{"id":948,"date":"2009-12-13T23:23:35","date_gmt":"2009-12-14T01:23:35","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=948"},"modified":"2009-12-21T22:31:10","modified_gmt":"2009-12-22T00:31:10","slug":"o-vendedor-de-cercas","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/o-vendedor-de-cercas","title":{"rendered":"O VENDEDOR DE CERCAS"},"content":{"rendered":"<p> Nei Ducl\u00f3s <\/p>\n<p>Preciso contar a hist\u00f3ria de L\u00ea, o vendedor de cercas.  Quem me lembrou dele foi a mulher que reencontrei e que estava brigada comigo. Ela, ou eu, tinha aprontado algo que n\u00e3o consigo identificar, j\u00e1 que tudo isso me foi soprado num sonho (o que n\u00e3o significa que seja inven\u00e7\u00e3o minha). Brigamos depois de nos dizer algumas coisas. Era um assunto relacionado, talvez, ao comportamento profissional em determinada situa\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o me agradara.<\/p>\n<p>Possivelmente uma reportagem mal costurada, um atraso na entrega da mat\u00e9ria. Desaven\u00e7as comuns neste of\u00edcio complicado. Quantas vezes levei duras de chefes de qualquer g\u00eanero? Mas, insisto, era tudo um sonho, e nada tinha a ver com meus ru\u00eddos reais (pelo menos eu acreditava nisso). Parece que ela aceitou, relutante, as cr\u00edticas, e foi-se embora, n\u00e3o sem antes virar para mim e me falar de L\u00ea, o vendedor de cercas.<\/p>\n<p>\u201cEle era muito seu amigo\u201d, me disse, quase num tom de censura por eu n\u00e3o recordar de ningu\u00e9m que tivesse um nome parecido ou estivesse envolvido com t\u00e3o estranha ocupa\u00e7\u00e3o. Ela se referira a L\u00ea na primeira vez em que nos falamos nesse reencontro desastroso. Mas eu n\u00e3o prestei aten\u00e7\u00e3o. S\u00f3 depois, quando pronunciou a palavra amigo, me veio subitamente a vis\u00e3o de algu\u00e9m que estava confinado numa profiss\u00e3o que n\u00e3o lhe dizia respeito. Uma pessoa interessada em literatura e que lera alguns cl\u00e1ssicos que eu ignorava.<\/p>\n<p>Meu desconhecimento em rela\u00e7\u00e3o a autores obrigat\u00f3rios fez com que L\u00ea gastasse seu latim por um bom tempo em bares perdidos de periferias ocupadas por essas gigantescas empresas de comunica\u00e7\u00e3o, que se recolhem longe dos bairros habit\u00e1veis para economizar e fazer sofrer seus jornalistas.<\/p>\n<p>Talvez L\u00ea fosse uma daquelas pessoas que puxaram conversa comigo quando eu tomava uns rebites em pleno fechamento. Uma cachacinha nordestina, uma cerveja gelada, tudo para esquecer a obriga\u00e7\u00e3o de fazer t\u00edtulos, ler textos alheios, aturar chefes, cumprir prazos. L\u00ea viu que eu n\u00e3o estava satisfeito e veio me falar de coisas que a princ\u00edpio me pareceram interessantes, ou seja, estavam fora do meu circuito med\u00edocre de jornalismo metido a besta.<\/p>\n<p>Ele me falava de grandes alambrados, cercas gigantescas que precisavam ser levantadas para cercar latif\u00fandios ou ent\u00e3o pequenas propriedades pr\u00f3speras assustadas com o avan\u00e7o da mis\u00e9ria e da viol\u00eancia. Isso come\u00e7ou a acontecer, acredito, nos anos 80, h\u00e1 muito tempo, portanto. Era o in\u00edcio da avalanche que tomou conta do pa\u00eds e L\u00ea era o cara certo no momento certo. Costumava ser convocado em todos os cantos. Paulista da Mooca, adquiriu v\u00e1rios sotaques para se adaptar \u00e0s exig\u00eancias dos compradores e poder assim repassar alguma credibilidade.<\/p>\n<p>Quem compra precisa acreditar no vendedor. Se L\u00ea falasse um bom gauch\u00eas avan\u00e7ado, tornava-se irresist\u00edvel, principalmente nas novas fronteiras, onde propriet\u00e1rios de terra subsidiados passavam do acampamento para a ro\u00e7a bem fornida. O vendedor de cercas assim fazia a mala, mas algo faltava dentro de si. Faltava gente com quem conversar sobre sua secreta paix\u00e3o, a literatura.<\/p>\n<p>Eu estava aberto a confid\u00eancias, j\u00e1 que sempre vivi isolado, apesar de morar numa profiss\u00e3o dedicada ao evento, ao bafaf\u00e1, \u00e0 vitrine. Eu me recolhia como no primeiro ano do Jardim da Inf\u00e2ncia, que chamaram depois de pr\u00e9-prim\u00e1rio. Quieto, longe dos colegas, voltado para a parede, eu vivia no mundo ao qual me acostumara dentro de casa. Fiquei assim a vida toda, apesar de me violentar escolhendo uma profiss\u00e3o exatamente contr\u00e1ria a mim.<\/p>\n<p>Foi por isso talvez que fugi tanto de empregos e cidades. Queria ficar longe, no p\u00e1tio, onde levant\u00e1vamos um CTG de madeira velha, de caixote e l\u00e1 faz\u00edamos os churrascos dominicais. Mas essa solid\u00e3o e recolhimento tinham um pre\u00e7o. Precisava compartilhar, falar sobre o que via e lia. Poderia ser L\u00ea ou qualquer outra pessoa. Eu queria mesmo era conversar com gente de verdade, longe de reda\u00e7\u00f5es atulhadas de in\u00fateis iguais a mim.<\/p>\n<p>Fiz assim uma amizade profunda em algumas biroscas que eu e L\u00ea divid\u00edamos. Ele confessava que jamais poderia largar seu bem remunerado emprego, que lhe proporcionava condi\u00e7\u00f5es de comprar livros antigos, aqueles grandes, de letras redondas e margens infinitas. Lamentava n\u00e3o saber russo para ler Tolstoi e Tchecov no original. Prefiria as tradu\u00e7\u00f5es antigas, de escritores brasileiros, do que estas mais recentes, a cargo de tecnocratas da linguagem. Preferia que os russos passassem antes pela suavidade do franc\u00eas e s\u00f3 da\u00ed para a nossa l\u00edngua, como acontecia antigamente. Havia tamb\u00e9m o encanto de edi\u00e7\u00f5es dos anos 40, 50 ou 60 a exibirem aquele ran\u00e7o lusitano que o Pasquim, a partir de 1969, demoliu.<\/p>\n<p>L\u00ea, o vendedor de cercas, era muito meu amigo. Mas como sou um ingrato e deixo pessoas como deixo cidades, tinha me esquecido completamente dele. Foi preciso que num sonho, algu\u00e9m que eu desconhecia completamente e que me contrariara em alguma coisa, me avivasse a mem\u00f3ria. Qual seria a liga\u00e7\u00e3o entre a mulher do sonho e L\u00ea, o vendedor de cercas? Teriam filhos? Por que, em vez de brigar, n\u00e3o fiz perguntas, como qualquer criatura humana faria? L\u00ea estaria no Exterior, em pa\u00edses remotos, da \u00c1frica ou \u00c1sia, levantando alambrados? Ela o estaria esperando em algum porto? L\u00ea aprendera, enfim, o russo? Estivera naquela parada onde Tolstoi sentou-se fugido da fam\u00edlia, com mais de 80 anos de idade? Teria L\u00ea escrito algum livro?<\/p>\n<p>Cada personagem \u00e9 um mist\u00e9rio. Esse me escapou, por eu ser t\u00e3o distra\u00eddo. Mesmo que eu volte \u00e0queles bares da periferia, n\u00e3o poderia reencontr\u00e1-lo. L\u00ea deve estar aposentado, conversando com escritores fugidos, na Jamaica ou em Born\u00e9u. Ou estaria na vala comum de nosso amplo territ\u00f3rio, flagrado por um tiro de tocaia, por um inconformado propriet\u00e1rio que n\u00e3o gostou do servi\u00e7o, ou de um vizinho que reclamava das medidas, das balizas, do material usado? Jamais saberemos. S\u00f3 mesmo um sonho para traz\u00ea-lo de volta. Assim mesmo por um instante s\u00f3, como quem l\u00ea um t\u00edtulo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ele me falava de grandes alambrados, cercas gigantescas que precisavam ser levantadas para cercar latif\u00fandios ou ent\u00e3o pequenas propriedades pr\u00f3speras assustadas com o avan\u00e7o da mis\u00e9ria e da viol\u00eancia. Isso come\u00e7ou a acontecer, acredito, nos anos 80, h\u00e1 muito tempo, portanto. Era o in\u00edcio da avalanche que tomou conta do pa\u00eds e L\u00ea era o cara certo no momento certo. Costumava ser convocado em todos os cantos. Paulista da Mooca, adquiriu v\u00e1rios sotaques para se adaptar \u00e0s exig\u00eancias dos compradores e poder assim repassar alguma credibilidade.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[5],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/948"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=948"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/948\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1731,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/948\/revisions\/1731"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=948"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=948"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=948"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}