistas argumentam, um a favor da venda, e outro contra. Darin (o cara que \u00e9 capaz de mostrar emo\u00e7\u00e3o suprema sem mover uma linha de rosto, como acontece na cena em que assiste o bal\u00e9 da filha) d\u00e1 raz\u00e3o ao seu advers\u00e1rio, que acena com empregos para os s\u00f3cios do clube. Mas pergunta se a raz\u00e3o \u00e9 suficiente. E arremata: n\u00e3o perdi minha integridade, pois quando as porcarias eletr\u00f4nicas estragaram e eu fiquei desempregado, vim aqui no clube e permaneci inteiro. E pergunta: que valor (ele se referia ao dinheiro) existe na amizade entre n\u00f3s? Em O mesmo amor, h\u00e1 tamb\u00e9m uma cena inesquec\u00edvel e brutal: a briga do jornalista veterano contra o editorizinho de araque que desvirtuou os rumos da revista. Nada mais atual, nada mais revelador.<\/p>\n<p>Esse \u00e9 o grande valor do admir\u00e1vel cinema argentino, que encerra as principais li\u00e7\u00f5es que devemos urgentemente aprender. Chega de coxa e rola pulando em frente \u00e0s c\u00e2maras. Transgress\u00e3o verdadeira \u00e9 outra coisa: \u00e9 resgatar o que perdemos nessa ditadura global que nos escraviza. E n\u00e3o ficar pelado, dispon\u00edvel para o deboche internacional.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O cinema argentino \u00e9 a express\u00e3o de um pa\u00eds que amadureceu quando foi destru\u00eddo pelas perdas internacionais, gerenciadas cruelmente por uma elite interna traidora. Os argentinos colocam os torturadores da ditadura na cadeia, expulsam presidentes a panela\u00e7os e n\u00e3o perdoam o que fizeram com eles. Por isso seu cinema \u00e9 t\u00e3o not\u00e1vel, disparado um dos melhores do mundo na atualidade. Existem in\u00fameros exemplos, mas prefiro ficar com os tr\u00eas de Juan Jos\u00e9 Campanella, estrelado por esse fant\u00e1stico talento que \u00e9 o Ricardo Darin: O mesmo amor, a mesma chuva (1999), O filho da noiva (2001) e O Clube da Lua (2004).<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/938"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=938"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/938\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2327,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/938\/revisions\/2327"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=938"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=938"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=938"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}