{"id":950,"date":"2009-12-13T23:24:20","date_gmt":"2009-12-14T01:24:20","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=950"},"modified":"2009-12-21T23:03:02","modified_gmt":"2009-12-22T01:03:02","slug":"agosto-atipico","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/agosto-atipico","title":{"rendered":"AGOSTO AT\u00cdPICO"},"content":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>\u00c9 arriscado dizer que agosto parece humano depois da sordidez dos meses anteriores, em que mergulhamos no mais tenebroso Inverno. Vai que o tempo vira de novo, ou que, Deus nos livre, algum outro g\u00eanio morra. Houve at\u00e9 a morte providencial de Ingmar Bergman e Michelangelo Antonioni um pouco antes da chegada do m\u00eas fat\u00eddico (ou teria sido seu pren\u00fancio?).<\/p>\n<p>Talvez este agosto tenha tra\u00eddo sua natureza e resolveu provar que a implic\u00e2ncia contra ele n\u00e3o deveria existir. H\u00e1 perda em qualquer \u00e9poca do ano. Por que acusar agosto de crimes que em todos os meses se cometem? Por que sentir saudade de janeiro, quando sabemos que \u00e9 tempo de inunda\u00e7\u00f5es e tempestades? Por que celebrar fevereiro se o pa\u00eds p\u00e1ra e as estradas ficam coalhadas de acidentes?<\/p>\n<p>E julho, m\u00eas de f\u00e9rias, com seus apag\u00f5es a\u00e9reos? Por que ansiar por setembro, se sabemos que a trag\u00e9dia n\u00e3o escolhe data nem o amor exibe algum capricho sazonal? O que dizer de novembro, ent\u00e3o, com suas torres despencando em milh\u00f5es de peda\u00e7os? Por que culpar agosto quando existem tantos candidatos \u00e0 condena\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Identificar os meses selecionando eventos que tracem seu perfil, gerando assim defini\u00e7\u00f5es impostas, baseadas em evid\u00eancias aleat\u00f3rias, \u00e9 mais uma heran\u00e7a da astrologia popular do que da realidade. O \u00e1libi \u00e9 que qualquer defesa feita poderia escorregar em algum grande terremoto.<\/p>\n<p>Ter perdido tanta gente brilhante em agosto n\u00e3o significa nada quando sabemos que Charles Chaplin se foi no Natal. Para quem teve uma experi\u00eancia dolorosa num m\u00eas qualquer, a passagem por agosto pode at\u00e9 ser um al\u00edvio, por n\u00e3o lhe trazer nenhuma lembran\u00e7a pesada. Talvez fosse o caso de fazer com que agosto assuma outra vestimenta. Poder\u00edamos inverter a m\u00e1 fama escolhendo agosto como o m\u00eas do balan\u00e7o, j\u00e1 que o ano custa tanto a come\u00e7ar.<\/p>\n<p>Depois das festas da virada do ano, do Carnaval e da P\u00e1scoa, dos recessos parlamentares e das leis adiadas, depois que se esgotam as desculpas dos governantes, das dietas e das mudan\u00e7as que nunca s\u00e3o levadas a s\u00e9rio, chegaria uma \u00e9poca, exatamente este m\u00eas t\u00e3o pouco considerado, em que mergulhar\u00edamos coletivamente numa reflex\u00e3o sobre o que estamos fazendo com nossas vidas.<\/p>\n<p>Seria a chance de provar que o acaso n\u00e3o \u00e9 determinante dos destinos, que nossos rumos poderiam sofrer a influ\u00eancia do que matutamos, debatemos, definimos. Poder\u00edamos escolher agosto como o m\u00eas em que as palavras voltam ao seu leito normal e nomeiem as coisas e os eventos sem o brilhareco das ilus\u00f5es ou das falsidades. Agosto seria ent\u00e3o aquele vale, n\u00e3o de l\u00e1grimas, que delas nos servimos em qualquer tempo, mas de um olhar mais atento ao que somos.<\/p>\n<p>Seria o ambiente ideal para decis\u00f5es mais profundas, que nos atinjam em cheio. Pois vamos o tempo todo empurrando para frente o que sabemos ser fundamental para n\u00f3s. Um dia, quem sabe, costumamos dizer, mentindo por dentro. Pois se escolhermos agosto para a tomada de posi\u00e7\u00e3o, quem sabe esta seria uma \u00e9poca aguardada com alegria, ano ap\u00f3s ano, em que poder\u00edamos somar vit\u00f3rias no lugar de temer repres\u00e1lias do destino? Ter\u00edamos assim motivos de sobra para celebrar agosto.<\/p>\n<p>Esperar\u00edamos sua chegada como o momento decisivo em que n\u00e3o ter\u00edamos mais motivos para deixar as coisas para mais tarde. Seria o rito de passagem n\u00e3o para o final pregui\u00e7oso do ano, mas para o n\u00edvel ao qual sempre aspiramos. Esse n\u00edvel nada tem a ver com status ou gl\u00f3rias, mas com o que queremos fazer, gostamos de fazer e sabemos que isso \u00e9 o que nos tornar\u00e1 completos.<\/p>\n<p>Podemos at\u00e9 torcer que uma id\u00e9ia assim, jogada a esmo como semente em territ\u00f3rio incerto, n\u00e3o fique para tr\u00e1s, como costuma acontecer. Pois qualquer proposta passa antes pelo corredor polon\u00eas das cr\u00edticas e desconfian\u00e7as. &#8220;Ora, mas isso n\u00e3o vai dar certo. J\u00e1 pensaram antes e o que aconteceu?&#8221; D\u00favidas assim seriam a primeira prova. Os outros meses agradeceriam. Principalmente dezembro, que ficaria assim livre apenas para as festas. Certamente haveria menos choro no Natal e Ano Novo, j\u00e1 que as grandes decis\u00f5es foram tomadas em agosto.<\/p>\n<p>Haveriam brindes de verdade, sem o peso amargurado dos balan\u00e7os de fim de ano. Pois agosto, como um mensageiro que traz a boa nova, teria dado conta do servi\u00e7o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Depois das festas da virada do ano, do Carnaval e da P\u00e1scoa, dos recessos parlamentares e das leis adiadas, depois que se esgotam as desculpas dos governantes, das dietas e das mudan\u00e7as que nunca s\u00e3o levadas a s\u00e9rio, chegaria uma \u00e9poca, exatamente este m\u00eas t\u00e3o pouco considerado, em que mergulhar\u00edamos coletivamente numa reflex\u00e3o sobre o que estamos fazendo com nossas vidas.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[6],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/950"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=950"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/950\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1785,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/950\/revisions\/1785"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=950"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=950"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=950"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}