{"id":940,"date":"2009-12-13T22:36:27","date_gmt":"2009-12-14T00:36:27","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=940"},"modified":"2009-12-20T23:30:41","modified_gmt":"2009-12-21T01:30:41","slug":"sobre-o-best-seller-d-pedro-ii","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/sobre-o-best-seller-d-pedro-ii","title":{"rendered":"SOBRE O BEST-SELLER D. PEDRO II"},"content":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>O livro &#8220;D. Pedro II &#8211; Ser ou n\u00e3o ser&#8221; (Companhia das Letras), de Jos\u00e9 Murilo de Carvalho, foi talhado ao gosto da nossa \u00e9poca. O autor construiu o perfil ideal de um homem p\u00fablico, o que falta desesperadamente nos dias de hoje. Quem era o Imperador? Tudo o que n\u00e3o temos: um estadista erudito, amante das artes e ci\u00eancias, que permitiu e promoveu a educa\u00e7\u00e3o e a liberdade de imprensa, democr\u00e1tico ao trabalhar o rod\u00edzio das tend\u00eancias pol\u00edticas no poder, entre outras qualidades.<\/p>\n<p>Para aprofundar a humanidade de seu biografado, Murilo destaca a vida amorosa fora do casamento pautada pelo soneto, a rela\u00e7\u00e3o respeitosa com a imperatriz e o deslumbramento do viajante tardio que apertou a m\u00e3o de grandes personalidades. Trata-se de um retrato irretoc\u00e1vel, em que at\u00e9 os deslizes, como a incapacidade de fazer sucessor, ou a falta de talento, como a imperfei\u00e7\u00f5es dos poemas, fazem parte da homenagem ao monarca injusti\u00e7ado. Com este best-seller, fica consolidada a reconcilia\u00e7\u00e3o do personagem com a na\u00e7\u00e3o exausta de corrup\u00e7\u00e3o e ressentida em rela\u00e7\u00e3o a uma rep\u00fablica que prometeu mas n\u00e3o cumpriu.<\/p>\n<p>Por ser uma obra que prima pelo anacronismo, pois busca no passado o alimento que falta no presente, e ao mesmo tempo ser um livro importante, pois resume a s\u00e9rie de revela\u00e7\u00f5es que a historiografia conseguiu ao longo de um s\u00e9culo, o trabalho de Murilo reveste-se da mesma identidade que aponta em seu personagem: a dualidade, a divis\u00e3o interna. No caso de Dom Pedro, segundo o autor, seria \u201cum Habsburgo perdido nos tr\u00f3picos\u2019, o que refor\u00e7a o velho preconceito de que ningu\u00e9m \u00e9 brasileiro. No caso de Jos\u00e9 Murilo de Carvalho, seria um livro datado que consegue transcender suas limita\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>\u201cD. Pedro II\u201d transcende porque \u00e9 uma janela para a Hist\u00f3ria do Brasil sempre oculta, j\u00e1 que nada ou pouco sabemos, n\u00e3o pela omiss\u00e3o dos historiadores, mas pelo pouco caso a que a educa\u00e7\u00e3o foi atirada no Brasil. Nada sabemos porque nada nos ensinam. Precisamos ir a campo garimpar preciosidades, e foi assim que muitos de n\u00f3s fizemos. No meu caso, debulhei centenas de livros de mem\u00f3rias para entender as guerras em que meu pai e meu tio se meteram, nos anos 20 e 30. Para esse garimpo, de todas as \u00e9pocas, contamos com a valiosa contribui\u00e7\u00e3o de grandes historiadores como Murilo, autor de v\u00e1rias obras importantes, como a que aborda o imagin\u00e1rio da Rep\u00fablica, entre outras.<\/p>\n<p>Para fazer justi\u00e7a ao que estou apontando, as contradi\u00e7\u00f5es do best-seller, tamb\u00e9m fiquei dividido na minha leitura. Como estou muito defasado em rela\u00e7\u00e3o ao personagem, pois n\u00e3o li trabalhos importantes que vieram \u00e0 tona nas \u00faltimas d\u00e9cadas sobre o segundo Imp\u00e9rio, gostei de saber v\u00e1rias coisas sobre a personalidade do imperador. Tenho travada uma novela que vou escrever sobre um epis\u00f3dio muito significativo de uma de suas viagens e por isso Murilo veio bem no momento certo.<\/p>\n<p>Fiquei invocado com o poder que a imprensa tem sobre o imagin\u00e1rio da na\u00e7\u00e3o. Praticamente fomos criados no desprezo \u00e0 Monarquia e agora descubro que isso \u00e9 fruto exatamente da grande liberdade de imprensa permitida pelo monarca, que jamais interferia nas reda\u00e7\u00f5es e deixava inclusive que os ataques publicados fossem an\u00f4nimos. Bem ao contr\u00e1rio da \u00e9poca colonial, quando fomos impedidos de imprimir jornais, tanto que o primeiro jornal brasileiro, o Correio Braziliense, era impresso em Londres.<\/p>\n<p>Para n\u00f3s, que nada sab\u00edamos sobre o Imp\u00e9rio, aquelas caricaturas, o deboche dos republicanos e tudo o que se escreveu sobre Dom Pedro II, ficaram valendo como fato e verdade. Aconteceu o mesmo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 \u00e9poca militar da ditadura, 1964-85 (desde 1985 estamos na \u00e9poca civil da ditadura). Como havia r\u00edgida censura, a popula\u00e7\u00e3o s\u00f3 soube das coisas depois do afastamento dos militares. Mas o que vale, no imagin\u00e1rio, penso eu, \u00e9 aquele per\u00edodo censurado. N\u00e3o \u00e9 raro ver manifesta\u00e7\u00f5es de saudades da farda no poder. O argumento \u00e9 que sob o tac\u00e3o das botas e bot\u00f5es dourados nada disso que vemos hoje existia. Vejam s\u00f3 o que faz a censura \u00e0 imprensa. As acusa\u00e7\u00f5es, as revela\u00e7\u00f5es, as informa\u00e7\u00f5es, dentro desse racioc\u00ednio tosco, seriam apenas revanche, vingan\u00e7a, portanto n\u00e3o valem.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo que faz justi\u00e7a ao seu personagem, Murilo o veste a rigor para os dias de hoje. \u00c9 quase um manifesto pr\u00f3-restaura\u00e7\u00e3o mon\u00e1rquica, o que seria um exagero de abordagem. Mas cai direitinho no gosto de quem cansou de tantos erros. \u00c9 um risco a que o autor se entrega, sentindo talvez um gostinho de vingan\u00e7a contra o que nos aprontaram depois. Incendiaram um estadista que nos legou a soberania de um pa\u00eds de territ\u00f3rio \u00edntegro, a elite pol\u00edtica consolidada e in\u00fameras institui\u00e7\u00f5es importantes que semearam o que temos de melhor. Terminamos o livro e uma aclama\u00e7\u00e3o fica nos ouvidos: Viva o imperador! Prefiro: Longa vida \u00e0 Hist\u00f3ria feita com esfor\u00e7o, intelig\u00eancia, sensibilidade e talento.<\/p>\n<p>A Hist\u00f3ria serve para a reconcilia\u00e7\u00e3o. N\u00e3o para o perd\u00e3o covarde dos crimes, mas para o reconhecimento m\u00fatuo desta por\u00e7\u00e3o coletiva que divide o mesmo territ\u00f3rio e que, por isso mesmo, precisa de paz na diferen\u00e7a, auto-estima leg\u00edtima e solidez de princ\u00edpios nacionais que nos identificam. Pois nenhum de n\u00f3s \u00e9 um estrangeiro &#8220;perdido nos tr\u00f3picos&#8221;. Somos aqui, descendentes de qualquer origem, filhos do &#8220;milagre portugu\u00eas&#8221;. Estamos, a la Dickens, no inverno da nossa desesperan\u00e7a. Precisamos de insumos para sobreviver.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O livro &#8220;D. Pedro II &#8211; Ser ou n\u00e3o ser&#8221; (Companhia das Letras), de Jos\u00e9 Murilo de Carvalho, foi talhado ao gosto da nossa \u00e9poca. 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