{"id":946,"date":"2009-12-13T23:22:41","date_gmt":"2009-12-14T01:22:41","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=946"},"modified":"2009-12-21T22:50:33","modified_gmt":"2009-12-22T00:50:33","slug":"a-liberdade-em-dede-ferlauto","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/a-liberdade-em-dede-ferlauto","title":{"rendered":"A LIBERDADE EM DED\u00c9 FERLAUTO"},"content":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s <\/p>\n<p>&#8220;Pe\u00e7o demiss\u00e3o do cargo de habitante do planeta&#8221; (trecho de uma carta de Ded\u00e9 endere\u00e7ada a mim, datada de 27\/abril\/1977)<\/p>\n<p>Foi-se, nesta madrugada de 24 de agosto de 2007, o poeta Ded\u00e9 Ferlauto, partindo o cora\u00e7\u00e3o de todos os seus amigos e de uma fam\u00edlia brilhante, de um m\u00fasico (Leo), um arquiteto (Cl\u00e1udio), um engenheiro (Felipe), mais a fam\u00edlia que ajudou tamb\u00e9m a inventar, mulher, filhos, netos, enfim, todas as pessoas que conviveram com ele nesta curta\/longa vida. Palavras n\u00e3o servem de consolo, ainda mais partindo de mim, que h\u00e1 muito tempo n\u00e3o conversava com ele. Soube recentemente que ele estava morando no sul da ilha. Mas, como disse em meu livro Outubro, que Ded\u00e9 gostava demais: a linguagem \u00e9 a \u00fanica arma que eu disponho.<\/p>\n<p>Fui amigo de Ded\u00e9, mais intensamente por um tempo, do final dos 60 at\u00e9 o final dos anos 70, quando ent\u00e3o nos correspond\u00edamos por carta, eu em S\u00e3o Paulo iniciando uma vida dura na megal\u00f3pole, ele, mais l\u00facido, refugiado em Sapiranga, interior do Rio Grande do Sul. De l\u00e1 me enviou confid\u00eancias e poemas. Um deles, Furto Qualificado, diz assim: &#8220;Por todas as frestas\/ de todas as paredes\/ desta casa\/ muitos olhos espreitam\/ consultam\/ memorizam\/ e sons s\u00e3o sugados,\/ magnetizados\/ por todos os poros\/ da casa\/ do corpo\/ das palavras(&#8230;)&#8221;<\/p>\n<p>Tomei conhecimento de Ded\u00e9 Ferlauto quando vi, colados em azulejos, selos\/poemas assinados por Z\u00e9 Liberdade. Era ele. &#8220;Me sinto por fora desta coisas que andam acontecendo entre as pessoas que escrevem, revistas, editoras, livros e outros.&#8221;, me escreveu ele anos mais tarde. &#8220;Os caras andam muito chatos com essa mania de querer fazer Hist\u00f3ria. Acho um saco. Ca\u00ed fora. Me sinto sem norte, sozinho e n\u00e3o me assusto&#8221;. Via-se como um anarquista. Vejo-o como um outsider sincero, que viveu integralmente sua literatura, a que fisga pela voca\u00e7\u00e3o e carrega a criatura escolhida por toda a vida.<\/p>\n<p>Suas palavras, como de todo poeta, s\u00e3o prof\u00e9ticas. Veja o que disse no final dos anos 70: &#8220;Ando contrariado com minha vida profissional&#8221; (e quem n\u00e3o anda, Ded\u00e9? acrescento agora eu). &#8220;O que \u00e9 um jornalista hoje em dia, salvo exce\u00e7\u00f5es? N\u00e3o estou mais a\u00ed pra andar informado da merda mundial.&#8221; Ele estava em outra: &#8220;Enquanto isso vou procurando caminhar com minhas pr\u00f3prias pernas e levando minhas palavras por a\u00ed afora, como quem n\u00e3o quer nada. Quer nada? Como quem? Como? Quem? Quer? Nada?&#8221;<\/p>\n<p>Numa carta coletiva\/manifesto, deixou claro sua a\u00e7\u00e3o po\u00e9tica em trechos selecionados de grande lucidez: &#8220;\u00c9 compreendendo a ang\u00fastia que se resolvem problemas, e concomitantemente \u00e9 compreendendo-a que ela se dissipa numa grande e violenta atividade de cria\u00e7\u00e3o. \u00c9 olhar para dentro, para mim, \u00e9 tentar compreender as linguagens que nos cercam (como as abelhas, como as plantas, como a biodin\u00e2mica, como o ciclo de vida nas plantas, hortali\u00e7as etc.) e pelas linguagens que utilizamos para a nossa cria\u00e7\u00e3o (abaixo a arquitetura, viva a agricultura!). \u00c9 dentro da ang\u00fastia, da indecis\u00e3o, que \u00e9 poss\u00edvel localizar o desconhecido, o novo. &#8221;<\/p>\n<p>Ded\u00e9 n\u00e3o quis compactuar com pol\u00edticas, grupos, panelas. Preferiu a solid\u00e3o po\u00e9tica, a verdadeira, a que jamais consola, pelo sofrimento que provoca, mas a \u00fanica que garante a liberdade. Ele escolheu a liberdade numa \u00e9poca em que tudo foi datado, classificado, organizado, definido. Por isso Ded\u00e9 Ferlauto \u00e9 uma prova viva de que podemos ser criaturas livres, mesmo que isso nos custe uma vida dif\u00edcil, mas jamais apartada da grandeza.<\/p>\n<p>Foi-se Ded\u00e9 Ferlauto. Seus agitos continuam. Longa vida \u00e0 sua obra.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tomei conhecimento de Ded\u00e9 Ferlauto quando vi, colados em azulejos, selos\/poemas assinados por Z\u00e9 Liberdade. Era ele. &#8220;Me sinto por fora desta coisas que andam acontecendo entre as pessoas que escrevem, revistas, editoras, livros e outros.&#8221;, me escreveu ele anos mais tarde. &#8220;Os caras andam muito chatos com essa mania de querer fazer Hist\u00f3ria. Acho um saco. Ca\u00ed fora. Me sinto sem norte, sozinho e n\u00e3o me assusto&#8221;. Via-se como um anarquista. 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